MPTO pede suspensão de cursos de medicina sem estrutura adequada no Tocantins

MPTO pede suspensão de cursos de medicina sem estrutura adequada no Tocantins
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 17 de fevereiro de 2026 19

O Ministério Público do Tocantins (MPTO) ingressou com ação civil pública (ACP) para pedir a suspensão de autorizações concedidas a cursos de medicina no estado que, segundo o órgão, não comprovaram infraestrutura adequada nem capacidade da rede pública de saúde para garantir formação acadêmica compatível com as exigências legais e sanitárias.

A ação foi proposta pela 10ª Promotoria de Justiça da Capital e tem como alvos o Estado do Tocantins, a Fundação Universidade de Gurupi (UnirG) e a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), responsáveis pela implantação e expansão de cursos questionados pelo Ministério Público.

Segundo o MPTO, a abertura e ampliação dessas graduações ocorreram sem o cumprimento integral de requisitos técnicos fundamentais, como disponibilidade de hospitais credenciados para internato, estrutura laboratorial adequada e corpo docente compatível com a complexidade do curso.

Falhas estruturais e ausência de condições mínimas

Entre os principais problemas apontados na ação estão a falta de laboratórios equipados para formação clínica, bibliotecas com acervo insuficiente, carência de unidades de saúde aptas a receber estudantes em estágio e número limitado de leitos hospitalares para atividades práticas.

O Ministério Público também identificou fragilidades na estrutura pedagógica e insuficiência de profissionais qualificados para atender às exigências curriculares do curso de medicina, considerado um dos mais complexos da formação superior.

De acordo com a ACP, relatórios técnicos chegaram a registrar essas limitações estruturais. Mesmo assim, autorizações de funcionamento foram concedidas com conceitos considerados satisfatórios, o que, segundo o MPTO, pode configurar irregularidade administrativa.

A promotora de Justiça Jacqueline Orofino destacou que a preocupação institucional envolve não apenas a qualidade da formação acadêmica, mas também os impactos diretos sobre o sistema de saúde e a segurança da população.

“A preocupação institucional é evitar que estudantes sejam prejudicados e que futuros profissionais sejam formados em ambientes sem estrutura adequada, o que pode refletir negativamente no atendimento à população”, afirmou.

Expansão da UnirG e Unitins está no centro da ação

A ação judicial cita diretamente a expansão do curso de medicina da Universidade de Gurupi (UnirG), instituição mantida por fundação pública municipal, que ampliou sua atuação para além do município-sede, com implantação de campus em Paraíso do Tocantins e, posteriormente, em Colinas do Tocantins.

Segundo o MPTO, não foram apresentadas evidências suficientes de fiscalização posterior para comprovar que as deficiências estruturais inicialmente apontadas foram corrigidas.

Relatos encaminhados por estudantes também indicam problemas relacionados à infraestrutura, incluindo limitações em campos de prática e dificuldades no acesso a unidades hospitalares para treinamento clínico.

Situação semelhante foi identificada no curso de medicina da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), autorizado no campus de Augustinópolis. O MPTO questiona a legalidade da autorização e a capacidade estrutural da instituição para oferecer formação médica completa.

Competência legal para autorizar cursos é questionada

A ação civil pública também questiona a competência do Conselho Estadual de Educação do Tocantins para autorizar a criação e expansão de cursos de medicina. Segundo o Ministério Público, esse tipo de autorização está sujeito a regime jurídico federal específico, o que pode invalidar atos administrativos concedidos no âmbito estadual.

O MPTO sustenta que autorizações concedidas com base em deliberações do Conselho podem apresentar vício de competência, o que comprometeria sua legalidade.

Ministério Público pede suspensão de novos vestibulares e turmas

Entre os pedidos apresentados na ação judicial, o Ministério Público solicita:

  • O reconhecimento da incompetência do Conselho Estadual de Educação para autorizar cursos de medicina;

  • A suspensão da abertura de novas turmas e vestibulares vinculados às autorizações questionadas;

  • A suspensão dos efeitos das autorizações concedidas aos campi da UnirG em Paraíso e Colinas do Tocantins e da Unitins em Augustinópolis;

  • A exigência de cumprimento integral da legislação federal em futuras autorizações e expansões.

O MPTO ressalta que as medidas solicitadas não atingem estudantes atualmente matriculados, preservando a continuidade da formação das turmas em andamento. O objetivo, segundo o órgão, é impedir novos ingressos enquanto não houver comprovação da adequação estrutural exigida por lei.

Expansão de cursos de medicina exige estrutura e integração com o SUS

A abertura de cursos de medicina no Brasil depende da comprovação de estrutura acadêmica e da integração com a rede pública de saúde, especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS), responsável por oferecer os cenários de prática clínica.

Especialistas apontam que a formação médica exige acesso contínuo a hospitais, ambulatórios, laboratórios e equipes multiprofissionais, elementos considerados essenciais para garantir qualidade na formação e segurança no atendimento à população.

A ação do Ministério Público ocorre em um contexto nacional de expansão do ensino médico, impulsionado pela demanda por profissionais e pela interiorização da formação superior.

No Tocantins, o crescimento do ensino médico é visto como estratégico para ampliar a oferta de profissionais no interior. No entanto, o MPTO sustenta que essa expansão deve ocorrer dentro dos parâmetros legais e com garantia de qualidade acadêmica.

A ação segue em tramitação judicial e ainda será analisada pelo Poder Judiciário, que decidirá sobre os pedidos de suspensão apresentados pelo Ministério Público.

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