Portelinhando Crônicas: A volta dos papéis velhos: quando a democracia é empurrada para trás

Portelinhando Crônicas: A volta dos papéis velhos: quando a democracia é empurrada para trás
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 21 de janeiro de 2026 9

Entre a nostalgia do voto impresso e o risco de reabrir portas que o Brasil levou décadas para fechar

Por Portelinhando Crônicas

O país que ensinou o mundo a contar votos em minutos agora flerta, outra vez, com o crepitar lento do papel engolido por urnas de ferro. O que antes era motivo de orgulho nacional, a eleição que terminava no mesmo dia em que começava, sob o olhar de observadores brasileiros e estrangeiros, transforma-se em alvo de suspeita fabricada, de desconfiança cultivada como se a dúvida, por si só, fosse prova.

A tecnologia que ampliou a voz dos anônimos, que encurtou filas e reduziu a margem de manobra dos velhos coronéis, passa a ser tratada como inimiga. Em seu lugar, acena-se com o retorno silencioso das mesmas mãos que, no passado, sabiam muito bem como fazer o papel “falar”.

Vende-se o voto impresso como sinônimo de transparência. Mas o que se imprime, no fundo, é a nostalgia de um tempo em que o resultado cabia no bolso de poucos. A cédula depositada em compartimentos selados é apresentada como panaceia, quando a história mostra que foi justamente nesse universo físico, da assinatura forçada, da urna violada, da contagem “revisada” na calada da noite, que se consolidaram algumas das piores distorções da vontade popular.

O papel pode ser visto, tocado, fotografado, coagido. A “prova material” que tanto exigem é também a prova material da vulnerabilidade do eleitor diante do poder econômico, político e até policial. Ao transformar a dúvida em método, legitima-se a ideia de que nada é confiável e, quando tudo é posto em questão, qualquer resultado passa a ser rejeitável, qualquer derrota pode ser reescrita como fraude.

Não se trata apenas de uma disputa técnica. O que está em jogo é um rebaixamento simbólico da democracia. O país que se tornou referência internacional em votação eletrônica, estudado, copiado e elogiado, agora sinaliza que não confia no próprio caminho construído com décadas de aperfeiçoamento institucional.

Em nome de uma suposta “auditoria”, desloca-se o centro da confiança das regras para o grito mais alto do dia seguinte, para o vídeo viral, para o palanque inflamado. O voto deixa de ser um ato de fé racional nas normas do jogo democrático e se converte em ficha apostada num cassino político, onde quem perde reivindica sempre a recontagem infinita.

O retrocesso está também na retórica que sustenta esse movimento. Em vez de educação política, investe-se em teorias conspiratórias. Em vez de fortalecer tribunais, mesários, partidos e observadores independentes, fragiliza-se sua autoridade, como se o problema do país estivesse justamente na única etapa do processo em que, até hoje, não se demonstrou fraude sistêmica.

A narrativa do “impresso salvador” não nasce do amor à democracia, mas do cálculo de quem precisa manter acesa a chama da suspeita para nunca admitir a própria derrota. O papel volta não como mecanismo de aperfeiçoamento, mas como arma de chantagem permanente contra qualquer resultado que desagrade.

No fim, discutir tecnologia é discutir poder.

Retroceder ao papel, depois de quase três décadas de consolidação de um sistema eletrônico inclusivo, rápido e verificável, é aceitar que o futuro pode ser negociado em nome do medo. É trocar a confiança construída a duras penas por uma sensação primitiva de controle, ver o papel cair, ouvir o barulho da impressora, como se o rito concreto fosse garantia de verdade.

Mas a verdade democrática não está no som do papel. Está na solidez das regras, na independência das instituições e no compromisso de quem perde e, ainda assim, reconhece o resultado.

Quando um país que era vitrine decide caminhar de costas, não é só o sistema de votação que regride. É a própria ideia de cidadania que se vê empurrada de volta ao porão.

Tudo isso faz lembrar o fado épico “Oh Tempo Volta P’ra Trás”, de Antônio Mourão. Às vezes, a política parece querer provar que certas canções não são apenas memória. São aviso.

Notícias relacionadas