Com 19 casos, Tocantins encerrou 2025 com alta de feminicídios e expõe falhas graves na prevenção

Com 19 casos, Tocantins encerrou 2025 com alta de feminicídios e expõe falhas graves na prevenção
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 5 de janeiro de 2026 8

O Tocantins encerrou 2025 com 19 feminicídios registrados, segundo dados consolidados do painel estatístico da Secretaria de Segurança Pública do Tocantins. O número representa um aumento de 46% em relação a 2024, quando foram contabilizados 13 casos, e revela um cenário de agravamento da violência de gênero no estado ao longo do último ano.

Os dados consideram exclusivamente feminicídios consumados, após correção metodológica que excluiu tentativas de homicídio anteriormente classificadas de forma indevida. A atualização inclui crimes registrados em diferentes regiões do estado, entre eles os dois assassinatos ocorridos no município de Buriti do Tocantins, que reforçaram o alerta das autoridades e de especialistas sobre a escalada da violência contra mulheres.

Violência anunciada e padrões repetidos

A análise dos registros evidencia um padrão recorrente. Em sua maioria, as vítimas foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, frequentemente após o fim do relacionamento. Em grande parte dos casos, havia histórico de violência doméstica, com registros de agressões físicas, ameaças, perseguições ou violência psicológica.

Outro dado que chama atenção é o local dos crimes. A maior parte dos feminicídios ocorreu dentro da residência da vítima, espaço que deveria representar proteção. Também há registros em vias públicas, estabelecimentos comerciais e áreas abertas, o que demonstra que a violência extrapola o ambiente doméstico e se manifesta de forma pública, sem contenção efetiva.

Para a Dra. Ângela, pesquisadora e docente da FACIT, os números revelam falhas estruturais na prevenção. “O feminicídio é o estágio final de um ciclo de violência que não foi interrompido. Esses crimes quase nunca acontecem sem sinais prévios”, afirma. Segundo ela, a ausência de respostas rápidas às denúncias e a dificuldade de monitorar agressores reincidentes contribuem diretamente para o desfecho fatal.

Tocantins no contexto nacional

O cenário estadual acompanha uma tendência nacional preocupante. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 1.460 feminicídios em 2023, o maior número desde a tipificação do crime em 2015. Isso equivale a uma média de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero.

Quando se observa a taxa proporcional, estados com menor população, como o Tocantins, apresentam índices elevados. O contraste expõe um dos principais absurdos do sistema de proteção: apesar da existência da Lei Maria da Penha e de mecanismos legais, a maioria das mortes ocorre sem que medidas protetivas estivessem ativas. Dados nacionais indicam que cerca de 70% das vítimas de feminicídio não possuíam proteção judicial no momento do crime.

Mesmo nos casos em que havia medida protetiva, falhas de fiscalização e ausência de monitoramento eletrônico dos agressores reduziram a efetividade das decisões judiciais. Em municípios de pequeno porte, comuns no Tocantins, a escassez de delegacias especializadas, equipes psicossociais e casas de acolhimento agrava ainda mais a vulnerabilidade das vítimas.

O custo da omissão e da resposta tardia

Especialistas alertam que o enfrentamento da violência de gênero no estado ainda ocorre de forma reativa. O poder público atua, majoritariamente, após a morte, enquanto políticas de prevenção, educação e acompanhamento contínuo seguem fragmentadas. A ausência de integração efetiva entre segurança pública, saúde, assistência social e Judiciário cria lacunas que permitem a continuidade da violência.

A Dra. Ângela destaca que a redução dos feminicídios passa por ações estruturantes e permanentes. Entre elas estão a ampliação da rede de proteção, a capacitação contínua de profissionais que atuam na linha de frente, o fortalecimento da educação preventiva e a resposta imediata a qualquer denúncia. “Identificar os primeiros sinais e agir antes da escalada da violência é fundamental para salvar vidas”, reforça.

Debate urgente em 2026

Com 2026 iniciado e os dados consolidados de 2025 revelando um aumento expressivo de feminicídios, o debate sobre a eficácia das políticas públicas de proteção às mulheres no Tocantins ganha caráter de urgência. Os números expõem contradições profundas entre a existência de leis, protocolos e discursos institucionais e a realidade enfrentada pelas mulheres.

Enquanto as falhas persistirem, os dados tendem a se repetir. Para especialistas, sem investimento contínuo em prevenção, monitoramento rigoroso das medidas existentes e integração real entre os órgãos responsáveis, o estado seguirá transformando estatísticas em vidas interrompidas — um custo social que permanece invisibilizado até o momento extremo da violência.

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