Quando a culpa recai sobre quem ficou: o que o caso de Itumbiara (GO) revela sobre machismo, violência e o julgamento das mulheres

Quando a culpa recai sobre quem ficou: o que o caso de Itumbiara (GO) revela sobre machismo, violência e o julgamento das mulheres
Imagem ilustrativa. A fotografia representa o impacto emocional vivido por mulheres após episódios de violência familiar e debates públicos que reforçam julgamentos e estigmas sociais.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 12 de fevereiro de 2026 66

Hoje, em Itumbiara, Goiás, uma tragédia familiar atravessou o país e expôs mais do que um crime brutal. Expôs uma cultura. Um homem matou a esposa e os dois filhos, tirou a própria vida e deixou atrás de si não apenas uma família destruída, mas também um debate público que revela o quanto o Brasil ainda insiste em responsabilizar mulheres pela violência que sofrem. Nas horas seguintes, enquanto a cidade lidava com o choque e o prefeito enfrentava um quadro grave de saúde após o impacto emocional, uma parte das redes sociais seguiu um caminho conhecido: transformar a vítima em ré.

É impossível ignorar o padrão. Sempre que uma mulher está no centro de uma tragédia, surgem comentários tentando reconstruir a história para justificar o agressor. “Ela deve ter feito algo”, “ninguém faz isso sem motivo”, “ela também tem culpa”. Essas frases não são apenas opiniões isoladas. Elas refletem uma lógica social que atravessa décadas: a ideia de que a mulher precisa provar que é inocente para merecer compaixão.

No caso de Itumbiara, o que deveria ser luto virou tribunal digital. Pessoas pedindo punição para a mulher, questionando sua conduta, tentando transformar uma sobrevivente em responsável pela violência. Esse movimento não acontece por acaso. Ele nasce de uma estrutura patriarcal que ainda ensina que o homem é o centro da narrativa e que a mulher é sempre analisada a partir do comportamento esperado.

Quando se fala em patriarcado, muitos tratam o termo como exagero ideológico. Mas basta observar as reações públicas para entender que ele continua operando. O patriarcado aparece quando a dor masculina é tratada como tragédia inevitável, enquanto a dor feminina vira objeto de suspeita. Aparece quando a cultura das armas é normalizada e conflitos familiares passam a ser resolvidos com violência irreversível. Aparece quando mulheres são julgadas pela forma como amaram, falaram ou permaneceram em um relacionamento.

O Brasil convive com índices elevados de violência doméstica, mas ainda resiste em reconhecer o problema como estrutural. Em vez disso, procura histórias individuais para explicar o inexplicável. No caso de Itumbiara, a discussão deveria girar em torno da proteção das mulheres, do acesso a redes de apoio e da responsabilidade institucional diante de sinais de violência. No entanto, parte da sociedade preferiu procurar erros na mulher, como se isso diminuísse a gravidade do que aconteceu.

Há também um elemento simbólico importante. O fato de o caso envolver figuras públicas ampliou a exposição e transformou a tragédia em espetáculo. Nesse cenário, a mulher deixou de ser vista como pessoa e passou a ser tratada como personagem de narrativa moralizante. O resultado é um ambiente em que o sofrimento feminino perde centralidade e o debate se desloca para julgamentos superficiais.

Defender a mulher nesse contexto não é negar a complexidade humana. É reconhecer que nenhum comportamento justifica violência extrema. É afirmar que a responsabilidade nunca pode ser transferida para quem sobreviveu. É lembrar que, quando a sociedade tenta encontrar justificativas para o agressor, ela reforça uma cultura que permite que novas tragédias aconteçam.

O caso de Itumbiara não é apenas uma notícia policial. Ele é um espelho do país. Um país em que mulheres ainda precisam lutar para não serem culpadas pela própria dor. Um país em que o patriarcado continua operando silenciosamente, moldando discursos e influenciando percepções. Enquanto a violência for tratada como reação emocional masculina e a mulher continuar sendo julgada pela tragédia que sofreu, o ciclo não será interrompido.

Talvez a pergunta mais honesta que esse episódio nos deixa não seja “o que aconteceu dentro daquela casa”, mas sim “por que ainda tentamos explicar a violência masculina apontando o dedo para mulheres?”. A resposta pode ser incômoda, mas é necessária: porque ainda vivemos em uma sociedade que não aprendeu a colocar a responsabilidade onde ela realmente pertence.

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