Furacão Melissa devasta o Caribe e acende alerta sobre a era das supertempestades

Furacão Melissa devasta o Caribe e acende alerta sobre a era das supertempestades
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 29 de outubro de 2025 6

O Furacão Melissa atingiu a Jamaica na noite de segunda-feira (28) com ventos de até 295 km/h, segundo o National Hurricane Center (NHC), tornando-se a tempestade mais forte a atingir o país neste século. O impacto devastou cidades costeiras, destruiu moradias, interrompeu o fornecimento de energia e provocou ao menos sete mortes confirmadas até a tarde desta terça.
De acordo com a Reuters, o governo jamaicano decretou estado de desastre e iniciou evacuações em massa nas regiões de St. Elizabeth e Manchester, as mais atingidas pelas enchentes.

Após atravessar a ilha, Melissa perdeu força, mas mantém categoria 3 ao se aproximar de Cuba, onde autoridades evacuaram mais de 200 mil pessoas. As Bahamas e partes do litoral da Flórida permanecem sob alerta de marés altas e ondas acima de seis metros.

Destruição e colapso de infraestrutura

Imagens divulgadas pela Associated Press mostram bairros inteiros alagados e estradas intransitáveis. A companhia estatal Jamaica Public Service Company informou que mais de 500 mil residências estão sem energia elétrica.
Na capital Kingston, ventos arrancaram telhados e provocaram desabamentos parciais em construções históricas. Aeroportos permanecem fechados, e o turismo — setor que representa quase 10 % do PIB jamaicano — está paralisado.

Meteorologistas da National Geographic Brasil classificaram o fenômeno como exemplo típico de intensificação rápida, processo em que furacões ganham potência em menos de 24 horas. A explicação está nas temperaturas recordes do Atlântico Caribenho, que atingiram 31 °C no mês de outubro — a média mais alta em 40 anos.

Mudança climática e a nova era das supertempestades

Pesquisadores da Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontam que Melissa reforça o padrão de supertempestades tropicais observado nos últimos cinco anos. “Estamos testemunhando o efeito direto do aquecimento dos oceanos e da atmosfera”, declarou a climatóloga Petra Alvarado, em entrevista à CNN Brasil. “O que antes era raro, agora se tornou recorrente.”

A OMM estima que, desde 2017, a frequência de ciclones de categoria 4 ou 5 aumentou 45 % na região do Atlântico. Além dos impactos ambientais, o fenômeno pressiona economias frágeis e gera migrações climáticas — um tema cada vez mais presente em fóruns da ONU.

Consequências econômicas e sociais

A Jamaica já calcula prejuízos superiores a US$ 2 bilhões, valor equivalente a 8 % do PIB nacional, segundo o Ministério das Finanças local. Hospitais operam com geradores, e escolas foram convertidas em abrigos. O governo cubano também mobilizou forças civis e militares para reforçar diques e escoar famílias das regiões de Cienfuegos e Matanzas.

Nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Furacões prevê apenas efeitos indiretos, como ressacas e fortes marés na costa da Flórida. Ainda assim, companhias aéreas cancelaram voos internacionais e suspenderam cruzeiros rumo ao Caribe.

Para economistas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o impacto de Melissa será “profundo e duradouro” para países cuja infraestrutura já sofria com déficits de investimento e dependência do turismo.

A força da natureza e o alerta global

O furacão Melissa simboliza a convergência entre fenômenos naturais extremos e falhas de adaptação climática. Com intensidade comparável à do Furacão Gilbert (1988), que devastou a mesma região, a nova tempestade expõe as desigualdades estruturais na capacidade de resposta dos países tropicais.

Especialistas alertam que o episódio deve acelerar discussões sobre financiamento climático internacional e transferência de tecnologia para mitigação de desastres.
Para o pesquisador Jean Carlo Barbosa, da Universidade de Lisboa, “cada furacão dessa magnitude representa não apenas uma tragédia humanitária, mas também um retrato da nova geopolítica do clima: o Sul global pagando o preço da emissão do Norte”.

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