Portelinha: O Palácio dos Espelhos Quebrados
Há um palácio em Brasília onde os espelhos já não refletem rostos — apenas deformações. Ali, a vergonha anda de terno, a consciência pede licença para sair mais cedo e a ética, exilada, virou lenda urbana.
Nesse palácio, um homem vota contra a queda de quem já caiu. Diz “não” à perda do mandato como quem sopra sobre cinzas tentando reacender um incêndio extinto pela própria Justiça. Lá fora, os sinos da República já tinham dobrado: condenação, prisão, perda do cargo. Lá dentro, alguém fingia não ouvir.
No dia 2 de dezembro de 2025, a história escreveu mais uma de suas ironias amargas. Enquanto o Supremo selava o destino com o peso da lei, um voto solitário tentava costurar a toga rasgada com linha de conveniência. Não era mais um parecer — era um gesto simbólico de desafio às evidências.
A deputada, já atravessada pela sentença, tornara-se personagem de um teatro em que o crime usa gravata e a punição precisa pedir autorização para existir. O sistema invadido virou metáfora do próprio país: hackeado por dentro, corrompido sem alarme.
E o Congresso, esse grande salão de portas giratórias, recebia a cena com naturalidade. Ali, os que fogem e os que blindam se reconhecem pelo mesmo código silencioso. Não é preciso correr quando se tem proteção. Não é preciso se esconder quando o abrigo é institucional.
O povo observa do lado de fora, com os bolsos vazios e a esperança cansada. Vê-se, no vidro rachado da democracia, que há crimes que já não pedem fuga — pedem mandato. Há condenações que não derrubam — apenas decoram.
E assim o palácio permanece em pé, sustentado por acordos invisíveis, enquanto a verdade, do lado de fora, aprende a gritar em versos aquilo que a lei, por vezes, é impedida de concluir em atos.
Como pode?