Guerra no Oriente Médio pressiona petróleo e preço dos combustíveis já preocupa motoristas no Tocantins e no Brasil
A escalada militar no Oriente Médio voltou a aparecer no bolso antes de aparecer nas bombas. Com o aumento do risco de interrupção de rotas e infraestrutura de energia, o petróleo disparou no mercado internacional nesta semana, movimento que costuma reabrir a discussão sobre repasses para gasolina e diesel no Brasil — e com atenção redobrada em estados onde o preço já costuma operar acima da média, como o Tocantins.
Na terça-feira (3), o Brent, referência global, fechou em US$ 81,40 por barril, alta de cerca de 4,7%, em reação ao agravamento do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e aos temores de impacto sobre embarques na região. No pregão desta quinta-feira (5), o Brent chegou a operar na faixa de US$ 84, após ter avançado mais de 20% no último mês, segundo séries de mercado.
O ponto de maior sensibilidade é o Estreito de Ormuz, gargalo por onde passa parcela relevante do petróleo e do gás transportados por via marítima. Em relatório citado por bancos de investimento, o risco de redução prolongada do fluxo no estreito elevou projeções e reintroduziu um cenário que havia saído do radar em 2024 e 2025: Brent perto de US$ 90e até US$ 100 em caso de choque mais duradouro.
Por que o petróleo sobe e como isso chega ao Tocantins
O preço internacional do petróleo costuma contaminar o custo da cadeia no Brasil por três vias principais:
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paridade e competição com importados, sobretudo no diesel;
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câmbio e frete, que ampliam o custo de reposição;
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repasses na distribuição e na revenda, que respondem ao risco de escassez e ao custo de capital.
Mesmo quando a Petrobras segura reajustes por um período, a pressão pode aparecer em refinarias privadas e no mercado de atacado, o que tende a “puxar” a referência do setor. Esse debate voltou hoje ao noticiário econômico, com a avaliação de que a alta do Brent aumenta a pressão por correções caso o patamar se mantenha.
O que dizem os números mais recentes no Brasil
No recorte mais recente divulgado por bases oficiais e séries públicas, o Brasil registrou gasolina em torno de R$ 6,28 por litro como média nacional em período de coleta de 22/02 a 28/02, em cálculo que usa dados da ANP e CEPEA/USP e detalha composição do preço (parcela Petrobras, impostos, distribuição e etanol anidro).
Esse valor nacional serve como régua para entender por que a alta internacional preocupa: quando o petróleo sobe forte em poucos dias, o mercado passa a precificar risco de defasagem e repasse, ainda que ele não seja automático.
Imposto já subiu em 2026: o piso ficou mais alto
No início de 2026, o ICMS “ad rem” (valor fixo por litro) entrou em vigor com elevação de R$ 0,10 na gasolina (de R$ 1,47 para R$ 1,57) e de R$ 0,05 no diesel (de R$ 1,12 para R$ 1,17), fator que aumenta o nível-base do preço ao consumidor e reduz espaço para absorção de choques sem repasse.
O Tocantins no mapa do risco
No Tocantins, motoristas em cidades como Palmas, Araguaína, Gurupi e Colinas acompanham dois sinais ao mesmo tempo: o noticiário do petróleo e a dinâmica local de revenda, que costuma refletir custos logísticos, concorrência regional e estratégias de preço por praça.
O que muda com guerra e petróleo caro é a velocidade: o mercado ajusta expectativa antes do ajuste real. Quando o Brent salta de patamar em poucos pregões, postos e distribuidoras passam a operar com custo de reposição mais alto na conta e isso tende a aparecer primeiro em reajustes pontuais e depois em movimento mais amplo.
Bancos elevam projeções e citam cenário de US$ 100
Entre as leituras que ajudam a calibrar o risco, duas chamam atenção:
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O UBS elevou projeções e citou que danos a infraestrutura ou prolongamento da crise podem levar o Brent a acima de US$ 90 e até US$ 100 em cenários específicos.
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O Goldman Sachs revisou estimativas e também discutiu um cenário de Brent em US$ 100 se restrições de fluxo em Ormuz persistirem por semanas, com impacto sobre estoques e oferta.
Esses cenários não são “previsões fechadas”, mas funcionam como termômetro de risco: quando bancos colocam US$ 100 no radar, distribuidoras e revendas passam a proteger margem e estoque.
O que observar na bomba nos próximos dias
Para o consumidor, três indicadores práticos sinalizam se o repasse ganhou tração:
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diesel primeiro: quando o diesel sobe, a cadeia de frete e distribuição tende a repassar custos para alimentos e serviços;
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diferença entre postos da mesma cidade: aumento da dispersão costuma indicar fase de ajuste;
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ritmo semanal: reajuste concentrado em poucos dias sugere reposição com custo maior.