Opinião | A mentira que corre solta: por que fake news se espalham mais rápido do que fatos — e o que isso revela sobre Colinas
A política local repete, em escala reduzida, o mesmo padrão que o mundo inteiro tenta compreender: por que narrativas falsas ganham tanto espaço, mesmo quando os fatos são simples de verificar? Por que versões fabricadas com cortes, omissões ou distorções encontram terreno fértil enquanto documentos oficiais, entrevistas completas e registros públicos exigem esforço para serem lidos?
O caso envolvendo o Diário Tocantinense, o jornalista Ricardo Fernandes e a recente onda de áudios editados é um exemplo didático. A sucessão de versões desconectadas da realidade, acompanhada de comentários nas redes e de discursos inflamados, reaquece um debate fundamental: como a mentira se torna mais emocionante que a verdade — e por que tanta gente prefere compartilhá-la?
O laboratório da desinformação
Pesquisadores de psicologia social explicam há décadas que o cérebro humano reage mais rápido a estímulos emocionais do que a informações racionais. Uma mentira bem formulada — curta, simples, alarmante — ativa mecanismos de recompensa imediata. Já a verdade é mais lenta, demanda contexto, documentos, datas, nomes e responsabilidade.
Um professor da Universidade de Maryland, em estudo publicado em 2023, resume assim: “Fake news prosperam porque oferecem clareza instantânea. A verdade raramente é instantânea.”
No caso de Colinas, a circulação de áudios cortados reforçou o mesmo padrão. Trechos arrancados do contexto, publicados de forma fragmentada, geraram reações antes mesmo que as pessoas soubessem do que se tratava. Nenhuma surpresa: é exatamente isso que a desinformação busca — construir emoção antes que exista apuração.
Entre o que é dito e o que é verdade
O episódio envolvendo a fala do comunicador Jerônimo Cardoso, que mencionou o tema sem oferecer o direito de esclarecimento, mostra como a desinformação se sustenta quando versões parciais viram manchete. Se um corte de áudio já orienta o debate pela metade, uma fala transmitida sem contraponto reforça a ideia de que a verdade não precisa ser completa — basta soar convincente.
E foi assim que ganhou força a narrativa de que haveria um “pagamento devido” ao portal. Nunca houve. O que existiu, de fato, foi o contrário: uma cobrança da Prefeitura ao próprio comunicador por consumo de energia não pago, informação confirmada nos registros internos. Mas versões falsas se espalham mais rápido do que boletos.
É o que a psicologia conhece como efeito da verdade ilusória:
quando a mesma mentira é repetida muitas vezes, ela passa a “parecer” verdadeira — não porque é, mas porque a repetição cria familiaridade.
A fronteira entre liberdade de expressão e crime
Especialistas em direito digital consultados em casos semelhantes classificam a fabricação deliberada de áudios cortados e manipulações de contexto como potencial ilícito. A fronteira entre liberdade de expressão e crime é objetiva: mentir deliberadamente sobre terceiros para causar dano é difamação.
E há jurisprudência. O STJ, em decisões sobre fake news em disputas locais, tem afirmado que “a liberdade de expressão não abriga a divulgação consciente de falsidades”.
Isso vale tanto para quem produz a distorção quanto para quem a compartilha com intenção de atacar.
O jornalismo é obrigado a dar palco a toda versão?
Não. O jornalismo profissional trabalha com fatos verificáveis. Versões sem base documental não têm o mesmo peso que documentos, notas oficiais, registros cartoriais e entrevistas completas. E, quando o tema envolve serviço público, a responsabilidade é ainda maior: publicar uma mentira que parece plausível pode custar reputação, contratos, saúde financeira e até segurança física.
A pergunta correta não é: “O jornal deveria publicar todas as versões?”
Mas sim: “Todas as versões são sustentadas por fatos?”.
E, no caso do Diário Tocantinense, a resposta é simples: há documentos, há registros, há declarações formais. Do outro lado, há cortes de áudios editados e discursos de ocasião.
As perguntas que ficam — e que o leitor precisa encarar
Você já acreditou em algo só porque “todo mundo estava falando”?
Quantas vezes você compartilha antes de verificar?
Por que a mentira chega primeiro — e por que ela nos encanta?
A verdade exige paciência; a mentira entrega emoção imediata.
Até onde vai o direito de opinar?
E onde começa o dever de não destruir reputações com versões fabricadas?
Conclusão: a verdade não compete no mesmo terreno da mentira — e é por isso que ela exige jornalismo
A desinformação prospera porque nasce pronta, sem nuance e sem responsabilidade. A verdade, não. Ela exige contexto, registro, cuidado, documentos, checagem, contraditório e transparência. Ela exige esforço — e nem todo mundo quer fazer parte disso.
O caso de Colinas expõe um fenômeno global em escala municipal: não é a mentira que vence; é a preguiça diante da verdade.
E é justamente por isso que jornalismo existe.
Para lembrar que, mesmo quando a mentira chega primeiro, ela não tem obrigação de ser a última a falar.