Da infância no Agreste à consagração nacional: Alexandre Lino celebra trajetória e destaca humor como resistência

Da infância no Agreste à consagração nacional: Alexandre Lino celebra trajetória e destaca humor como resistência
Crédito: Divulgação
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 5 de novembro de 2025 21

Natural de Gravatá, cidade do Agreste de Pernambuco, o ator e diretor Alexandre Lino transformou uma infância distante dos grandes palcos brasileiros em ponto de partida para uma das carreiras mais versáteis do teatro contemporâneo. Criado entre circos itinerantes, sessões de cinema local e personagens populares como Mazzaropi e Os Trapalhões, Lino cedo percebeu que a arte, mesmo longe das metrópoles, podia ser território de pertencimento.

“Era uma realidade sem teatro, sem companhia artística, sem grandes referências culturais perto de mim. Mas eu já carregava a certeza de que aquele universo era meu”, relembra.

Aos 18 anos, deixou Pernambuco e mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar artes cênicas. Sem garantias de sustento, mas com o que definiu como “urgência criativa”, ingressou em cursos livres e passou a circular pelos grupos de teatro experimental da cidade. Não tardou para se estabelecer: hoje, Alexandre Lino é ator, diretor, produtor, documentarista e Mestre em Artes Cênicas pela UNIRIO.

Do drama à pesquisa: uma trajetória moldada pela inquietação

Embora tenha construído carreira sólida em montagens dramáticas — como O Pastor, Volúpia da Cegueira, Eles Eram Muitos Cavalos, Cafona e Sim, e Daí?, em homenagem a Sérgio Britto —, Lino se define antes como um “artista inquieto”. Segundo ele, a função de dirigir não nasceu de ambição técnica, mas da necessidade de compartilhar questões criativas.

“Sou um ator que dirige. Dirijo porque preciso partilhar inquietações, não porque queria ser diretor”, diz.

As peças, como ele resume, não são projetos isolados — mas encontros entre pessoas, ideias e afetos. Essa abordagem colaborativa marcou não só seus espetáculos adultos, mas também trabalhos voltados para o público infantil e adaptações de autores clássicos.

O risco da comédia e a chegada ao grande público

Foi apenas em 2017 que Alexandre Lino decidiu arriscar-se na comédia. A escolha, conta, contrariou expectativas do circuito teatral mais tradicional — acostumado a associar prestígio à linguagem dramática.

“Durante muito tempo, humor e reconhecimento não caminharam juntos. A comédia é vista como menor — mas poucas coisas são tão difíceis quanto fazer rir de verdade”, afirma.

A guinada deu resultado. Com a estreia de O Porteiro, Lino alcançou plateias antes distantes do seu trabalho – lotou teatros, foi indicado ao Prêmio do Humor, criado por Fábio Porchat, e viu a peça tornar-se filme. A obra marcou sua aproximação do público popular sem abrir mão de pesquisa e densidade artística.

Cinema, travessias e uma personagem que transformou o artista

Formado também em cinema, Lino dirigiu o curta Lady Christiny — sobre uma travesti religiosa e conservadora. O filme circulou por festivais no Brasil e no exterior e foi posteriormente adaptado para espetáculo solo, aprofundando o mergulho do ator em temas de identidade, fé e corpo.

“Quando você se empresta a uma vida que não é sua, quando pesquisa, convive e sente a experiência do outro no corpo, algo muda. Lady Christiny não foi só uma obra. Foi uma travessia”, conta.

“Arte me salvou”

Hoje, reconhecido nos palcos, no audiovisual e no circuito acadêmico, Alexandre Lino apresenta seu percurso com simplicidade: “Arte me salvou. E continua salvando”, diz. “Eu existo em cena porque o público existe. É para eles — e por eles — que eu faço tudo.”

Entre o garoto do interior que assistia à comédia popular e o artista que fez dela resistência criativa, o tempo não apagou a inquietação que move a obra. Talvez seja essa a marca mais constante de Alexandre Lino: o humor como coragem e o palco como lugar possível — mesmo para quem começou em uma cidade onde o palco nem existia.

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