O mapa invisível das mortes: o que os novos dados do RENAEST revelam sobre o trânsito no Brasil — e por que o Tocantins virou um ponto luminoso nesse tabuleiro de risco

O mapa invisível das mortes: o que os novos dados do RENAEST revelam sobre o trânsito no Brasil — e por que o Tocantins virou um ponto luminoso nesse tabuleiro de risco
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 10 de dezembro de 2025 5

O mapa invisível das mortes: o que os novos dados do RENAEST revelam sobre o trânsito no Brasil — e por que o Tocantins virou um ponto luminoso nesse tabuleiro de risco

Os números aparecem frios, alinhados em colunas azuis no painel interativo do Ministério dos Transportes. Mas bastam alguns minutos diante da plataforma do Registro Nacional de Sinistros e Estatísticas de Trânsito (RENAEST) para perceber que não se trata apenas de estatística — é um retrato de como o Brasil se move, se cruza, se choca e, demasiadas vezes, se perde no caminho.

O país contabiliza 8.115.663 sinistros, envolvendo 11.363.237 veículos, com 11.397.811 pessoas feridas ou ilesas e 184.627 mortes. Em termos proporcionais, são 85,42 óbitos por 100 mil habitantes e 14,52 mortes para cada 10 mil veículos circulantes — números que colocam o Brasil entre as nações que mais matam no trânsito, superando índices de países com populações menores e frotas menos intensas, mas também de nações mais ricas e urbanizadas.

Os dados, consolidados pela Senatran, mostram não apenas volume, mas densidade. Um país de 216,1 milhões de habitantes e 127,1 milhões de veículos registrados espalhados numa frota ativa de 90,1 milhões. Isso implica que praticamente um veículo está em circulação para cada 2,4 brasileiros — um indicador que reflete crescimento econômico, interiorização da malha rodoviária e dependência crônica do transporte individual.

Mas entre números tão grandes, um estado pequeno aparece com uma nitidez incômoda: o Tocantins.

O ESTADO QUE BRILHA NO PAINEL, MAS DO JEITO ERRADO

No mapa do RENAEST, cada estado surge sombreado por densidade de ocorrências fatais. O Tocantins, com seus pouco mais de 1,6 milhão de habitantes, destaca-se porque combina três fatores raros no país:

  1. grandes distâncias rodoviárias com baixa presença de centros urbanos,

  2. intensa circulação de veículos pesados,

  3. vias que funcionam como espinha dorsal entre Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

A BR-153 — eixo nacional de escoamento agrícola — e a TO-050 — rota essencial entre Palmas e o sul do estado — funcionam como corredores de risco. Motoristas de longa distância, caminhões carregados e motociclistas que usam a rodovia como extensão da vida cotidiana se encontram em velocidades altas e margens estreitas. A consequência aparece nos números.

Os técnicos do Ministério dos Transportes explicam que rodovias de tráfego misto — onde pedestres, motos, carros e cargas competem pelo mesmo espaço — concentram taxas de letalidade maiores do que vias urbanas. No Tocantins, mais de 70% da malha é composta de estradas estaduais e federais que atravessam cidades pequenas, áreas rurais e trechos isolados. O resultado é um desenho estrutural que condiciona o risco.

A DINÂMICA OCULTA DAS MORTES NO TRÂNSITO

O Brasil aparece com 2,27% de letalidade entre todos os sinistros registrados. À primeira vista, o número parece baixo. Mas, quando multiplicado por mais de 8 milhões de ocorrências, produz as quase 185 mil mortes observadas.

Para efeito de comparação:

  • é como se uma cidade inteira de porte médio desaparecesse todos os anos,

  • é mais do que o dobro das mortes anuais por homicídios em países europeus,

  • é equivalente a 500 mortes por dia, entre colisões, atropelamentos e capotamentos.

No Tocantins, as notificações apontam fenômenos similares aos de regiões com características logísticas parecidas, como Rondônia e Mato Grosso: um trânsito fortemente dependente de rodovias e motocicletas. Em algumas cidades tocantinenses, as motos representam mais de 60% da frota ativa, o que aumenta a vulnerabilidade de jovens entre 18 e 35 anos — o grupo que mais morre no trânsito brasileiro.

ENTRE A ESTATÍSTICA E A INFRAESTRUTURA

A plataforma do RENAEST deixa claro que a coleta de dados no país ainda sofre com desigualdades. Há municípios que registram sinistros com rapidez e detalhamento; outros, especialmente em zonas rurais, notificam tardiamente ou não notificam.

Mesmo assim, a intensidade das mortes no Tocantins não se explica apenas pela falta de informação. Há fatores estruturais:

  • trechos extensos sem iluminação,

  • sinalização desgastada,

  • pontos de ultrapassagem perigosa,

  • fiscalização irregular em áreas de baixa densidade,

  • frota crescente sem expansão proporcional da engenharia viária.

O retrato sugere um estado que expandiu mobilidade, mas não expandiu proporcionalmente sua proteção.

POLÍTICA, INVESTIMENTO E OMISSÃO

Especialistas consultados pela reportagem avaliam que a política de trânsito no Brasil funciona como um quebra-cabeça montado por diferentes mãos e sem imagem final: União, estados e municípios dividem responsabilidades, recursos e prioridades. O resultado é que a fiscalização no Tocantins ocorre em ritmo inferior à circulação de veículos, e a engenharia de tráfego é marcada por descontinuidade.

Segundo técnicos do setor, o estado recebe recursos do Governo Federal para melhorias, mas enfrenta gargalos:

  • licitações lentas,

  • trechos estaduais com restrições orçamentárias,

  • municípios com baixa capacidade técnica para executar projetos.

No fim, a conta chega pelas estatísticas.

O QUE OS NÚMEROS INDICAM SOBRE O FUTURO

Os dados do RENAEST funcionam como um alerta em tempo real. Para o Tocantins, apontam a necessidade de uma política pública que vá além de campanhas sazonais:

  • mapear trechos críticos com base nas coordenadas dos sinistros;

  • instalar redutores e radares em pontos onde a velocidade letal prevalece;

  • expandir iluminação em rotas de grande fluxo noturno;

  • criar consórcios regionais para fiscalização integrada;

  • produzir educação de trânsito adaptada à realidade de municípios pequenos.

O desafio é que, numa federação tão fragmentada, a solução raramente é rápida.

O PAINEL QUE ESCANCARA O QUE SEMPRE EXISTIU

A nova fase do RENAEST oferece um retrato mais transparente do que antes se sabia por estimativas e registros dispersos. O Tocantins, nesse mapa, aparece não como exceção, mas como símbolo de algo maior: o país que convive com a morte no trânsito como se fosse um custo inevitável da mobilidade.

Os números estão postos. A questão agora é política:
quem, entre governo federal, estados e municípios, vai assumir a responsabilidade de transformar estatísticas em vida preservada?

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