Tocantins enfrenta alta em casos respiratórios enquanto o país discute novos protocolos de atenção básica

Tocantins enfrenta alta em casos respiratórios enquanto o país discute novos protocolos de atenção básica
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Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 28 de outubro de 2025 5

O Tocantins enfrenta um aumento expressivo nos casos de doenças respiratórias e alérgicas neste trimestre, refletindo uma tendência nacional de elevação de síndromes gripais e virais. Dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES-TO) e de municípios como Araguaína e Palmas mostram crescimento contínuo de atendimentos em unidades básicas e pronto-atendimentos, especialmente entre crianças e idosos.

De acordo com boletim recente da SES-TO, até meados de setembro foram registrados 52 casos de Influenza A, 259 de Rinovírus, 48 de Vírus Sincicial Respiratório (VSR), 1 de Adenovírus e 8.291 casos de Covid-19 em todo o estado. O número representa uma alta em relação ao mesmo período do ano passado, quando o Tocantins acumulava 263 casos de Influenza A e 242 de VSR, porém com menor circulação de Rinovírus — o vírus que hoje responde pela maior parte das infecções leves e moderadas.

Araguaína acende alerta: 80% dos atendimentos infantis são respiratórios

Em Araguaína, o município com maior rede pública do norte tocantinense, o Pronto Atendimento Infantil (PAI)registrou 5.220 atendimentos em abril de 2025, ante 4.370 em março — um aumento de 19,4%. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, mais de 80% dos atendimentos foram relacionados a síndromes respiratórias.

O quadro se repete em Palmas e Colinas do Tocantins, onde profissionais de saúde relatam aumento de procura por atendimento para tosse persistente, bronquiolite e rinite alérgica. Em ambas as cidades, a maior parte das consultas ocorre em unidades básicas de saúde e prontos-atendimentos 24 h.

Fatores climáticos e ambientais

O avanço das doenças respiratórias coincide com o período mais seco do ano no Tocantins. Segundo a meteorologista Elizabeth Alves Ferreira, do INMET, o estado atravessa uma fase de umidade relativa abaixo de 30% e temperaturas médias entre 36 °C e 39 °C, condições que favorecem a suspensão de poeira e poluentes no ar.

“Com o ar seco, há maior concentração de partículas suspensas e irritantes respiratórios. Isso facilita inflamações nas vias aéreas e agrava quadros de asma, bronquite e rinite”, explica a meteorologista.

O aumento da poluição urbana — resultado de queimadas em áreas rurais e tráfego intenso — também é citado por médicos como um dos principais agravantes para crises respiratórias, especialmente em pacientes com doenças pré-existentes.

Situação no Brasil e novos protocolos de atenção básica

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta, por meio do programa InfoGripe, que o país registra crescimento de 91% nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) entre as semanas epidemiológicas 19 e 22 de 2025. O Tocantins aparece entre os 15 estados em alerta por aumento de internações.

O Ministério da Saúde, em resposta ao cenário nacional, revisa os protocolos de atenção básica, com previsão de reforço de testagem rápida, ampliação do uso de antivirais e melhoria na notificação digital de casos leves, além de incentivo à vacinação contra Influenza e Covid-19 — cuja cobertura segue abaixo da meta em boa parte do país.

Desafios locais e perspectivas

No Tocantins, a baixa adesão vacinal agrava o quadro. Segundo a SES-TO, menos de 45% da população prioritáriahavia tomado a dose anual da vacina contra a gripe até agosto. O índice está abaixo da média nacional e é considerado insuficiente para conter a disseminação do vírus entre crianças, gestantes e idosos.

Profissionais da rede pública relatam ainda pressão sobre unidades básicas de saúde e dificuldade em manter estoque de nebulizadores e medicamentos broncodilatadores. Em Colinas, a Secretaria Municipal de Saúde informou que os estoques de prednisolona e budesonida estão em “nível crítico”.

“A combinação de ar seco, fumaça e baixa cobertura vacinal cria um ambiente de risco contínuo”, resume um clínico ouvido pela reportagem. “A demanda cresce, mas a capacidade de resposta ainda é limitada em algumas regiões.”

O avanço das doenças respiratórias no Tocantins ilustra um desafio duplo: condições climáticas adversas e falhas estruturais na prevenção e no cuidado básico. Enquanto o país debate novos protocolos de atenção primária, o estado precisa enfrentar a alta sazonal com ações imediatas — reforço de vacinas, ampliação de equipes e comunicação clara com a população.

“O caminho é integrar vigilância epidemiológica, clima e atenção básica”, avalia Elizabeth Ferreira. “Sem prevenção, o sistema seguirá reagindo, e não se antecipando às doenças.”

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