8 fatos que expõem as negociações secretas para um “plano de paz” sem a Ucrânia

8 fatos que expõem as negociações secretas para um “plano de paz” sem a Ucrânia
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 25 de novembro de 2025 8

s últimas semanas revelaram uma movimentação paralela ao conflito Rússia-Ucrânia: reuniões discretas entre diplomatas estrangeiros tentaram avançar em um esboço de acordo para encerramento da guerra — sem participação direta da Ucrânia e sem representantes da União Europeia. A iniciativa expôs contradições centrais do atual tabuleiro geopolítico, reacendendo preocupações sobre quem detém autoridade para negociar o futuro de um país que enfrenta ocupação militar em seu próprio território.

Em meio aos encontros fechados, dois eventos ampliaram a tensão global: o ataque a Moscou que elevou retórica belicista e a intensificação de ofensivas aéreas russas no leste ucraniano. O resultado é um cenário no qual decisões tomadas longe do front podem moldar a guerra sem que quem luta nela participe.

A seguir, uma análise aprofundada dos oito pontos que ajudam a entender por que o debate sobre esse “plano de paz” tornou-se controverso.

1. A Ucrânia não foi convidada — e isso altera o eixo de legitimidade

A ausência da Ucrânia nas discussões remove o ator central de qualquer formulação política sobre encerramento do conflito. É um precedente raro no pós-Segunda Guerra Mundial. Nas principais negociações de cessar-fogo das últimas décadas — como os Acordos de Dayton (Bósnia), o Armistício da Coreia e as conversas do Vietnã — o país diretamente afetado sempre esteve presente na mesa.

Ao excluir Kiev, diplomatas criam condições para um documento que não reflete as exigências ou garantias mínimas de segurança ucranianas, como devolução dos territórios ocupados e proteção contra futuras ofensivas russas.

2. A União Europeia também ficou fora — e o impacto disso é estrutural

A exclusão da União Europeia sinaliza que as conversas podem ter sido conduzidas por países com interesses distintos dos europeus. A UE é o maior financiador civil da Ucrânia e o segundo maior apoio militar quando somados os membros individuais. É também quem absorve, econômica e socialmente, o impacto direto da guerra, incluindo fluxos migratórios, custos energéticos e reorganização de cadeias produtivas.

Sem esse bloco, as decisões tendem a refletir agendas bilaterais, não consensos multilaterais.

3. O ataque recente a Moscou agravou o clima e endureceu posições

O ataque a Moscou, amplamente divulgado nas redes e confirmado por fontes russas, reforçou a postura de cerco interno do Kremlin. A retórica oficial passou a defender respostas militares mais amplas e aumento da “defesa preventiva”. Ao mesmo tempo, líderes europeus passaram a pressionar por maior coordenação, temendo que novos episódios ampliem o conflito para além das fronteiras ucranianas.

Esse ambiente reduz a margem diplomática e torna qualquer negociação feita sem Kiev mais arriscada.

4. Conversas secretas ignoram o princípio da autodeterminação dos povos

Desde 1945, o sistema internacional opera com base no princípio da autodeterminação, previsto na Carta da ONU. Negociar um acordo de paz sem o país invadido fere esse princípio e recua para lógicas anteriores ao século XX, quando potências definiam fronteiras alheias em pactos reservados.

Especialistas em direito internacional classificam esse modelo como politicamente inviável, porque pode abrir precedentes para rearranjos territoriais impostos por atores externos.

5. Existe risco concreto de concessões territoriais feitas à revelia da Ucrânia

Fontes diplomáticas ouvidas por veículos europeus afirmam que partes das conversas tratam de cenários envolvendo “status especial” para a Crimeia ou reconhecimento permanente das áreas ocupadas no leste ucraniano.

Concessões dessa natureza, feitas sem aprovação formal de Kiev, poderiam fragilizar o país e estabelecer que anexações por força militar podem ser normalizadas por acordos entre terceiros.

6. A Rússia tenta reposicionar sua imagem enquanto pressiona militarmente

Nos últimos quatro meses, a Rússia adotou estratégia dupla: intensificação de ataques em Donetsk e Kharkiv enquanto envia sinais públicos de que está disposta a negociar “desde que suas condições básicas sejam respeitadas”.

Os dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) indicam aumento de incursões russas em áreas urbanas estratégicas, ao mesmo tempo em que a diplomacia russa amplia sua presença em conferências multilaterais na Ásia e no Oriente Médio. Esse contraste entre pressão militar e narrativa diplomática cria ambiente propício a negociações conduzidas por países que buscam estabilidade regional.

7. Atos unilaterais podem fragmentar alianças ocidentais

Nos bastidores, governos europeus demonstram preocupação com conversas paralelas que envolvam principalmente Estados Unidos e países do Sul Global. Há receio de que decisões tomadas sem coordenação com a UE enfraqueçam a posição conjunta construída desde fevereiro de 2022.

A fragmentação das alianças ocidentais pode alterar a capacidade de resposta ao avanço russo e criar divisões semelhantes às observadas durante a Guerra do Iraque, quando países europeus se dividiram entre apoio e oposição à estratégia americana.

8. Quem lucra com o debate sobre “paz sem Kiev”?

A ausência da Ucrânia favorece atores que priorizam estabilidade energética e redução de custos militares. Países dependentes de gás e petróleo russos, além de potências interessadas em reduzir tensões globais para proteger mercados, podem considerar um acordo rápido economicamente vantajoso.

No entanto, a Ucrânia paga o maior custo humano e territorial. Sem sua participação, qualquer solução tende a favorecer interesses externos, não a segurança de longo prazo do país.

O dilema central: paz para quem?

O movimento atual revela que parte da comunidade internacional busca reduzir o impacto global da guerra, enquanto outra parte teme legitimar ocupações militares. A tentativa de negociação sem a Ucrânia altera o eixo de autoridade e cria um precedente internacional delicado.

Para especialistas em relações internacionais, a questão deixada em aberto é: quem tem legitimidade para decidir o fim de uma guerra quando quem luta nela não está presente?

A resposta depende de como esses encontros secretos evoluem e de quanto pressão internacional recai sobre a necessidade de Kiev e da União Europeia integrarem — de forma plena — qualquer mesa que pretenda encerrar o conflito.

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