Podcast “Perdigoto” transforma escuta em memória ativa do teatro no Brasil

Podcast “Perdigoto” transforma escuta em memória ativa do teatro no Brasil
Felipe Muniz PalhanoPor Felipe Muniz Palhano 27 de dezembro de 2025 12

Com episódios semanais, projeto de Aury Porto e Leonardo Ventura reúne artistas, pesquisadores e grupos de todo o país para discutir memória, formação, políticas culturais e práticas cênicas

O cenário das artes cênicas brasileiras ganha um registro histórico de fôlego com a consolidação do Podcast Perdigoto. Idealizado, roteirizado e apresentado pelos atores Aury Porto e Leonardo Ventura, o projeto nasce de um esforço monumental de dez meses de pesquisa e escuta para documentar as memórias, práticas e pensamentos de quem constrói o teatro no Brasil hoje. Realizado pela mundana companhia no âmbito de sua residência artística no Instituto Capobianco, o podcast já acumula cerca de 165 horas de gravações com 55 convidados de todas as regiões do país, lançando episódios semanais que desafiam o apagamento histórico de territórios fora do eixo Rio–São Paulo.
A gênese do projeto remonta ao período da pandemia, quando Aury Porto percebeu o vácuo de conteúdos teatrais no universo dos podcasts — o que ele define como “rádio sob demanda”. Para preencher essa lacuna, uniu-se a Leonardo Ventura e aos curadores Alexandre Mate e Wlad Lima, referências na crítica e na pesquisa acadêmica. O nome “Perdigoto” sintetiza o espírito da obra: a troca direta, a oralidade e a presença física. “Perdigoto é de falar e ouvir. É essa saliva que a gente produz tanto fazendo teatro quanto fazendo rádio”, explica Aury.

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Um Manifesto de Insurgência e Memória
Desde o episódio de estreia, “As Vozes Insurgentes na História do Teatro Brasileiro”, o programa estabelece um tom político ao questionar narrativas consagradas. Com as participações de Alexandre Mate, Valéria Andrade e Álvaro Assad, o debate denuncia como figuras populares foram excluídas dos registros oficiais. Essa investigação sobre a memória ganha contornos práticos no diálogo entre Marcos Malafaia (Grupo Giramundo/MG) e Lindolfo Amaral (Grupo Imbuaça/SE), que discutem a preservação material de acervos de bonecos e a transmissão sensível de saberes imateriais.

A pluralidade estética do Brasil é explorada ao aproximar o Teatro de Revista, em suas origens urbanas e musicais, das Dramistas do interior do Ceará — uma tradição majoritariamente feminina que preserva fábulas e histórias geracionais. O podcast revela como essas manifestações, embora distintas em origem, dialogam na construção de uma identidade cênica nacional.

Formação, Pedagogia e a Tensão Acadêmica
O debate sobre o “fazer” e o “ensinar” ocupa lugar central. O Perdigoto promove o encontro entre a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS), representada por Tânia Farias, e a experiência universitária de Cláudio Cajaíba (UFBA), confrontando a liberdade dos cursos livres com o rigor acadêmico. Essa reflexão se estende ao encontro histórico entre Amir Haddad (Grupo Tá na Rua/RJ) e a diretora Maria Thaís. Apesar de pertencerem a gerações e estéticas diferentes, ambos convergem na defesa de uma pedagogia indissociável da criação e na figura do artista como um cidadão ativo, recusando perspectivas burguesas de produção.
A relação entre a universidade e o palco é aprofundada por Cibele Forjaz (SP) e Gisele Vasconcelos (MA), que analisam os ganhos da pesquisa acadêmica em contraste com as burocracias que muitas vezes engessam a liberdade criativa.

Descentralização e Territórios de Resistência
O projeto percorre o Brasil profundo para ouvir Tácito Borralho (MA), criador do Laborarte, e Leidson Ferraz (PE), que traça um panorama dos grupos de Recife fincados em movimentos sociais e no legado de Hermilo Borba Filho. O podcast também documenta pesquisas decoloniais, como a busca de Lauande Aires por alternativas no Bumba meu Boi e as teorizações de Monilson Mony sobre o “Nego Fugido”.
A realidade do teatro de rua é narrada pelas experiências do Grupo Ruante (RO) e do Grupo Teatro Revirado (SC). Já os desafios de continuidade em comunidades do Nordeste aparecem nas vozes do Clowns de Shakespeare (RN) e do Jucá de Teatro (CE), revelando como grupos inventam caminhos quando o apoio institucional falha. O mapeamento avança por territórios em conflito, com relatos de Fernando Cruz (Teatro Imaginário Maracangalha/MS) e Thiago Reis Vasconcelos (Cia Antropofágica/SP) sobre a ocupação poética em meio à violência urbana.

O Teatro nos Subterrâneos e nas Bordas
A diversidade de gêneros ganha voz com a mestre Iracema Oliveira (PA) e seu Teatro de Pássaros, e com Wyller Villacas (ES), inspirado na devoção do Congo. O fenômeno dos espaços não convencionais é analisado por Olinda Charone, que fala sobre o “teatro de porão” em Belém, e por Marcos Felipe, que detalha a efervescência do Teatro de Contêiner em São Paulo.
O financiamento e as políticas culturais também são esmiuçados, traçando um panorama desde o TBC, os CPCs e o Teatro de Arena até o movimento Arte contra a Barbárie. O debate sobre a descentralização dos recursos é instruído por Lela Do Cerrado (DF) e Cleber Ferreira (AM), que apresenta o conceito do “Fator Amazônico”.
No último episódio disponível, o Perdigoto homenageia os brasileiros “aguerridos” que investem recursos próprios na preservação de bens artísticos: do histórico no sertão cearense de Dane de Jade à atuação na metrópole paulistana de Roberto Capobianco.

Com trilha sonora de Ivan Garro, produção de Nana Yazbek e identidade visual de Mariano Mattos Martins, o Podcast Perdigoto se consolida como um documento vivo. “Nosso público é a própria gente do teatro: quem está se formando, quem já se formou, professores e alunos. A ideia é dividir esse material com todos”, resume Aury Porto.

Serviço
Podcast Perdigoto
Idealização e apresentação: Aury Porto e Leonardo Ventura
Curadoria: Alexandre Mate e Wlad Lima
Realização: Mundana Companhia e Instituto Capobianco
Episódios: Disponíveis todas as quartas-feiras nas principais plataformas de áudio.

Link para acesso no Spotify:

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