Portelinhando Crônicas: Por trás do rótulo “anti-sistema”, o ataque às instituições democráticas

Portelinhando Crônicas: Por trás do rótulo “anti-sistema”, o ataque às instituições democráticas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 10 de fevereiro de 2026 3

Chamam-lhe “anti-sistema”.
É a palavra mágica usada por candidatos da extrema direita quando querem parecer novos, limpos, redentores. Prometem “romper com tudo”, “acabar com o sistema”, “expulsar os corruptos”. O que evitam explicar é algo básico: que sistema é esse, se é exatamente dentro dele que disputam eleições, pedem votos e exercem poder?

Em um Estado Democrático de Direito, o chamado “sistema” não é uma entidade obscura nem uma máfia invisível. Ele é formado por instituições criadas para organizar o poder e limitar abusos: Constituição, eleições, parlamento, Judiciário, Executivo, imprensa livre, órgãos de fiscalização e direitos fundamentais. É esse conjunto — imperfeito, lento e cheio de freios — que impede que um único indivíduo concentre todo o poder.

Na democracia, o governante não pode dissolver o Legislativo quando quer, silenciar juízes que o contrariam ou reescrever regras institucionais por vontade própria. Mudanças estruturais exigem reformas constitucionais, debate público, voto parlamentar e controle de constitucionalidade. É um processo demorado e cansativo, mas essencial para preservar a liberdade.

Por isso, quando um candidato promete “mudar o sistema” de cima a baixo, só há duas possibilidades honestas: ou promete algo que não pode cumprir, ou sinaliza uma ruptura da ordem democrática. Fora da Constituição, não há atalhos legítimos. O caminho restante é o da força, do autoritarismo e da substituição da lei pelo arbítrio.

O Brasil já conhece bem esse enredo.
O bolsonarismo cresceu atacando “tudo isso que está aí”: Congresso, Supremo Tribunal Federal, imprensa, universidades. O discurso era de outsider, embora sustentado por décadas de carreira política. No poder, houve tentativas de enfraquecer instituições, tensionar o Judiciário e relativizar regras democráticas. Não se tratava de acabar com o sistema, mas de moldá-lo aos interesses de um projeto pessoal.

O mesmo discurso reaparece em outros países. Em Portugal, André Ventura se apresenta como voz contra o “sistema”, acusa a democracia de ter se transformado em um regime de privilégios e promete “refundar” o país. O roteiro é conhecido: transformar instituições em inimigas e se colocar como o único representante legítimo do “povo verdadeiro”.

Esse suposto “anti-sistema”, porém, é seletivo.
O sistema que incomoda é o que impõe limites: tribunais independentes, parlamentos ativos, imprensa crítica, movimentos sociais organizados. Já o sistema que garante tempo de televisão, financiamento público, salários, verbas de gabinete, carros oficiais e proteção policial nunca é questionado. São anti-sistema no discurso, mas plenamente dependentes dele na prática.

O maior risco dessa retórica não é apenas a incoerência, mas a pedagogia política que ela cria. Ao insistir que “tudo está podre” e que “ninguém presta”, esses líderes alimentam um ressentimento coletivo que não busca reformas, mas punição e vingança. E a vingança não respeita Constituição, quórum qualificado ou debate público.

Em nome de “mudar o sistema”, passa-se a atacar exatamente o que diferencia uma democracia de um regime autoritário: pluralismo político, alternância de poder, imprensa livre, proteção às minorias e freios institucionais. A palavra “sistema” vira um espantalho conveniente para esconder o alvo real: a própria democracia.

Talvez a pergunta mais honesta a fazer a qualquer candidato que se declare “anti-sistema” seja simples e direta:
quando o senhor diz que vai “mudar o sistema”, pretende fazê-lo dentro das regras da Constituição ou pela deslegitimação constante das instituições?

Em um Estado Democrático de Direito, só existem duas formas de mudar o sistema: pela reforma constitucional, lenta e transparente — ou pela ruptura autoritária, rápida e obscura. A primeira dá trabalho, mas preserva o voto e a liberdade. A segunda costuma vir embrulhada em slogans patrióticos, mas termina sempre do mesmo jeito: menos democracia para todos e mais poder para poucos.

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