8 de março: não há flores que escondam a desvalorização e a violência contra mulheres

8 de março: não há flores que escondam a desvalorização e a violência contra mulheres
Fernanda Cappellesso é Jornalista, publicitária, especialista em semiótica, hermenêutica, ciências sociais, editoração e marketing político e digital.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 6 de março de 2026 8

Todo ano, o mesmo roteiro se repete. No dia 8 de março, empresas distribuem flores, campanhas publicitárias celebram o “empoderamento” feminino e autoridades publicam mensagens de homenagem. A data virou gesto simbólico, marketing institucional e protocolo corporativo. Mas essa versão polida do Dia Internacional da Mulher esconde a natureza real da data. O 8 de março não nasceu como celebração. Nasceu como denúncia.

A história do dia está ligada a greves operárias, jornadas de trabalho exaustivas, mortes em fábricas e revoltas que desafiaram estruturas de poder profundamente masculinas no início do século XX. Foi um movimento construído por mulheres que trabalhavam até 14 horas por dia em indústrias têxteis, recebiam salários inferiores aos dos homens e eram tratadas como mão de obra substituível em um sistema industrial que crescia rapidamente.

Em 1909, nos Estados Unidos, trabalhadoras organizaram protestos exigindo melhores salários, redução da jornada de trabalho e direito ao voto. O movimento levou à criação do primeiro Dia Nacional da Mulher, promovido pelo Partido Socialista Americano. Um ano depois, em 1910, a proposta de transformar aquela mobilização em um evento internacional foi apresentada pela ativista alemã Clara Zetkin durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em Copenhague. Delegadas de 17 países aprovaram a ideia. A data não foi criada para homenagens. Foi criada para pressionar governos e denunciar desigualdades estruturais.

Poucos meses depois, uma tragédia em Nova York expôs ao mundo a brutalidade das condições de trabalho enfrentadas por mulheres. Em 25 de março de 1911, um incêndio atingiu a fábrica Triangle Shirtwaist, onde centenas de jovens costuravam roupas em um prédio sem medidas adequadas de segurança. As portas estavam trancadas para impedir pausas durante o expediente. Quando o fogo se espalhou, muitas trabalhadoras ficaram presas. Algumas saltaram pelas janelas para escapar das chamas. Outras morreram dentro do edifício. O incêndio deixou 146 mortos, sendo 123 mulheres, muitas delas adolescentes imigrantes. A tragédia transformou a discussão sobre direitos trabalhistas em um escândalo internacional e revelou como o trabalho feminino era tratado como descartável.

O episódio que consolidaria o 8 de março como símbolo político ocorreu alguns anos depois, na Rússia. Em 1917, operárias têxteis iniciaram uma greve exigindo “pão e paz” em meio à fome e ao desgaste provocado pela Primeira Guerra Mundial. O protesto rapidamente se espalhou pelas ruas de Petrogrado e desencadeou manifestações que levariam à queda do czar Nicolau II. A greve iniciada por mulheres tornou-se um dos estopins da Revolução Russa. A partir daquele momento, o 8 de março passou a ser reconhecido internacionalmente como um dia de mobilização feminina.

Décadas depois, em 1975, a Organização das Nações Unidas oficializou o Dia Internacional da Mulher. A institucionalização ampliou o alcance da data, mas também suavizou sua origem. O que nasceu como protesto foi gradualmente transformado em homenagem. O que começou como denúncia foi convertido em cerimônia.

Mais de um século após as primeiras mobilizações femininas, os dados mostram que a desigualdade que motivou aqueles protestos não desapareceu. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, mulheres recebem em média cerca de 20% menos que homens no mundo. No Brasil, dados do IBGE indicam que mulheres ganham aproximadamente 78% do rendimento masculino, mesmo apresentando níveis educacionais frequentemente superiores.

A violência contra mulheres também permanece como um dos problemas sociais mais persistentes. Estimativas da ONU Mulheres indicam que uma em cada três mulheres no planeta já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. No Brasil, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o país registra mais de mil feminicídios por ano. Na prática, uma mulher é assassinada aproximadamente a cada seis horas.

A desigualdade também aparece na política. No mundo, mulheres ocupam cerca de um quarto das cadeiras parlamentares. No Brasil, representam pouco mais de 18% da Câmara dos Deputados. Em um país onde mulheres são maioria da população, decisões centrais da vida pública continuam sendo tomadas majoritariamente por homens.

O contraste entre a origem da data e a forma como ela é tratada hoje revela um deslocamento evidente. O 8 de março nasceu de mulheres que enfrentaram exploração econômica, repressão política e mortes no ambiente de trabalho. Hoje, muitas vezes é reduzido a um gesto simbólico de reconhecimento.

A história, porém, permanece como lembrete. O Dia Internacional da Mulher foi criado para expor desigualdades que estruturavam sociedades inteiras. Mais de cem anos depois, os números mostram que muitas dessas desigualdades continuam presentes.

Flores podem marcar a data. Discursos podem suavizar o tom. Mas a realidade que deu origem ao 8 de março ainda não desapareceu.

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