Pesquisa revela fatores de risco e impactos da toxoplasmose na saúde ocular de comunidades quilombolas no Tocantins
Estudos científicos inéditos conduzidos no Tocantins revelam um cenário de alto risco relacionado à toxoplasmose em populações vulneráveis, com impactos diretos sobre a saúde ocular, o desenvolvimento neurológico e a saúde infantil. As pesquisas, realizadas por equipes da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) e da Universidade Federal do Tocantins (UFT), analisaram comunidades quilombolas do norte do estado e gestantes atendidas pelo sistema público de saúde. Os resultados foram obtidos com exclusividade pelo Diário Tocantinense.
Os dados apontam taxas elevadas de infecção precoce, falhas no acompanhamento pré-natal e ocorrência significativa de sequelas graves em recém-nascidos, evidenciando a relação direta entre condições socioeconômicas, acesso à saúde e agravamento da doença. Os trabalhos foram publicados em duas revistas científicas internacionais de alto impacto, Microorganisms e Tropical Medicine and Infectious Disease, reforçando a relevância dos achados produzidos no estado para a comunidade científica global.
Infecção precoce em comunidades quilombolas
O primeiro estudo avaliou 161 moradores de quatro comunidades quilombolas localizadas nos municípios de Aragominas, Muricilândia e Santa Fé do Araguaia, no norte do Tocantins, região inserida na Amazônia Legal. O dado mais expressivo foi a alta taxa de infecção entre crianças.
Segundo os pesquisadores, 46,91% das crianças entre 5 e 7 anos já apresentavam soropositividade para toxoplasmose, índice muito superior à média global estimada entre 13% e 16% para essa faixa etária. Na população total analisada, a prevalência chegou a 62,11%. Entre idosos, o percentual alcançou 77,5%.
A infecção em idade tão precoce indica exposição contínua ao parasita e eleva o risco de reativação da doença ao longo da vida. De acordo com os pesquisadores, esse cenário aumenta a probabilidade de surgimento tardio de lesões oculares, comprometimento neurológico e outras sequelas crônicas, mesmo em indivíduos inicialmente assintomáticos.
Fatores de risco socioambientais
O estudo identificou fatores socioambientais fortemente associados à infecção nas comunidades quilombolas. Crianças que convivem com gatos apresentaram risco 5,56 vezes maior de infecção. O baixo nível de escolaridade dos pais elevou o risco em quase três vezes. Outras variáveis relevantes incluíram crianças brincando diretamente no chão e a presença de hortas domésticas, que ampliam o contato com solo potencialmente contaminado pelo parasita Toxoplasma gondii.
Embora não tenha sido identificada associação estatística direta entre a infecção e manifestações oculares específicas em análises por faixa etária, os pesquisadores alertam que a toxoplasmose ocular pode se manifestar anos após a infecção inicial, especialmente em pessoas infectadas ainda na infância.
Toxoplasmose congênita e recém-nascidos
O segundo estudo voltou-se para a forma mais grave da doença: a toxoplasmose congênita, transmitida da mãe para o feto durante a gestação. A pesquisa analisou dados de mais de 44 mil gestantes atendidas entre 2017 e 2024 no Hospital Dom Orione, em Araguaína, unidade de referência para uma macrorregião que abrange 26 municípios do norte do Tocantins.
Do total de gestantes avaliadas, 1.142 foram diagnosticadas com toxoplasmose durante a gravidez. Entre os recém-nascidos dessas mães, 496 desenvolveram toxoplasmose congênita, o que representa uma taxa de transmissão vertical de 43,4%, considerada elevada pelos pesquisadores.
Os impactos clínicos foram significativos. Pelo menos 71 recém-nascidos apresentaram alterações graves, como prematuridade, retinocoroidite e calcificações cerebrais. A presença de anormalidades neonatais foi mais de 110 vezes maior em bebês com toxoplasmose congênita quando comparados aos não infectados.
Falhas no pré-natal e tratamento ineficaz
Os dados evidenciam falhas no acompanhamento pré-natal como fator determinante para a transmissão da doença. Gestantes que realizaram menos de seis consultas pré-natais apresentaram risco quase 23 vezes maior de transmitir a toxoplasmose para o bebê. O baixo nível de escolaridade materna também foi associado ao aumento do risco.
O tratamento durante a gestação mostrou impacto direto nos desfechos. Mães tratadas com espiramicina apresentaram taxas significativamente menores de transmissão. Entre aquelas que não receberam tratamento adequado, o risco chegou a 93,3%, evidenciando falhas graves na assistência pré-natal.
Em entrevista exclusiva ao Diário Tocantinense, o pesquisador e professor Marcos Gontijo destacou que os resultados revelam um problema estrutural. Segundo ele, os dados demonstram a ineficácia do acompanhamento pré-natal em parte da população e reforçam a ligação direta entre desigualdade social, acesso limitado à informação e agravamento de doenças evitáveis.
Alerta para políticas públicas
Os pesquisadores avaliam que os estudos expõem uma combinação crítica de fatores: vulnerabilidade socioeconômica, exposição ambiental contínua, falhas no diagnóstico precoce e tratamento inadequado durante a gestação. O cenário reforça a necessidade de políticas públicas direcionadas, com foco em educação em saúde, ampliação do rastreamento da toxoplasmose, fortalecimento do pré-natal e ações específicas voltadas a comunidades tradicionais.
Ao colocar o Tocantins no centro do debate científico nacional e internacional sobre toxoplasmose, os trabalhos evidenciam que, sem intervenções estruturais, a doença continuará produzindo impactos silenciosos e duradouros, especialmente na saúde ocular, neurológica e no desenvolvimento infantil das populações mais vulneráveis do estado.