Portelinhando Crônicas: Oito de janeiro amanheceu de chinelos
O oito de janeiro começou como qualquer outro domingo em Brasília. Céu limpo, calor protocolar, a Esplanada ainda meio vazia, aquela falsa sensação de normalidade que antecede os dias que entram para os livros de história.
Nada indicava que, poucas horas depois, a Praça dos Três Poderes deixaria de ser apenas um cartão-postal para se tornar cena de crime institucional.
Os ônibus começaram a chegar cedo. Vieram em fila, vindos de longe, trazendo mais do que pessoas: trouxeram discursos prontos, certezas frágeis e uma raiva que não cabia nas mochilas. Vieram enrolados em bandeiras, cantando hinos, rezando slogans e tratando a pátria como adereço.
Brasília, acostumada a manifestações, fingiu normalidade. Mas o chão sentiu primeiro. O concreto percebe quando não são passos políticos — são marchas emocionais.
A Praça dos Três Poderes, velha testemunha da República, não foi feita para correr. Foi feita para suportar discursos, não para absorver impactos. Em minutos, virou território tomado. Não por um projeto. Por um impulso.
O Congresso foi o primeiro a ouvir o idioma da barbárie: o estalo seco do vidro quebrando, o som metálico das grades cedendo, o eco oco de cadeiras arremessadas. O que era símbolo virou entulho. O que era patrimônio virou troféu de selfie.
No Palácio do Planalto, a rampa — acostumada a posses, não a posses violentas — recebeu passos sem liturgia. Não subiam líderes. Subia a desinformação em bando. Não havia pauta. Havia fúria. Não havia proposta. Havia invasão.
Dentro, salas reviradas, objetos históricos destruídos, obras rasgadas, relógios quebrados. Um deles, antigo, feito para atravessar séculos, teve o tempo interrompido a golpes.
No Supremo Tribunal Federal, não houve ministros. Houve ausência. As togas pendiam vazias enquanto o símbolo máximo da Justiça era profanado como se fosse cenário descartável. Ali, a fé na força tentou gritar mais alto que a força da lei.
Do lado de fora, a democracia não apareceu em pose heroica. Estava de chinelos. Cansada. Trabalhadora. Ferida. Observava pelas frestas aquilo que nunca imaginou ver: pessoas dizendo defendê-la enquanto a empurravam escada abaixo.
Em milhões de casas, o Brasil assistia ao vivo. Pratos sendo lavados. Cafés sendo passados. E, na tela, a República sendo violada. Entre uma esponja e outra, alguém disse: “não é possível”.
Era.
Chamaram de manifestação. Chamaram de festa. Chamaram de protesto. Mas festa não quebra relógio. Protesto não pede quartel. Manifestação não destrói aquilo que diz amar.
No fim do dia, não houve golpe consumado. Houve cenas. Houve provas. Houve identificação. Houve prisões. Houve um país obrigado a encarar o próprio espelho.
Os prédios, lavados às pressas, ficaram com cheiro de fumaça e vergonha. A Praça dos Três Poderes passou a noite acordada. A democracia contou os dentes, percebeu que ainda estavam lá — e entendeu que precisaria aprender a morder.
O oito de janeiro não terminou quando escureceu. Ele continua ali. No calendário. Nos tribunais. Nos relatórios. Nos inquéritos. Na memória.
Porque há datas que não passam.
Advertências não prescrevem.
Golpe não é figura de linguagem.
É crime contra o futuro.
E a República, como toda construção frágil, precisa ser lembrada todos os dias de que não se sustenta sozinha. Sustenta-se quando a memória fica de pé.
— Portelinhando Crônicas | Diário Tocantinense