PORTELINHANDO CRÔNICAS: NÃO FOI SÓ VÍDEO

PORTELINHANDO CRÔNICAS: NÃO FOI SÓ VÍDEO
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 11 de fevereiro de 2026 5

 

Não foi só um vídeo.
Foi o país passando o dedo na tela, mais uma vez, para rir do que deveria fazer calar. A luz azul do celular acende na madrugada, o presidente em seu trono digital, e lá estão Barack e Michelle Obama, rebaixados a macacos, embalados por uma canção supostamente inocente.

. Quem clica em “curtir” não ouve o estalo do chicote, não sente o cheiro do porão negreiro. Só ouve o “ding” da notificação, essa sineta moderna chamando para o velho espetáculo.Dizem que é só humor.

Disseram isso quando desenhavam lábios grossos em caricaturas, quando negavam emprego porque “não é perfil da empresa”, quando paravam corpos escuros na esquina para a revista rotineira. O truque é antigo: embrulhar a violência em risada, cobrir o abismo com meme.

O vídeo aparece, gira, é compartilhado, e em cada tela alguém repete, sem saber, a mesma frase que justificou tanta coisa: “Não aguenta uma brincadeira?”.
A piada é uma coleira: quem não ri, “estraga o clima”.
A presidência aperta “postar” como quem aperta um gatilho sem digitais.
Depois, a explicação burocrática: foi erro, foi assessor, foi engano.

O poder, esse ilusionista cansado, aponta para o estagiário enquanto esconde a mão que escolheu o alvo. Porque não se trata só de um vídeo mal escolhido, mas de um repertório inteiro: a ideia de que corpos negros são menos, que podem ser animalizados, que seu sofrimento é conteúdo, trilha sonora, entretenimento noturno.

O racismo aparece ali como sempre foi: sorridente, confiante, convencido de que nada vai acontecer.
Mas acontece.
Acontece no peito de quem vê sua própria pele colada em focinho de bicho. Acontece na criança que, na escola, vai ouvir piadas recicladas com a bênção implícita do mais alto cargo da República.

Acontece no silêncio de quem poderia dizer algo e prefere mudar de assunto, compartilhar o vídeo em grupos fechados, rir com cuidado, mas rir. A cada gargalhada, uma linha do passado se reescreve, dizendo que talvez não tenha sido tão grave assim, talvez a gente exagere, talvez, talvez.Não foi só um vídeo.

Foi um retrato de família: um país apontando o dedo para dois negros e dizendo “olhem os macacos”, enquanto finge não lembrar de navios, troncos, leis que nunca chegaram aos morros. Foi a confirmação de que o racismo, quando vem embalado em filtro e trilha sonora, ganha passe livre para passear entre likes e compartilhamentos.

E, no fundo da cena, uma pergunta que não quer calar: se até o que é desumano pode virar meme, em que momento, exatamente, a gente perdeu a vergonha de ser humano?

 

Joao Portelinha da Silva

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