Diabetes cresce 135% no Brasil e expõe mudança silenciosa no estilo de vida; governo lança estratégia Viva Mais Brasil com R$ 340 milhões

Diabetes cresce 135% no Brasil e expõe mudança silenciosa no estilo de vida; governo lança estratégia Viva Mais Brasil com R$ 340 milhões
Medidor de glicose em destaque simboliza o avanço silencioso do diabetes no Brasil, doença que cresceu 135% em menos de duas décadas e impulsionou novas políticas públicas de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas. Foto: Governo Federal
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 10 de fevereiro de 2026 18

O avanço das doenças crônicas no país deixou de ser apenas um alerta médico e passou a representar um desafio estrutural para o sistema público de saúde. Entre 2006 e 2024, o número de adultos brasileiros com diagnóstico de diabetes saltou de 5,5% para 12,9%, crescimento de 135%, segundo dados do Vigitel 2025, principal monitoramento nacional sobre fatores de risco e proteção à saúde.

No mesmo período, outros indicadores seguiram trajetória semelhante: a obesidade avançou 118%, a hipertensão cresceu 31% e o excesso de peso aumentou 47%. O cenário levou o Ministério da Saúde a lançar a estratégia Viva Mais Brasil, uma mobilização nacional voltada à promoção da qualidade de vida e à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, com investimento inicial de R$ 340 milhões.

A iniciativa marca uma mudança no foco das políticas públicas, deslocando a atenção do tratamento para a prevenção, em resposta a um perfil epidemiológico que se aproxima do observado em países de renda alta, onde enfermidades relacionadas ao estilo de vida predominam.

Uma transformação no perfil de saúde do brasileiro

Os números do Vigitel revelam uma alteração profunda no comportamento da população ao longo das últimas duas décadas. Enquanto o consumo regular de frutas e hortaliças permaneceu estagnado em torno de 31%, a prática de atividade física no deslocamento caiu de 17% em 2009 para 11,3% em 2024, indicando redução do movimento cotidiano nas cidades.

Por outro lado, a atividade física moderada no tempo livre subiu para 42,3%, o que demonstra uma mudança na forma como os brasileiros se exercitam: menos mobilidade urbana e mais atividades planejadas, como academia e caminhadas.

Outro dado que chama atenção aparece pela primeira vez no levantamento nacional: 20,2% dos adultos dormem menos de seis horas por noite e 31,7% apresentam sintomas de insônia, com maior incidência entre mulheres. Especialistas apontam o sono irregular como fator associado ao aumento da obesidade, do diabetes e dos transtornos cardiovasculares.

 Viva Mais Brasil: prevenção como política pública

A estratégia Viva Mais Brasil surge como resposta direta ao crescimento das doenças crônicas, consideradas hoje as principais causas de morte no país. O programa articula ações já existentes no SUS e amplia iniciativas de promoção da saúde com foco em hábitos cotidianos.

Entre as medidas anunciadas:

  • R$ 340 milhões para políticas de incentivo à atividade física;

  • R$ 40 milhões destinados à retomada das Academias da Saúde em 2026;

  • possibilidade de repasses até 30% maiores para municípios que atingirem indicadores de qualidade na atenção primária;

  • credenciamento previsto de mais 300 novos serviços de Academia da Saúde até o fim do ano.

Atualmente, o país conta com 1.775 unidades desse programa, que oferecem orientação profissional e atividades físicas vinculadas às Unidades Básicas de Saúde.

Segundo o Ministério da Saúde, experiências anteriores mostram que espaços comunitários com acompanhamento profissional contribuíram para redução no uso de medicamentos, inclusive ansiolíticos e antidepressivos, ao estimular convívio social e rotina ativa.

Atenção primária no centro da estratégia

O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde aparece como eixo central do Viva Mais Brasil. Em 2025, o governo federal instituiu 15 indicadores nacionais de qualidade para monitorar o desempenho das equipes de saúde da família, com foco especial em diabetes, hipertensão, acompanhamento de idosos e cuidado integral de crianças e gestantes.

A expectativa é que os investimentos destinados ao enfrentamento das doenças crônicas alcancem R$ 1,5 bilhão em 2026, ampliando ações de prevenção e acompanhamento contínuo.

Além disso, o Novo PAC Saúde prevê:

  • construção de 2,6 mil novas Unidades Básicas de Saúde;

  • entrega de 800 Unidades Odontológicas Móveis;

  • distribuição de 10 mil combos de equipamentos para UBS;

  • implantação de 7 mil kits de telessaúde.

O objetivo é aumentar a capacidade de diagnóstico precoce e reduzir a sobrecarga de hospitais, hoje pressionados por complicações relacionadas ao diabetes e à hipertensão.

Qualidade de vida e custo econômico

Estudos do próprio Ministério da Saúde indicam que o crescimento das doenças crônicas representa impacto direto nas contas públicas. O diabetes, por exemplo, está entre as principais causas de amputações e internações prolongadas no SUS, além de elevar gastos com medicamentos de uso contínuo.

Comparações internacionais mostram que países que investiram em prevenção comunitária — como Canadá e Reino Unido — reduziram internações relacionadas ao estilo de vida ao ampliar programas locais de atividade física e educação alimentar.

No Brasil, a estratégia Viva Mais Brasil tenta replicar esse modelo ao integrar ações de saúde, educação e políticas sociais em um movimento nacional que envolve mais de 100 mil equipes da atenção primária.

 Um novo retrato do país

O crescimento simultâneo de diabetes, obesidade e hipertensão indica que o Brasil atravessa uma transição epidemiológica acelerada. Se no passado o sistema de saúde enfrentava sobretudo doenças infecciosas, hoje o desafio está ligado a rotinas sedentárias, alimentação ultraprocessada e mudanças no padrão de sono.

Para especialistas, a resposta passa por políticas públicas de longo prazo que combinem infraestrutura urbana, educação em saúde e acesso facilitado a atividades físicas.

A estratégia Viva Mais Brasil surge nesse contexto como tentativa de transformar prevenção em política permanente, diante de um cenário em que qualidade de vida deixou de ser apenas um conceito individual e passou a integrar a agenda econômica e social do país.

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