“A água pode parecer segura, mas carrega riscos invisíveis”, diz pesquisadora após estudo sobre resistência antimicrobiana
água tratada distribuída à população pode atender a todos os parâmetros bacteriológicos exigidos pela legislação brasileira e, ainda assim, abrigar riscos que não aparecem nos métodos tradicionais de monitoramento. Essa é a principal conclusão de um estudo desenvolvido em Porto Alegre (RS), que identificou a presença de genes associados à resistência a antibióticos em amostras de água residual e de água tratada, analisadas ao longo das quatro estações do ano.
Segundo a pesquisadora Tiane Moura, responsável pelo estudo, os resultados revelam uma lacuna relevante na forma como a qualidade da água é avaliada atualmente no país. “A água pode parecer segura, mas carrega riscos invisíveis. Quando falamos de resistência antimicrobiana, estamos lidando com material genético que não é detectado pelos testes convencionais, focados apenas em bactérias cultiváveis”, explica.
A pesquisa combinou análises físico-químicas, microbiológicas e moleculares, permitindo uma leitura mais ampla da dinâmica dos contaminantes nos sistemas hídricos urbanos. Mesmo em amostras de água tratada que cumpriam integralmente os padrões legais de coliformes e Escherichia coli, foram identificados genes de resistência a antibióticos, como o blaOXA-48-like, associado à resistência a carbapenêmicos — antimicrobianos considerados de uso crítico na medicina.
Do ponto de vista ambiental, o achado é relevante porque ambientes aquáticos urbanos funcionam como reservatórios e vetores de disseminação desses genes. A detecção de material genético resistente na ausência de bactérias cultiváveis indica a presença de DNA extracelular ou de microrganismos em estado viável, porém não cultivável, que escapam aos métodos clássicos de laboratório, mas permanecem ativos no ambiente.
O estudo também identificou variações sazonais significativas. Durante o verão, não houve detecção de genes de resistência, possivelmente em razão de fatores como maior diluição hídrica, temperaturas elevadas e maior incidência de radiação solar, que favorecem a degradação do DNA. Já na primavera, observou-se maior frequência de detecção, inclusive em amostras de água tratada, indicando que condições climáticas e hidrológicas influenciam diretamente a circulação desses genes.
Esses resultados refletem as características climáticas do sul do Brasil, onde as estações do ano são bem definidas. Em regiões como o Norte e o Centro-Oeste, incluindo o Tocantins, a dinâmica ambiental é distinta, marcada por períodos de estiagem prolongada e chuvas intensas. Nesses contextos, os padrões de concentração, diluição e persistência de contaminantes podem seguir outras lógicas, o que reforça a necessidade de estudos regionais sobre resistência antimicrobiana na água.
Apesar dos achados, a pesquisadora destaca que os dados não indicam que a água distribuída seja imprópria para consumo nem representam risco imediato à população. O estudo, no entanto, evidencia limitações importantes dos modelos tradicionais de monitoramento ambiental, que não contemplam a circulação de genes de resistência no ambiente aquático.
Sob a perspectiva da saúde ambiental, os resultados reforçam a importância de abordagens integradas, alinhadas ao conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. A incorporação de ferramentas moleculares ao monitoramento da qualidade da água pode ampliar a vigilância de riscos emergentes e contribuir para estratégias preventivas diante do avanço global da resistência aos antimicrobianos.
O estudo foi desenvolvido a partir de uma parceria entre universidade pública, instituições estaduais e setor privado, integrando pesquisa acadêmica, estruturas de monitoramento ambiental e expertise técnico-operacional, evidenciando o papel estratégico da ciência colaborativa na identificação de riscos invisíveis à saúde pública.