Alta global do carvão e do gás pressiona custos de energia e pode afetar tarifas no Brasil
A valorização do carvão mineral e do gás natural no mercado internacional voltou a gerar preocupação entre analistas do setor energético. A elevação no preço dessas duas commodities, que permanecem entre as principais fontes de geração elétrica no mundo, tem potencial para pressionar custos de energia, produção industrial e índices de inflação — inclusive no Brasil.
Nos últimos anos, eventos geopolíticos, mudanças na demanda global e a reorganização do mercado energético internacional têm provocado oscilações significativas no preço dessas fontes. Mesmo em países com forte participação de energias renováveis, como o Brasil, a alta pode produzir efeitos indiretos sobre o sistema elétrico e sobre o custo final da energia.
Combustíveis fósseis ainda dominam a geração mundial
Embora a transição energética esteja em curso, carvão e gás natural continuam ocupando papel central na matriz elétrica global. Segundo a International Energy Agency, o carvão ainda responde por aproximadamente 35% da geração mundial de eletricidade, sendo a principal fonte em países como China e Índia.
O gás natural aparece como a segunda maior fonte fóssil, responsável por cerca de 23% da eletricidade global. Usinas termelétricas movidas a gás são amplamente utilizadas por apresentarem flexibilidade operacional e capacidade de resposta rápida em períodos de maior demanda.
Nos últimos anos, o preço dessas commodities passou por picos históricos. Em 2022 e 2023, por exemplo, a crise energética europeia provocada pela redução do fornecimento de gás russo levou o valor do gás natural no mercado europeu a patamares inéditos.
Desde então, os preços têm oscilado, mas permanecem sensíveis a tensões geopolíticas e a alterações na oferta global.
Por que o Brasil também sente o impacto
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Dados da Empresa de Pesquisa Energéticaindicam que mais de 80% da eletricidade brasileira provém de fontes renováveis, com destaque para hidrelétricas, energia eólica e solar.
Mesmo assim, o sistema elétrico nacional depende de usinas termelétricas a gás e carvão como fonte complementar de geração, especialmente em períodos de seca ou quando a demanda aumenta.
Essas usinas entram em operação quando os reservatórios das hidrelétricas registram níveis baixos ou quando o consumo cresce além da capacidade das fontes renováveis disponíveis.
Como essas usinas utilizam combustíveis negociados no mercado internacional, qualquer aumento no preço do gás ou do carvão pode elevar o custo da geração elétrica no país.
O mecanismo das bandeiras tarifárias
No Brasil, o impacto dessas variações aparece frequentemente por meio do sistema de bandeiras tarifárias, administrado pela Agência Nacional de Energia Elétrica.
Criado em 2015, o sistema sinaliza ao consumidor o custo real da geração de energia no país. Quando há maior acionamento de usinas termelétricas, consideradas mais caras, podem ser aplicadas bandeiras tarifárias que adicionam valores extras à conta de luz.
Entre 2021 e 2022, durante uma das maiores crises hídricas da história recente, o Brasil chegou a adotar a chamada “bandeira de escassez hídrica”, que elevou significativamente o custo da energia elétrica.
Comparação de custos e impacto na economia
A diferença de custo entre as fontes energéticas ajuda a explicar a preocupação do mercado. Enquanto hidrelétricas apresentam custos médios de geração relativamente baixos após sua instalação, termelétricas dependem diretamente do preço do combustível.
Quando o valor do gás natural ou do carvão sobe no mercado internacional, a geração térmica torna-se mais cara, pressionando o custo total do sistema elétrico.
Esse efeito pode repercutir em diferentes setores da economia.
Indústrias de alta intensidade energética — como siderurgia, produção de cimento, mineração e fertilizantes — estão entre as mais sensíveis a variações no preço da eletricidade.
Além disso, aumentos no custo da energia tendem a se refletir nos preços de bens e serviços, influenciando indicadores de inflação.
Situação no Tocantins
No Tocantins, o preço da energia segue a mesma lógica regulatória aplicada em todo o país. As tarifas são definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica e incluem custos de geração, transmissão, distribuição e encargos setoriais.
O estado faz parte do Sistema Interligado Nacional, que conecta usinas de diferentes regiões do país. Isso significa que oscilações no custo da geração em outras áreas também podem influenciar o preço da energia consumida localmente.
Mesmo assim, especialistas apontam que a expansão de fontes renováveis no Brasil — especialmente energia eólica e solar — tem ajudado a reduzir a dependência de combustíveis fósseis e a amortecer parte dos impactos externos.
Transição energética e incertezas
A volatilidade nos preços do carvão e do gás ocorre em um momento de transformação estrutural no setor energético global. Diversos países têm anunciado metas para reduzir emissões de carbono e ampliar a participação de fontes renováveis.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a transição energética ainda conviverá por décadas com combustíveis fósseis.
Essa combinação de fatores — crescimento da demanda global por energia, transição energética gradual e instabilidade geopolítica — deve continuar influenciando os preços do carvão e do gás natural nos próximos anos.
Para economistas do setor, acompanhar essas oscilações tornou-se essencial para entender os custos da energia, a competitividade industrial e o comportamento da inflação em economias emergentes como a brasileira.