Exclusivo: estudo aponta falhas no pré-natal e taxa alarmante de toxoplasmose congênita no norte do Tocantins
Um estudo conduzido no norte do Tocantins acende um alerta grave sobre a qualidade da assistência pré-natal oferecida na região. A pesquisa revela que quase metade dos bebês nascidos de mães infectadas por toxoplasmose desenvolveu a forma congênita da doença, um índice considerado elevado por especialistas e que expõe falhas estruturais no acompanhamento das gestantes pelo sistema público de saúde.
O levantamento analisou 1.142 recém-nascidos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2017 e 2024, em municípios do norte do estado que têm Araguaína como referência hospitalar. Do total, 496 bebês foram diagnosticados com toxoplasmose congênita, o que representa uma taxa de transmissão vertical de 45,4% — ou seja, quase um em cada dois bebês de mães infectadas nasceu com a doença.
Além da alta taxa de transmissão, os dados revelam um quadro ainda mais preocupante: mais de 70 recém-nascidos já apresentavam sequelas graves ao nascer, incluindo prematuridade, calcificações cerebrais, inflamações sistêmicas, alterações neurológicas e lesões oculares. São condições que podem comprometer de forma permanente o desenvolvimento físico, cognitivo e visual das crianças.
“Estamos falhando na proteção dessas crianças”
Em entrevista ao Diário Tocantinense, o professor Marcos Gontijo, da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, afirmou que os números expõem uma falha sistêmica na assistência materno-infantil da região.
“Esse estudo revela, no norte do Tocantins, uma realidade dura. Estamos falhando na proteção dessas crianças. Quando quase metade dos bebês de mães infectadas nasce doente, isso demonstra que o pré-natal não está conseguindo cumprir seu papel. Educação, diagnóstico precoce e acompanhamento de qualidade são decisivos para evitar que essa doença continue produzindo sequelas irreversíveis”, afirmou.
Segundo o pesquisador, os dados indicam que o problema vai além da presença do parasita Toxoplasma gondii. “Não estamos falando apenas de um microrganismo. Estamos falando de estrutura, acesso, informação e cuidado contínuo. Quando o sistema falha, quem paga o preço são bebês que já nascem enfrentando consequências para a vida inteira”, completou.
Diagnóstico tardio e tratamento insuficiente
A pesquisa aponta que, embora as gestantes tenham sido acompanhadas pela rede pública, o tratamento não foi suficiente para impedir a transmissão em quase metade dos casos. Um dos fatores decisivos identificados foi o diagnóstico tardio da infecção.
De acordo com os dados, quando a toxoplasmose materna foi diagnosticada após a 16ª semana de gestação, o risco de transmissão para o feto aumentou de forma significativa. Esse atraso reduz a eficácia do tratamento medicamentoso e limita as possibilidades de prevenir a infecção congênita.
Para os pesquisadores, o cenário indica fragilidades no rastreamento precoce, na rapidez dos exames laboratoriais e no acompanhamento clínico das gestantes, etapas fundamentais para interromper a cadeia de transmissão da doença.
Desigualdade social amplia o risco
O estudo também evidencia que a toxoplasmose congênita está fortemente associada a fatores socioeconômicos. Gestantes com menos de oito anos de escolaridade apresentaram risco significativamente maior de transmitir a infecção aos bebês. Da mesma forma, mulheres que realizaram menos de seis consultas de pré-natal registraram índices muito mais elevados de recém-nascidos infectados.
Esses dados reforçam que a doença não pode ser analisada apenas sob a ótica clínica. A toxoplasmose congênita se insere em um contexto de desigualdade social, acesso limitado à informação, fragilidades da atenção básica e dificuldades de continuidade no cuidado durante a gestação.
Impacto silencioso e de longo prazo
A toxoplasmose congênita é considerada uma doença silenciosa em muitos casos, mas com potencial de gerar impactos ao longo de toda a vida. Crianças infectadas podem desenvolver, meses ou anos depois, perda visual progressiva, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, dificuldades de aprendizagem e crises convulsivas, mesmo quando não apresentam sintomas