William Bonner deixa o Jornal Nacional após 29 anos: o adeus de um âncora que atravessou gerações, governos e revoluções na TV
Quando William Bonner assumiu a bancada do Jornal Nacional, em abril de 1996, o Brasil que ele via pela câmera era outro. O país vivia os primeiros anos do Plano Real, que havia estabilizado a moeda há menos de dois anos; Fernando Henrique Cardoso era presidente; o desemprego batia 4,6%; internet discada começava a surgir nos lares; redes sociais sequer existiam como conceito; e a TV aberta era o centro emocional, informativo e cultural da casa brasileira.
O Jornal Nacional — programa líder absoluto de audiência desde sua criação — era o principal veículo de informação do país. Naquele momento, alcançava cerca de 60 pontos no Ibope, chegando a quase 80% dos televisores ligados em dias de maior repercussão. O telejornal simbolizava unidade: todo o Brasil parava para ver, ouvir e confiar no que estava no ar. E foi exatamente nesse contexto que Bonner assumiu, vindo da editoria de rede em São Paulo e trazendo para a sua apresentação a dicção pausada, o tom técnico e o olhar direto que o consagrariam.
Bonner passou a viver em tempo real os principais acontecimentos que mudariam a história nacional: a reeleição de FHC, o impeachment de Dilma Rousseff, os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, a ascensão das redes sociais, as jornadas de junho de 2013, a pandemia de COVID-19, a polarização política, o avanço do jornalismo em tempo real e a perda de hegemonia da televisão para o ambiente digital.
Em quase três décadas, ele apresentou eleições, coberturas especiais, tragédias, invasões de Brasília, transmissões históricas e entrevistas presidenciais que entraram para o debate público — como as de 2022, em que o Jornal Nacional redefiniu o papel da TV aberta em ciclos eleitorais, ao vivo, com milhões de interações simultâneas nas redes.
Hoje, o Jornal Nacional já não tem mais o mesmo domínio absoluto da audiência — disputado por redes sociais, múltiplos canais, streaming e creators jornalísticos — mas segue líder e mantém força cultural expressiva, com sua abertura reconhecida como símbolo de credibilidade no país. Em 2025, o telejornal oscila entre 23 e 27 pontos de média, ainda no topo da TV aberta, mas em ambiente fragmentado e hiperconectado.
Bonner, nesse processo, tornou-se o último grande âncora de era analógica — o último rosto da TV de massa que dialogou com o país inteiro antes da internet — e, ao mesmo tempo, a principal figura a conduzir o telejornalismo para o século XXI.
Momentos marcantes da carreira no JN incluem:
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O anúncio da morte de Ayrton Senna
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As transmissões da queda das Torres Gêmeas em 2001
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As coberturas sobre o Mensalão e a Operação Lava Jato
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As edições especiais da pandemia em 2020
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As entrevistas presidenciais no estúdio em 2022
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O ato histórico em que Bonner, em rede nacional, declarou: “Nós não somos inimigos de ninguém. Nós somos jornalistas.”
Em 2026, ele passa a integrar o time do Globo Repórter e deve assumir também um novo formato de entrevistas de longo fôlego na emissora.