Bebês do norte do Tocantins enfrentam alta taxa de toxoplasmose congênita e acendem alerta sobre falhas no pré-natal, aponta estudo
Um estudo realizado com gestantes e recém-nascidos da região norte do Tocantins identificou índices elevados de toxoplasmose congênita, acendendo um alerta sobre falhas no acompanhamento pré-natal oferecido na rede pública de saúde. A pesquisa analisou dados de 1.142 recém-nascidos atendidos pelo SUS entre 2017 e 2024 e revela um cenário considerado crítico por pesquisadores da área.
Do total analisado, 496 bebês foram diagnosticados com toxoplasmose congênita, o que representa cerca de 43% da amostra. Entre as crianças infectadas, mais de 70% apresentaram algum tipo de sequela, incluindo alterações neurológicas, calcificações cerebrais, prematuridade e problemas oculares — condições que podem comprometer o desenvolvimento cognitivo e motor ao longo da vida.
Transmissão elevada e tratamento ineficaz
A toxoplasmose congênita ocorre quando a gestante é infectada pelo parasita Toxoplasma gondii durante a gravidez e o transmite ao feto. Em contextos com pré-natal eficaz, a taxa de transmissão costuma ser significativamente menor, especialmente quando o diagnóstico é precoce e o tratamento é iniciado de forma adequada.
No entanto, os dados levantados no norte do Tocantins indicam o oposto. Segundo o professor Marcos Gontijo, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), responsável pelo estudo, os números evidenciam falhas estruturais na atenção básica.
“Nossa pesquisa identificou uma taxa alarmante de transmissão. Quase metade dos bebês de mães infectadas desenvolveram a doença e mais de 70% nasceram com sequelas, demonstrando que o tratamento das gestantes foi ineficaz. Isso evidencia falhas graves no pré-natal”, afirmou o pesquisador em entrevista ao Diário Tocantinense.
Sequelas e impacto a longo prazo
Entre os casos confirmados, os pesquisadores registraram comprometimento neurológico, como hidrocefalia e calcificações intracranianas, além de alterações oftalmológicas, que podem levar à perda parcial ou total da visão. A prematuridade também apareceu de forma recorrente, ampliando os riscos clínicos para os recém-nascidos.
Especialistas alertam que muitas dessas sequelas não são totalmente reversíveis e exigem acompanhamento médico contínuo, terapias multidisciplinares e, em alguns casos, suporte educacional especializado ao longo da infância.
Falhas no pré-natal e desigualdade regional
O estudo aponta que a alta incidência está associada a diagnóstico tardio, falta de testagem adequada durante a gestação, dificuldade de acesso a exames laboratoriais e falhas no seguimento clínico das gestantes infectadas. A situação é mais grave em áreas do norte do estado, onde há menor cobertura de serviços especializados e maior rotatividade de profissionais de saúde.
Para os pesquisadores, o cenário revela uma desigualdade regional no acesso à atenção pré-natal de qualidade, contrariando protocolos nacionais que preveem triagem, monitoramento e tratamento sistemático da toxoplasmose durante a gravidez.
Necessidade de resposta do poder público
O levantamento reforça a necessidade de fortalecimento da atenção básica, com ampliação do acesso a exames sorológicos, capacitação das equipes de saúde e acompanhamento rigoroso das gestantes desde o início da gravidez. A educação em saúde também aparece como ponto central, especialmente em relação às formas de prevenção da toxoplasmose, como cuidados com alimentos, água e contato com solo contaminado.
Para os autores do estudo, a toxoplasmose congênita é um agravo largamente evitável quando há diagnóstico precoce e tratamento adequado, o que torna os números registrados ainda mais preocupantes.
Diante dos dados, especialistas defendem que o tema seja tratado como prioridade pelas autoridades de saúde do Tocantins, com ações específicas voltadas às regiões mais vulneráveis, a fim de reduzir a transmissão vertical da doença e evitar sequelas permanentes em recém-nascidos.