Tumor raro pode simular transtornos psiquiátricos e confundir diagnósticos, dizem endocrinologistas e neurologistas

Tumor raro pode simular transtornos psiquiátricos e confundir diagnósticos, dizem endocrinologistas e neurologistas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 2 de março de 2026 13

Feocromocitoma provoca descarga intensa de adrenalina, desencadeia sintomas físicos e emocionais graves e, em muitos casos, é inicialmente confundido com ansiedade, pânico ou depressão

Por décadas, pacientes com palpitações súbitas, sensação de morte iminente, sudorese intensa e picos de pressão arterial foram tratados como casos clássicos de ansiedade ou transtorno do pânico. Em um pequeno número deles, no entanto, o diagnóstico correto não estava na psiquiatria, mas no sistema endócrino. O feocromocitoma, um tumor raro das glândulas suprarrenais, pode desencadear uma cascata hormonal capaz de imitar com precisão sintomas psiquiátricos.

O tumor libera quantidades excessivas de catecolaminas — principalmente adrenalina e noradrenalina — hormônios responsáveis pela resposta de “luta ou fuga”. Essa descarga provoca reações fisiológicas intensas que afetam o coração, a pressão arterial e o sistema nervoso autônomo.

Segundo o endocrinologista Dr. Karel Pacak, pesquisador sênior do National Institutes of Health (NIH) e uma das principais autoridades mundiais no estudo do feocromocitoma, os sintomas frequentemente são confundidos com transtornos psicológicos.

“Pacientes com feocromocitoma frequentemente apresentam sintomas que são indistinguíveis de ataques de pânico. Eles experimentam ansiedade extrema, palpitações e sensação iminente de morte”, afirmou Pacak em artigo publicado no New England Journal of Medicine.

Essa sobreposição de sintomas pode atrasar o diagnóstico por anos.

Estudos clínicos mostram que o feocromocitoma ocorre em cerca de 2 a 8 pessoas por milhão por ano. Embora raro, seu impacto fisiológico é profundo.

O neurologista Dr. David Goldstein, pesquisador do National Institute of Neurological Disorders and Stroke, explicou em publicação científica que o excesso de catecolaminas altera diretamente o equilíbrio do sistema nervoso autônomo.

“As catecolaminas exercem efeitos poderosos sobre o sistema cardiovascular e nervoso. Sua liberação excessiva produz sintomas físicos e psicológicos intensos”, escreveu Goldstein em estudo sobre disfunção autonômica.

O sistema nervoso autônomo regula funções involuntárias como frequência cardíaca, respiração e pressão arterial. Ele é dividido em dois componentes principais: o sistema simpático, que ativa o corpo em situações de estresse, e o sistema parassimpático, que promove relaxamento.

O nervo vago é o principal componente do sistema parassimpático.

O feocromocitoma não invade diretamente o nervo vago. No entanto, ao ativar de forma extrema o sistema simpático, ele cria um desequilíbrio fisiológico que reduz a atividade parassimpática.

Esse desequilíbrio pode produzir sintomas como ansiedade intensa, sensação de descontrole fisiológico e crises autonômicas.

O endocrinologista Dr. William Young Jr., professor da Mayo Clinic e especialista em tumores adrenais, afirmou em diretrizes clínicas que o feocromocitoma é frequentemente descrito como “o grande imitador” devido à sua capacidade de reproduzir sintomas de múltiplas doenças.

“O feocromocitoma pode imitar praticamente qualquer condição associada à ativação do sistema nervoso simpático, incluindo transtornos de ansiedade”, escreveu Young em publicação clínica da Mayo Clinic.

Essa característica torna o diagnóstico particularmente desafiador.

Pacientes frequentemente procuram atendimento psiquiátrico antes de serem encaminhados a endocrinologistas.

A psiquiatra Dra. Katharina Domschke, professora da Universidade de Freiburg e especialista em transtornos de ansiedade, afirmou em artigo publicado na revista The Lancet Psychiatry que condições médicas podem produzir sintomas indistinguíveis de transtornos psiquiátricos primários.

“Distúrbios endócrinos estão entre as causas médicas que devem ser excluídas quando pacientes apresentam sintomas de ansiedade súbita e grave”, escreveu Domschke.

Além da ansiedade, pacientes com feocromocitoma frequentemente relatam fadiga extrema, alterações de humor e sensação de esgotamento emocional.

Esses sintomas não são causados diretamente por alteração estrutural no cérebro, mas pelo efeito fisiológico prolongado da hiperativação hormonal.

A exposição repetida a níveis elevados de adrenalina coloca o organismo em estado constante de alerta fisiológico.

Esse estado é biologicamente insustentável a longo prazo.

O cardiologista Dr. J. Brent Muhlestein, pesquisador clínico da Intermountain Medical Center, afirmou em estudo sobre efeitos cardiovasculares de catecolaminas que a exposição prolongada a esses hormônios pode produzir efeitos sistêmicos profundos.

“O excesso crônico de catecolaminas tem impacto significativo sobre o sistema cardiovascular e o sistema nervoso”, escreveu.

O diagnóstico é realizado por exames laboratoriais que medem níveis de metanefrinas no sangue ou na urina, além de exames de imagem para localizar o tumor.

O tratamento é predominantemente cirúrgico.

Quando removido, os sintomas frequentemente desaparecem.

Essa reversibilidade confirma a origem fisiológica, e não psiquiátrica, dos sintomas.

O endocrinologista Karel Pacak afirmou que o reconhecimento precoce é fundamental.

“O feocromocitoma é potencialmente curável, mas pode ser fatal se não for diagnosticado”, escreveu.

Para especialistas, o principal desafio permanece a identificação correta.

Nem toda ansiedade é psicológica.

Em casos raros, ela pode ser hormonal.

E reconhecer essa diferença pode ser decisivo para salvar vidas.

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