Cinco mulheres por dia: o Brasil que normaliza o ódio e enterra 2.151 vítimas em um ano

Cinco mulheres por dia: o Brasil que normaliza o ódio e enterra 2.151 vítimas em um ano
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 25 de fevereiro de 2026 19
Por Fernanda Cappellesso — Especial

O Brasil encerrou 2025 com um número que não cabe em estatística: 2.151 mulheres assassinadas por feminicídio. Outras 4.755 sobreviveram a tentativas de assassinato. Ao todo, foram 6.904 casos consumados e tentados, segundo o Relatório Anual de Feminicídios do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (LESFEM/UEL). O aumento foi de 34% em relação a 2024. Em média, 5,89 mulheres foram mortas por dia. Quase seis. Todos os dias.

Não se trata de um pico isolado. Trata-se de um recorde desde o início do Monitor de Feminicídios no Brasil, em 2023. E, mais do que isso, trata-se de um retrato estrutural do país.

O relatório desmonta o argumento de que a violência contra a mulher é episódica. Três em cada quatro casos (75%) foram classificados como feminicídios íntimos — crimes cometidos por homens que faziam ou fizeram parte da vida afetiva da vítima: maridos, ex-maridos, companheiros, ex-companheiros, namorados, ex-namorados. O assassino, na maioria das vezes, não é um estranho. É alguém que dividiu a casa, a cama ou os filhos com a vítima.

O lugar mais perigoso para a mulher brasileira continua sendo o espaço doméstico. Em 38% dos casos, o crime ocorreu na própria casa da vítima. Outros 21% aconteceram na residência do casal. O ambiente privado, onde o Estado entra pouco e a cultura pesa muito, permanece como cenário predominante da violência letal.

A idade das vítimas reforça outro dado inquietante. A maior concentração está entre 25 e 34 anos. A mediana é 33. São mulheres em plena vida produtiva, muitas com filhos pequenos. O levantamento indica que 69% das vítimas tinham filhos ou dependentes. Em números absolutos, 1.653 crianças ficaram órfãs apenas em 2025. Ao menos 101 mulheres estavam grávidas quando foram assassinadas ou sofreram tentativa de homicídio.

Esses dados expõem o impacto intergeracional da violência de gênero. O feminicídio não atinge apenas a vítima. Ele reorganiza famílias inteiras e amplia o ciclo de vulnerabilidade social.

O relatório revela também que 22% das mulheres já haviam denunciado seus agressores antes do crime. O dado aponta para uma falha estrutural na rede de proteção. A denúncia, por si só, não foi suficiente para impedir o desfecho fatal.

O perfil do agressor é igualmente consistente: idade média de 36 anos, atuação individual em 94% dos casos e uso predominante de arma branca (48%). Faca, foice, canivete. Instrumentos domésticos transformados em armas. Em 7,91% das ocorrências com informação disponível, o suspeito morreu após o crime, na maioria por suicídio (7,76%). Em pelo menos 67% dos casos, houve confirmação de prisão.

A violência segue calendário próprio. Os meses com maior número de registros foram dezembro (650), agosto (633) e outubro (606). Finais de semana concentram risco maior. Domingo responde por 20% dos casos; sábado, por 18%. Os períodos tradicionalmente associados a descanso e convivência familiar apresentam maior incidência.

A coordenadora do LESFEM, professora Silvana Mariano, aponta que períodos de convivência intensificada elevam a exposição ao risco. Ela também destaca que a ampliação dos números não decorre apenas do aumento da violência, mas da melhoria na identificação e classificação dos casos. O feminicídio tentado, historicamente subnotificado, passou a ser mais reconhecido por autoridades e imprensa.

Ainda assim, o crescimento de 34% em um ano não pode ser explicado apenas por aprimoramento metodológico. O relatório associa os casos a padrões estruturais de machismo, racismo e sexismo que permanecem arraigados na sociedade brasileira.

Os estados com maior número absoluto de registros foram São Paulo (1.143), Minas Gerais (487) e Bahia (462). Apenas três unidades federativas apresentaram redução: Paraná (de 424 para 357), Rio de Janeiro (de 250 para 200) e Piauí (de 163 para 154). Rondônia manteve estabilidade, com 127 ocorrências em dois anos consecutivos.

O Brasil criou o Dia Nacional de Luto e Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, a ser lembrado em 17 de outubro. A data simboliza o reconhecimento institucional de que o feminicídio não é desvio individual, mas fenômeno social persistente.

A metodologia do LESFEM combina monitoramento diário da imprensa com cruzamento de dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP), seguindo diretrizes nacionais e parâmetros latino-americanos para classificação de mortes violentas de mulheres. O esforço visa reduzir subnotificação e ampliar transparência.

O país possui legislação específica desde 2015, quando o feminicídio passou a ser qualificadora do homicídio. As penas são mais severas. A tipificação existe. A rede de proteção também. Mas os números indicam que a estrutura cultural permanece mais resistente do que as reformas legais.

O relatório afirma, em linguagem técnica, que o feminicídio decorre de “atitudes de extrema violência de gênero”. Em termos concretos, isso significa que o assassinato é o ponto final de um processo de controle, humilhação, vigilância e desumanização que muitas vezes começou muito antes.

Não é briga de casal. Não é explosão momentânea. É tentativa de assassinato que, em milhares de casos, se concretizou.

Em 2025, quase seis mulheres morreram por dia no Brasil por serem mulheres. O dado não é apenas estatístico. Ele define um padrão nacional.

E, se a tendência apontada pelo relatório se confirmar, 2026 pode registrar números ainda maiores.

O Brasil já não pode alegar surpresa.

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