Por que alimentos básicos chegam mais caros à mesa do tocantinense?
O preço dos alimentos básicos no Tocantins não é definido apenas na lavoura ou na Ceasa. Entre o campo e a mesa do consumidor existe uma cadeia longa, fragmentada e cara, que explica por que itens como banana, arroz, feijão, alho e alface chegam ao supermercado custando muito mais do que o valor praticado no atacado.
O primeiro fator é a estrutura logística. Grande parte dos alimentos comercializados no Tocantins percorre longas distâncias até chegar ao varejo, especialmente no caso de grãos e produtos importados, como o alho. O custo do transporte — fortemente impactado pelo preço do diesel — é incorporado ao valor final. Estados com grande extensão territorial e baixa densidade logística, como o Tocantins, sentem esse efeito de forma mais intensa.
No caso dos hortifrutigranjeiros, como banana e alface, o problema se agrava pelas perdas ao longo da cadeia. Produtos perecíveis exigem refrigeração, manuseio constante e rapidez na distribuição. Parte da mercadoria se perde entre a Ceasa e o supermercado, o que eleva o custo unitário do que efetivamente chega à prateleira. O consumidor acaba pagando também pelo desperdício.
Já alimentos como arroz e feijão, embora mais estáveis, carregam outros custos ocultos. Beneficiamento, empacotamento, armazenamento, transporte interestadual, impostos e custos financeiros do varejo são somados ao longo do caminho. Mesmo quando o preço ao produtor não sobe de forma expressiva, o valor final pode aumentar devido a esses fatores acumulados.
O alho é um caso emblemático. Dependente de importação e sensível ao câmbio, o produto sofre impacto direto da variação do dólar. Além disso, há concentração de mercado e custos de estocagem prolongada, o que amplia a diferença entre o preço na origem e o valor pago pelo consumidor.
Outro elemento central é a margem do varejo. Supermercados incorporam despesas fixas elevadas — energia, aluguel, folha de pagamento, segurança, perdas e tributos. Embora nem toda a diferença entre Ceasa e prateleira seja lucro, a margem comercial influencia de forma direta o preço final, sobretudo em regiões com menor concorrência.
Dados do Dieese mostram que os alimentos seguem entre os principais responsáveis pela inflação no Brasil. Em estados como o Tocantins, onde a renda média é menor e a alimentação ocupa parcela maior do orçamento familiar, o impacto é mais severo. Famílias de baixa renda sentem primeiro e com mais força qualquer variação de preços.
Especialistas apontam que a alta dos alimentos no estado é resultado da soma de logística cara, cadeias longas, dependência externa, perdas, custos operacionais e estrutura de mercado. Reduzir esse peso no bolso do consumidor passa por fortalecer a produção local, encurtar cadeias de abastecimento, melhorar a infraestrutura logística e ampliar a concorrência.
Enquanto isso não acontece, o tocantinense segue ajustando hábitos, substituindo produtos e comparando preços para lidar com um custo de vida cada vez mais pressionado pela alimentação — um retrato direto de como a economia se manifesta no cotidiano.