COP30 vira campo de batalha entre ciência e marketing verde
A Conferência do Clima das Nações Unidas em Belém (PA), a COP30, começou em meio a uma disputa narrativa intensa. Enquanto cientistas alertam que o planeta está à beira de um colapso ambiental, lideranças de movimentos ambientais acusam governos e corporações de transformar o debate climático em palco de marketing verde.
A conferência, que ocorre entre 10 e 21 de novembro de 2025, reúne representantes de mais de 190 países para discutir metas de redução de emissões e novos mecanismos de financiamento climático. Mas o encontro, que deveria simbolizar união em defesa do planeta, acabou expondo divisões políticas, econômicas e éticas sobre o futuro da humanidade.
O planeta perto do ponto de não retorno
De acordo com o Financial Times, os compromissos nacionais atualizados (NDCs) apresentados por 113 países nesta COP30 resultariam em uma redução de apenas 12% nas emissões globais até 2035, tomando como base 2019. Para limitar o aquecimento a 1,5 °C, como previsto no Acordo de Paris, seria necessário cortar ao menos 33% das emissões.
Pesquisadores alertam que o planeta já ultrapassou diversos limites planetários, como desmatamento, poluição plástica e perda de biodiversidade. O consenso científico é de que a próxima década será decisiva: sem ação concreta até 2030, o aumento da temperatura global poderá provocar colapsos simultâneos em ecossistemas tropicais e boreais.
A ironia, apontam especialistas, é que o evento que deveria simbolizar o compromisso climático mundial ocorre em uma cidade que enfrenta problemas graves de saneamento e logística. Conforme revelou o Washington Post, o custo de hospedagem em Belém disparou, tornando a participação inviável para delegações de países pobres.
As tensões no centro da COP30
A conferência se estrutura em torno de três eixos principais: transição energética, financiamento climático e participação social. Mas cada um deles se transformou em campo de conflito.
1. Transição energética e contradições brasileiras
O Brasil tenta se consolidar como liderança ambiental. O país anunciou o programa Transição Verde, que prevê investimentos em energia solar, biocombustíveis e hidrogênio. No entanto, a expansão da produção de petróleo e gásna Margem Equatorial contradiz o discurso.
Reportagem do Financial Times mostra que as metas brasileiras ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis.
2. Financiamento climático, adaptação e perdas e danos
Segundo a Agência Brasil, países da África, Ásia e América Latina cobram das nações ricas o cumprimento da promessa de US$ 100 bilhões anuais para mitigação e adaptação climática. O impasse persiste desde 2009.
O chamado fundo de “perdas e danos”, voltado a desastres irreversíveis como secas e enchentes, ainda não tem formato definido, o que gera frustração entre os países mais vulneráveis.
3. Participação da sociedade civil e povos indígenas
Organizações civis e povos tradicionais protestaram nos primeiros dias da conferência. Denunciaram a falta de espaço nos painéis principais e criticaram a presença de executivos de grandes petroleiras nas mesas de discussão. O Financial Times apontou que, pela primeira vez, o número de lobistas do setor de energia fóssil superou o de representantes indígenas e de ONGs.
O discurso e a prática do Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a conferência afirmando que esta seria “a COP da verdade”. Em entrevista ao El País, Lula acusou grupos extremistas de disseminar desinformação para proteger interesses econômicos ligados à destruição ambiental.
Entretanto, o país-sede enfrenta questionamentos. Reportagem do The Guardian revelou que parte das obras de infraestrutura em Belém, realizadas para receber a conferência, provocou desmatamento em áreas de várzea.
Organizações ambientais também apontam que a meta brasileira de desmatamento zero até 2030 ainda carece de mecanismos de fiscalização efetiva.
Apesar das críticas, o Brasil apresentou o projeto Tropical Forest Forever Facility, fundo que pretende remunerar financeiramente países que preservam florestas tropicais. A proposta foi elogiada, mas ainda depende de adesão internacional e garantias de transparência.
O custo social da inação climática
Para os cientistas que participam da COP30, a falta de ambição nos compromissos internacionais representa um risco humanitário global. Eventos climáticos extremos — secas, enchentes, ondas de calor — já afetam 3 bilhões de pessoas.
Pesquisas citadas pelo Le Monde indicam que o custo da inação climática pode superar US$ 5 trilhões por ano até 2050, mais que o PIB conjunto da América Latina.
Economistas destacam que os países que mais sofrem com desastres naturais são os que menos contribuíram para o problema. A injustiça climática, tema central desta edição, revela um abismo entre os emissores históricos e as populações afetadas por catástrofes.
Um evento entre esperanças e contradições
Belém recebeu a COP30 com promessa de legado. Autoridades locais estimam investimentos de R$ 4 bilhões em obras e infraestrutura. No entanto, o Washington Post destacou que os custos de hospedagem e transporte limitam a presença de representantes da sociedade civil e da imprensa independente.
Nas ruas, o sentimento é ambíguo. Parte da população celebra o protagonismo amazônico, enquanto outra vê o evento como vitrine política. O marketing verde passou a ser expressão recorrente nos debates — referência à prática de governos e empresas que adotam discurso ambiental para encobrir práticas poluidoras.
O papel da imprensa e da sociedade
A credibilidade da COP30 depende da capacidade de transformar acordos em resultados. Para isso, a imprensa e a sociedade civil têm papel essencial: fiscalizar, contextualizar e pressionar por compromissos verificáveis.
Coberturas jornalísticas como as do Financial Times, El País e Le Monde reforçam que o desafio não é apenas técnico, mas político: manter o planeta habitável exige enfrentamento de interesses econômicos e ideológicos.
O legado incerto
A COP30 será lembrada, avaliam analistas, como o ponto de virada ou o início do descrédito definitivo no processo multilateral de combate à crise climática.
Para muitos ambientalistas, a conferência simboliza o choque entre ciência e marketing. Para outros, ainda é a última chance de reconstruir confiança.
Independentemente do desfecho, Belém tornou-se espelho das contradições do século XXI: um evento global pela preservação da Amazônia, realizado no coração de uma floresta em risco.