Portelinhando Crônicas: Democracia à la Trump: manual de tutela

Portelinhando Crônicas:  Democracia à la Trump: manual de tutela
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 9 de março de 2026 3

Há algo de curioso na forma como certos impérios imaginam a democracia.

Donald Trump declarou que os Estados Unidos precisam se envolver na escolha do próximo líder do Irã. A frase veio com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo, mas carrega dentro de si uma ambição antiga: a ideia de que a história dos outros pode ser administrada à distância.

Como se o mundo fosse um tabuleiro privado de xadrez,
e os povos apenas peças pacientes aguardando o toque de uma mão estrangeira.

No Irã, um velho aiatolá desaparece entre diagnósticos médicos e explosões políticas. O filho, apontado por alguns como herdeiro possível, já nasce sob o carimbo de “inaceitável” antes mesmo que seu próprio país discuta a sucessão.

A sentença vem de longe.

Ela atravessa oceanos, atravessa discursos, atravessa décadas de política externa que insiste em vestir a palavra democracia com a roupa de uma missão universal.

A lógica é simples: se o governo agrada, chama-se aliado; se resiste, chama-se regime.

Democracia, nesse idioma peculiar, torna-se uma palavra elástica.
Serve para discursos sobre liberdade,
mas também para justificar sanções, embargos, operações militares e mudanças de regime.

Na Venezuela, o petróleo continua a escorrer lentamente entre os dedos da crise. Enquanto parte da população conta moedas, filas e apagões, os observadores internacionais contam outra coisa: barris, rotas comerciais, equações geopolíticas.

Em Cuba, a ilha segue suspensa entre duas forças igualmente antigas: o sonho revolucionário e o embargo americano. Décadas passam, presidentes mudam, slogans são reciclados — mas a promessa permanece a mesma: é preciso “libertar o povo cubano”.

Curiosamente, essa libertação quase sempre vem acompanhada de bloqueios econômicos que apertam primeiro o estômago do próprio povo que se diz salvar.

Há uma palavra que retorna em todos esses discursos com devoção quase religiosa: democracia.

Ela aparece em relatórios diplomáticos, conferências de imprensa, resoluções internacionais.

Mas chega a muitos países na forma de outra coisa:
sanção, pressão, ultimato.

É uma democracia com manual de instruções.

No rótulo principal lê-se: liberdade.
No rodapé, em letras pequenas: condicional.

É a democracia que escolhe por você.

Uma democracia que decide quem pode governar,
quem deve sair,
quem precisa ser “guiado”.

Uma democracia que lembra, em certos momentos, o gesto paternalista de um pai autoritário dizendo ao filho adulto:

“Confie em mim. Eu sei o que é melhor para você.”

O paradoxo é brutal.

Fala-se em liberdade de escolha enquanto se desenha, numa sala climatizada de alguma capital poderosa, o cardápio das opções aceitáveis.

Qualquer governo que não caiba na moldura vira imediatamente outra coisa:
ameaça,
tirania,
risco global.

Não importa se foi eleito ou imposto, apoiado ou rejeitado pelo próprio povo.

Importa apenas se acompanha ou não o compasso da potência que rege a orquestra.

Talvez o primeiro passo para compreender esse fenômeno seja nomeá-lo corretamente.

Não é missão civilizatória.
É ingerência.

Não é altruísmo.
É interesse vestido de sermão moral.

O segundo passo talvez seja mais difícil: aceitar que cada povo tem o direito — e às vezes o dever — de errar por conta própria.

De escolher mal.
De derrubar depois.
De transformar tiranos em memória histórica e governantes em servidores públicos.

Nenhuma democracia nasce pronta.

Nenhuma liberdade verdadeira chega em mísseis, decretos estrangeiros ou pacotes de sanções.

Meu prosema termina aqui, mas a contradição permanece.

Enquanto houver um país convencido de que pode escolher o destino de todos os outros, a palavra democracia continuará sob suspeita — como uma bandeira bonita tremulando sobre um território que não lhe pertence.

E ainda assim, em algum lugar de Teerã, de Caracas ou de Havana, alguém escreve em silêncio num caderno gasto:

“Nossa história é nossa.”

Talvez seja nesse gesto discreto, quase invisível, que começa a única eleição que realmente importa.

Porque nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente
está interessada em dominar os outros.

PORTINHA DO CRÔNICAS
João Portelinha da Silva

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