Portelinhando Crônicas: A Memória Que Não Nos Deixam Ter
Existem dores que o mundo aprendeu a preservar como legado. Hiroshima mantém seus sinos que ainda ecoam lamentos invisíveis. O Holocausto se ergue em museus silenciosos que guardam nomes, rostos e silêncios despedaçados. Há datas oficiais, monumentos, livros, cerimônias — tudo construído para que ninguém esqueça. E fazem bem. A memória é um ato de justiça.
Mas quando a dor é preta, o tratamento muda. De repente, a sociedade ensaia uma espécie de amnésia seletiva — um convite para varrer séculos de violência para debaixo do tapete da conveniência histórica. “Já passou”, dizem, como se quatrocentos anos coubessem em uma nota de rodapé. Como se o fim legal da escravidão tivesse, instantaneamente, curado o país. Como se as correntes tivessem se dissolvido no ar e não infiltrado os alicerces de uma sociedade que, até hoje, decide quem merece viver, lembrar, existir.
É perverso. Pedem que esqueçamos aquilo que o mundo insiste, diariamente, em nos lembrar. O racismo permanece pulsando, firme, como cicatriz que nunca fecha. Está no olhar que pesa mais que o corpo revistado na rua. Nas palavras que tentam desautorizar. Nas vidas interrompidas antes mesmo de florescer.
Ainda assim, pedem para “virar a página”. Mas como virar a página se o livro continua aberto e a tinta ainda está fresca? Como exigir silêncio de quem carrega dentro de si uma história inteira resistindo para ser ouvida? A diferença é gritante: a dor dos outros é memória; a dor preta, quando narrada, vira incômodo. A eles, concedem lembrança; a nós, exigem superação. Lá, veneram; aqui, acusam de vitimismo.
A memória preta, no entanto, não é obstáculo — é bússola. É direito. É território sagrado. Não busca piedade, nem caridade emocional. Busca respeito. Busca a dignidade de lembrar sem ser silenciada, de existir sem pedir licença.
Porque só pede para esquecer quem tem medo do que a lembrança pode transformar.
E nós — herdeiros não apenas da dor, mas da força — seguimos lembrando. Seguimos vivos. Seguimos inteiros. E a memória, essa, ninguém mais arranca de nós.