Por que partidos estão apostando em famosos nas eleições de 2026?

Por que partidos estão apostando em famosos nas eleições de 2026?
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 27 de fevereiro de 2026 16

Celebridades viram ativos eleitorais estratégicos; cientistas políticos apontam cálculo eleitoral e impacto direto na formação de bancadas

A aproximação entre política e celebridades não é novidade no Brasil, mas o movimento ganha nova intensidade na preparação para as eleições de 2026. Partidos de diferentes espectros ideológicos passaram a disputar nomes conhecidos do esporte, da televisão, da música e das redes sociais como estratégia para ampliar votação proporcional e fortalecer suas bancadas na Câmara dos Deputados e nas assembleias estaduais.

O cálculo é direto: no sistema proporcional brasileiro, votos expressivos em um candidato podem elevar o quociente eleitoral do partido e puxar outros nomes menos votados. Em um cenário de fragmentação partidária e eleitorado disperso, a popularidade virou ativo estratégico.

Casos recentes ilustram o fenômeno. O técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, já teve o nome ventilado em articulações políticas nos últimos ciclos eleitorais, assim como ex-jogadores, cantores e influenciadores digitais. Mesmo quando não confirmam candidatura, esses nomes são testados como potenciais cabos eleitorais de grande alcance.

O peso da imagem sobre a estrutura partidária

Para o cientista político Ricardo Mendonça, professor de comportamento eleitoral, o movimento reflete transformação na dinâmica de representação:

“Os partidos perceberam que a fidelidade ideológica diminuiu e que o reconhecimento público se tornou um dos principais fatores de decisão do eleitor. Um nome conhecido reduz custo de campanha, amplia alcance nas redes sociais e pode gerar votação suficiente para eleger uma bancada inteira.”

Segundo ele, o fenômeno é intensificado pela lógica digital, em que capital simbólico se converte rapidamente em capital político.

O histórico eleitoral confirma essa tendência. Nas últimas eleições gerais, candidatos com forte presença midiática registraram votações expressivas, muitas vezes superando políticos tradicionais com maior tempo de militância partidária.

Estratégia nacional e reflexos no Tocantins

No Tocantins, o movimento também é observado. Partidos regionais e diretórios estaduais avaliam nomes com visibilidade pública — seja no esporte, no agronegócio, na comunicação ou no meio artístico — como forma de ampliar competitividade em disputas para a Câmara Federal e Assembleia Legislativa.

Analistas locais apontam que, em estados com menor densidade populacional, a transferência de popularidade pode ter impacto ainda mais significativo. Um candidato conhecido regionalmente pode concentrar votos suficientes para alterar a composição da bancada.

A cientista política Mariana Valente, pesquisadora de sistemas eleitorais, avalia:

“Em estados como o Tocantins, onde a disputa proporcional pode ser definida por margens relativamente menores, a entrada de um nome popular muda completamente o tabuleiro. Não se trata apenas de ganhar votos individuais, mas de reorganizar a lógica interna dos partidos.”

Risco ou renovação?

Embora partidos vejam vantagem estratégica, o fenômeno também gera debate sobre qualificação técnica e preparo legislativo. Críticos apontam que notoriedade não substitui experiência política. Defensores argumentam que a renovação pode aproximar o eleitor do processo democrático.

Há ainda o fator volatilidade. Celebridades tendem a polarizar opiniões e podem enfrentar desgaste rápido, sobretudo quando a exposição política substitui a imagem construída na carreira original.

O cenário para 2026

Com o início das articulações pré-eleitorais, dirigentes partidários já buscam alianças e sondagens com figuras públicas. A expectativa é que o número de candidatos famosos em 2026 seja superior ao registrado em pleitos anteriores.

No sistema proporcional brasileiro, onde votos contam para o partido antes de contar apenas para o indivíduo, a popularidade deixou de ser apenas atributo pessoal. Tornou-se ferramenta de engenharia eleitoral.

E, ao que tudo indica, continuará sendo peça central na estratégia dos partidos — inclusive no Tocantins

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