Vape para ansiedade não funciona e pode agravar dependência, alertam especialistas

Vape para ansiedade não funciona e pode agravar dependência, alertam especialistas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 4 de março de 2026 9

O cigarro eletrônico, popularmente conhecido como vape, passou a ser utilizado por parte da população como uma tentativa de aliviar sintomas de ansiedade e estresse. Nas redes sociais, jovens e adultos relatam sensação momentânea de relaxamento após o uso do dispositivo. No entanto, médicos e pesquisadores alertam que a prática pode produzir efeito contrário, aumentando crises de ansiedade, estimulando dependência química e afetando o funcionamento do cérebro.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém desde 2009 a proibição da comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos, justamente por causa dos riscos associados ao produto e da ausência de comprovação de segurança. Apesar disso, os dispositivos continuam circulando no mercado informal e ganharam popularidade entre adolescentes e adultos jovens.

Nicotina pode intensificar ansiedade

De acordo com especialistas em saúde mental, a principal substância presente nos vapes é a nicotina, um composto altamente viciante que atua diretamente no sistema nervoso central.

Quando inalado, o composto estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e recompensa. Esse mecanismo produz uma sensação rápida de alívio ou relaxamento, que pode levar o usuário a acreditar que o dispositivo ajuda a controlar a ansiedade.

No entanto, esse efeito é temporário e enganoso.

Após poucos minutos, a concentração de nicotina no organismo começa a cair, o que pode provocar irritação, inquietação e aumento da ansiedade, estimulando o uso repetido do produto e criando um ciclo de dependência.

Estudos internacionais publicados em revistas científicas como The Lancet e Journal of Adolescent Health indicam que pessoas que utilizam nicotina com frequência apresentam maior incidência de sintomas ansiosos e depressivos ao longo do tempo.

Dispositivos concentram doses elevadas de nicotina

Outro fator que preocupa especialistas é a concentração da substância presente nos cigarros eletrônicos.

Alguns modelos comercializados internacionalmente possuem cápsulas com até 50 miligramas de nicotina por mililitro, quantidade considerada alta quando comparada aos cigarros convencionais.

Um único cartucho de vape pode equivaler ao consumo de um maço inteiro de cigarros tradicionais, dependendo da frequência de uso.

Essa característica facilita a instalação de dependência, principalmente entre jovens que nunca tiveram contato prévio com o tabaco.

Além da nicotina, estudos apontam a presença de metais pesados, solventes químicos e aromatizantes, substâncias que podem provocar inflamação pulmonar e irritação nas vias respiratórias.

Anvisa mantém proibição no Brasil

Diante desses riscos, a Anvisa decidiu manter a restrição aos cigarros eletrônicos no país. Em revisões recentes sobre o tema, a agência concluiu que ainda não existem evidências científicas suficientes que comprovem segurança ou benefícios para saúde.

A autoridade sanitária também destaca preocupação com o crescimento do consumo entre adolescentes.

Pesquisas conduzidas por universidades brasileiras indicam aumento do uso de dispositivos eletrônicos para fumar entre estudantes do ensino médio, fenômeno semelhante ao observado em países como Estados Unidos e Reino Unido nos últimos anos.

Mercado informal movimenta milhões

Mesmo com a proibição, o vape continua sendo vendido em plataformas online, redes sociais e estabelecimentos informais.

Os preços variam conforme o modelo e a capacidade do dispositivo.

No mercado paralelo brasileiro, dispositivos descartáveis podem custar entre R$ 40 e R$ 120, enquanto modelos recarregáveis podem ultrapassar R$ 300, dependendo da marca e da tecnologia utilizada.

Especialistas alertam que produtos vendidos sem controle sanitário apresentam risco ainda maior, já que muitas vezes não há garantia sobre a composição do líquido ou a concentração real de nicotina.

Tratamento da ansiedade exige abordagem médica

Psicólogos e psiquiatras reforçam que ansiedade é uma condição de saúde que exige avaliação clínica adequada, podendo envolver terapia psicológica, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, tratamento medicamentoso.

Utilizar nicotina como forma de automedicação pode mascarar sintomas temporariamente, mas tende a piorar o quadro no longo prazo.

Entre as estratégias consideradas mais eficazes para controle da ansiedade estão:

  • acompanhamento psicológico

  • prática regular de atividade física

  • técnicas de respiração e relaxamento

  • redução de estímulos digitais excessivos

  • organização do sono

Problema pode se tornar questão de saúde pública

Especialistas em saúde pública alertam que o crescimento do uso de cigarros eletrônicos pode criar uma nova geração dependente de nicotina, especialmente entre jovens que nunca fumaram cigarro convencional.

Experiências internacionais mostram que países que liberaram os dispositivos enfrentaram aumento significativo do consumo entre adolescentes.

Por isso, autoridades sanitárias e pesquisadores defendem campanhas de informação para esclarecer a população sobre os riscos do produto.

Enquanto a discussão regulatória continua, médicos recomendam cautela: o vape não é tratamento para ansiedade e pode abrir caminho para dependência química e problemas neurológicos ao longo do tempo.

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