Portelinhando Crônicas: Quando o silêncio deixa de ser neutralidade e passa a ser cumplicidade
Na crônica Quando o silêncio vira cumplicidade, João Portelinha da Silva propõe uma reflexão direta e necessária sobre como a omissão cotidiana contribui para a normalização da violência, da humilhação e da crueldade nas relações sociais. O texto parte de situações comuns, quase sempre tratadas como “normais”: a briga ouvida através da parede, o animal maltratado ignorado na rua, a humilhação pública no ambiente de trabalho, a violência disfarçada de brincadeira.
Segundo o autor, a maldade raramente se apresenta de forma explícita ou espetacular. Ela cresce silenciosamente, amparada por frases repetidas como justificativa moral: “não quero confusão”, “não é problema meu”, “cada um sabe de si”. Assim, o silêncio passa a ocupar o mesmo espaço da indiferença, criando um ambiente confortável para que abusos se repitam sem contestação.
Portelinha chama atenção para a linha tênue entre preservar a própria paz e agir por covardia. Ele destaca que, ao escolher não intervir, a sociedade ensina vítimas a aceitarem a dor como destino. Crianças aprendem que merecem pouco, mulheres naturalizam o sofrimento, trabalhadores passam a acreditar que dignidade é privilégio. O silêncio, nesse contexto, deixa marcas profundas e duradouras.
O texto reforça que não se trata de heroísmo ou confronto constante, mas de responsabilidade humana. Pequenos gestos — uma palavra firme, uma pergunta sincera, uma denúncia feita de forma segura — podem interromper ciclos de violência. Para o autor, coragem não está em grandes atos, mas em recusas diárias à normalização do erro.
Há também uma distinção clara entre tolerância e omissão. Tolerar o diferente é virtude; tolerar a maldade é cumplicidade. Quando a violência é relativizada em nome do conforto pessoal, a tolerância perde seu valor ético e se transforma em conivência.
Ao concluir, João Portelinha da Silva afirma que o mundo não muda apenas por discursos grandiosos, mas por pequenas decisões conscientes. Recusar a piada que humilha, o comentário que diminui, a agressão disfarçada de brincadeira. Recusar, sobretudo, a ideia de que “não tem nada a ver comigo”. Porque sempre tem. E quando a maldade bate à porta, é da coragem dos outros que todos esperam resposta.