Portelinhando Crônicas: A RÉGUA ELÁSTICA DA REPÚBLICA
No Brasil, a lei não é cega — ela apenas fecha um olho quando reconhece o rosto. A tal PEC da dosimetria chegou ao Congresso como quem traz uma régua nova para medir culpas antigas. Não porque a régua anterior estivesse torta, dizem, mas porque media demais. E medir demais, num país acostumado a improvisar, é sempre visto como exagero.
O Parlamento, guardião histórico da própria sobrevivência, decidiu então ensinar ao Judiciário uma lição básica de marcenaria institucional: pena não se mede com trena de obra bruta, mas com fita métrica de alfaiate. Daquelas que esticam conforme o freguês.
Do outro lado da praça, o Supremo fingiu surpresa. Levantou a sobrancelha, pigarreou em latim e explicou, com ar professoral, que legislar é coisa do Legislativo, julgar é coisa do Judiciário, e que cada macaco deve ficar no seu galho — desde que o galho não balance demais. Afinal, ninguém gosta de cair da árvore da História.
Não houve acordo, juram todos. Foi apenas uma coincidência republicana. Um alinhamento astral institucional. O Congresso legisla, o STF compreende, e a Constituição observa, cansada, como quem já viu esse filme e sabe que o final nunca é exatamente legal, mas sempre “interpretável”.
A dosimetria virou então um exercício de diplomacia penal: nem absolve, nem condena demais; não perdoa, mas também não castiga com excesso de zelo, esse pecado mortal da Justiça quando ela resolve funcionar. O crime continua crime — apenas ganhou um desconto promocional, válido enquanto durarem as tensões entre Poderes.
No fundo, a régua não foi feita para medir crimes, mas para ajustar distâncias. Distância entre toga e terno. Entre plenário e tribunal. Entre o discurso inflamado e a cela fria. É a República aprendendo, mais uma vez, que a democracia brasileira não quebra — ela estica.
E assim seguimos, numa harmonia curiosa: o Congresso escreve a lei pensando em quem pode precisar dela; o STF a interpreta pensando em quem não pode desautorizá-la; e o cidadão comum aprende, desde cedo, que igualdade perante a lei é um princípio belíssimo — sobretudo quando observado de longe.
Porque, por aqui, a Justiça não erra a medida.
Ela apenas escolhe quem será medido em centímetros
e quem será medido em consciência.