Príncipe William destaca papel dos povos indígenas e cobra “coragem climática” em discurso na COP30
Belém (PA) — O príncipe William, herdeiro da coroa britânica, fez nesta terça-feira (11) um dos discursos mais comentados da COP30, conferência climática da ONU sediada pela primeira vez no Brasil. Diante de chefes de Estado, diplomatas, cientistas e lideranças sociais, o britânico de 43 anos defendeu a centralidade dos povos indígenas nas políticas de combate ao aquecimento global e cobrou “coragem coletiva” para cumprir metas ambientais antes de 2030.
Saudação em português e aceno ao Brasil
O discurso, iniciado em português com um “Bom dia! Muito obrigado, Presidente Lula, pelas boas-vindas a Belém do Pará”, foi recebido com aplausos no Hangar Centro de Convenções, onde ocorre o evento.
Em seguida, o príncipe destacou o momento histórico da conferência no território amazônico.“Estamos aqui no coração de uma das maiores potências biológicas do planeta. Se a Amazônia continuar respirando, o planeta tem chance. Se ela parar, nada mais nos salvará.”
A fala ecoa iniciativas recentes do Palácio de Kensington, que tem reposicionado William como figura pública ligada a causas ambientais globais, sobretudo após o avanço do Earthshot Prize — prêmio climático fundado por ele em 2020.
“Não estamos começando do zero”
Num tom mais incisivo que o habitual em discursos reais, William enfatizou que os países já possuem acordos, tecnologias e conhecimento científico para frear o aquecimento global.“Não estamos começando do zero — temos ferramentas, ciência e metas acordadas. Falta-nos ambição política e coragem moral para agir.”
Analistas avaliam que a fala indireta pressiona países desenvolvidos que ainda não cumpriram as metas climáticas assinadas no Acordo de Paris, como Estados Unidos, Japão e União Europeia. Também chama atenção o fato de a monarquia britânica vocalizar um discurso de responsabilização pública — um movimento raro na tradição real.
Povos indígenas como protagonistas
Um dos trechos mais elogiados foi o reconhecimento do papel dos povos originários no enfrentamento à crise climática:“Se levamos a sério a proteção do clima e da biodiversidade, os povos indígenas não podem ser consultados ao final. Precisam liderar desde o início — como guardiões, parceiros e coautores das soluções.”
A declaração tem forte ressonância no contexto brasileiro, onde a participação de representantes indígenas em conselhos ambientais ainda enfrenta resistência política.
Segundo levantamento do Rights and Resources Initiative (RRI), territórios indígenas legalmente protegidos em 24 países armazenam cerca de 37,7 bilhões de toneladas de carbono — equivalente a dez anos de emissões dos Estados Unidos.
Do simbolismo à cobrança prática
Para a professora de Relações Internacionais da USP, Marina Tavares, o discurso reafirma o novo posicionamento público da monarquia:“William está testando um modelo de diplomacia ‘pós-simbólica’, que mistura tradição real com apelo global, redes sociais, celebridades e pressão política legítima. É marketing, mas também é geopolítica climática.”
Na plateia, ministros e governadores ouviram em silêncio enquanto o príncipe citava, sem nomear, países que ainda destinam mais recursos a subsídios fósseis do que à energia limpa.
Expectativas e próximos passos
William encerra sua participação com visita às comunidades ribeirinhas do Rio Tapajós e encontro com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Não há previsão de fala pública com o presidente Lula após o evento, mas fontes do Itamaraty citam uma reunião privada para discutir cooperação científica entre Brasil e Reino Unido.
Esta é a primeira vez que um membro da família real britânica discursa em uma COP na América do Sul — e também a primeira participação oficial de William em nome de seu pai, o rei Charles III, que segue com tratamento médico.