“Interoperabilidade não é detalhe técnico, é capacidade de entrega”, diz Esther Dweck em Davos
A transformação digital do Estado só se justifica quando resulta em serviços públicos mais eficientes, acessíveis e centrados nas pessoas. Esse foi o eixo central da participação da ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, em debates estratégicos do Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta terça-feira (20).
Em diferentes agendas, a ministra defendeu que a interoperabilidade entre sistemas públicos não pode ser tratada como um tema técnico secundário, mas como um elemento estrutural da capacidade do Estado de entregar políticas públicas de forma integrada. “A interoperabilidade não é um detalhe técnico. Ela é capacidade de entrega. Ela se torna real quando está ancorada em um caso de uso claro, dentro de um ecossistema confiável”, afirmou.
A fala ocorreu durante a Reunião de Alto Nível da Colaboração Digital Global (GDC, na sigla em inglês), iniciativa que reúne governos, empresas e organismos internacionais para discutir identidade digital, credenciais, padrões de interoperabilidade e mecanismos de confiança no ambiente digital. Desde dezembro de 2025, o Brasil passou a ter papel central na governança do grupo, ao ser eleito para coordenar o núcleo governamental do GDC, formado por dez países, dividindo a presidência com o Banco Mundial, o Google e a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).
Segundo Esther Dweck, quando bases de dados de áreas como saúde, educação e trabalho conseguem se integrar de forma segura, o Estado passa a oferecer serviços mais ágeis, reduz burocracias e amplia o acesso da população a direitos. A ministra destacou que a fragmentação dos sistemas digitais transfere uma burocracia silenciosa para o cidadão e para as empresas. “Quando os sistemas não se conectam, criamos ilhas digitais. Isso duplica custos, aumenta riscos e empurra a burocracia para fora do Estado”, disse.
Ao apresentar exemplos concretos da experiência brasileira, Dweck citou o Pix, hoje amplamente utilizado no país, inclusive por populações em situação de vulnerabilidade, e o Conecta.GOV, plataforma que permite a troca automática de informações entre sistemas públicos. De acordo com estimativas do governo federal, apenas nos últimos dois anos o Conecta.GOV gerou uma economia de cerca de R$ 9,5 bilhões, ao reduzir custos administrativos e simplificar processos para cidadãos e empresas.
A ministra alertou que o desafio da interoperabilidade se torna ainda maior no contexto internacional, quando os dados precisam atravessar fronteiras nacionais. Para ela, a confiança é o elemento central dessa equação, especialmente em um cenário global marcado por disputas regulatórias, assimetrias tecnológicas e preocupações crescentes com proteção de dados.
No painel “Fronteiras da Governança Digital: da Infraestrutura Pública Digital à GovTech de Próxima Geração”, Esther Dweck destacou que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por mudanças estruturais na forma como o Estado se organiza. Segundo ela, a pandemia acelerou a digitalização dos serviços públicos, mas nem sempre com foco na experiência do usuário. “Desde 2023, nossa prioridade tem sido simplificar processos, reduzir entraves burocráticos e ampliar a inclusão digital”, afirmou.
Um dos pilares dessa agenda é a Estratégia Nacional de Governo Digital, coordenada pelo Ministério da Gestão e da Inovação, que busca alinhar União, estados e municípios. Em um país com 27 estados e mais de 5 mil municípios, a coordenação federativa é considerada essencial para evitar desigualdades regionais no acesso aos serviços digitais.
Dweck também abordou os desafios impostos pela desigualdade social brasileira. Embora o acesso a celulares seja amplo, o letramento digital ainda limita o uso pleno dos serviços por parte da população. Como resposta, o governo tem investido em estruturas presenciais, como o Balcão GOV.BR, que oferece atendimento assistido, acesso gratuito à internet e capacitação básica em habilidades digitais. Há ainda iniciativas voltadas a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, com adaptações culturais e linguísticas dos sistemas.
Ao falar sobre infraestrutura pública digital, a ministra destacou a plataforma GOV.BR, que concentra atualmente cerca de 5 mil serviços federais e mais de 12 mil serviços estaduais, além da Carteira de Identidade Nacional (CIN). Mais de 43 milhões de brasileiros já possuem o novo documento, que facilita o acesso integrado a serviços públicos e benefícios sociais.
Esther Dweck também ressaltou o uso estratégico de dados e inteligência artificial para tornar os serviços públicos mais proativos e personalizados, sempre com foco na proteção de dados e na confiança da população. Ferramentas como a caixa postal digital do GOV.BR e canais como WhatsApp têm sido utilizados para informar cidadãos sobre direitos, prazos e serviços. Chatbots baseados em inteligência artificial também vêm sendo adotados como forma de ampliar o acesso e promover letramento digital.
Ao final da agenda em Davos, a ministra reforçou que a construção de um Estado digital depende diretamente do fortalecimento da confiança pública. “Ainda há desafios, mas seguimos trabalhando para avançar. Um governo digital só se sustenta quando as pessoas confiam que seus dados estão protegidos e sendo usados para melhorar suas vidas”, concluiu.
Esther Dweck participa, entre os dias 20 e 22 de janeiro, de uma série de encontros do Fórum Econômico Mundial dedicados à governança digital global, em um momento em que o Brasil busca ampliar sua presença e influência internacional nas discussões sobre infraestrutura digital, interoperabilidade de dados e inovação no setor público.