Kelismene da Silva Gomes vence com folga e se torna a primeira mulher a comandar o Sisepe-TO

Kelismene da Silva Gomes vence com folga e se torna a primeira mulher a comandar o Sisepe-TO
RicardoPor Ricardo 12 de março de 2026 6

Eleita para o mandato 2026-2030, servidora supera sozinha a soma dos votos dos dois adversários e assume em junho o comando do principal sindicato do funcionalismo estadual; vitória amplia pressão por pauta salarial, carreira, saúde do servidor e transparência interna

Palmas — A eleição do Sindicato dos Servidores Públicos no Estado do Tocantins, o Sisepe-TO, produziu nesta semana um resultado com peso político acima do rito sindical. A servidora Kelismene da Silva Gomes foi eleita a primeira mulher presidente da história da entidade, em uma disputa marcada por divisão interna, judicialização prévia e disputa entre nomes já instalados na cúpula do sindicato. No resultado definitivo publicado pela comissão eleitoral, a Chapa 2, liderada por Kelismene, obteve 706 votos, contra 365 da Chapa 1 e 314 da Chapa 3. A nova diretoria toma posse em 1º de junho.

O dado que deu dimensão política à vitória não foi apenas a maioria. Kelismene venceu sozinha com mais votos do que os dois adversários somados: 706 a 679. Em disputas sindicais, esse tipo de margem costuma ser lido como sinal de legitimidade forte para reorganizar a condução interna da entidade, redesenhar alianças e tentar impor nova agenda de negociação diante do governo estadual.

A presidente eleita não veio de fora da máquina sindical. Ao contrário. Kelismene já ocupava a Secretaria-Geral do Sisepe e, em 2025, apareceu oficialmente em várias agendas como presidente em exercício da entidade. Foi nessa condição que ela levou ao governo e a órgãos federais cobranças sobre concurso público, progressões, auxílio-alimentação e pagamento do Pasep. Também integra, como representante indicada pelo SISEPE, o Conselho Fiscal do FunSaúde/Servir, na vaga destinada a servidores inativos.

Essa combinação ajuda a explicar por que a eleição dela é histórica sem ser exatamente uma ruptura externa. Kelismene chega ao comando do sindicato com a marca simbólica de ser a primeira mulher a ocupar a presidência, mas também com trajetória já consolidada na estrutura representativa dos servidores. O que houve, portanto, foi menos uma tomada do sindicato por um grupo novo e mais uma reorganização do poder interno, com a base escolhendo uma liderança já conhecida para abrir um novo ciclo.

O tamanho da vitória

A eleição foi realizada em 6 de março. No resultado preliminar, divulgado no dia seguinte, Kelismene havia aparecido com 731 votos, equivalente a 51,52% dos 1.419 votos válidos. Naquela etapa, Marcos Roberto Santos tinha 369 votos e Elizeu Oliveira, então presidente do sindicato, 319. Depois da consolidação oficial, a comissão eleitoral publicou a ata definitiva com os números revisados: 706, 365 e 314 votos, respectivamente. O dado preliminar continua relevante para mostrar o tamanho da mobilização; o definitivo é o que vale para efeito formal e político.

A disputa mobilizou um eleitorado expressivo, mas distante do universo total de aptos a votar. Antes do pleito, a comissão eleitoral informava que mais de 4,1 mil filiados estavam habilitados a participar da escolha. Considerando os 1.419 votantes do resultado preliminar, a participação ficou na faixa de um terço do eleitorado apto, o que, por um lado, mostra espaço para ampliação da mobilização sindical e, por outro, reforça o peso de quem conseguiu ativar a base mais engajada.

Em Palmas, segundo a apuração preliminar, a vantagem foi decisiva. Kelismene recebeu 360 votos na capital, contra 191 de Elizeu e 162 de Marcos Roberto. O processo contou com urnas eletrônicas, urnas regulares e urnas de lona, além de votação na sede do sindicato, nas regionais e com urnas itinerantes.

Quem é Kelismene, no que já apareceu e o que se sabe dela

A informação pública mais consistente sobre Kelismene não está em biografia pessoal, mas em sua atuação institucional recente. Em outubro de 2025, ela foi a representante do Sisepe em reunião com o chefe de gabinete do então governador, cobrando novo concurso para o Quadro Geral, implementação dos 25%, isonomia nas progressões, ampliação do auxílio-alimentação e regulamentação de insalubridade e periculosidade. Naquele momento, ela assinava como secretária-geral e presidente em exercício.

No mesmo mês, Kelismene esteve na Superintendência Regional do Trabalho, em Palmas, para cobrar um novo cronograma de pagamento do abono do Pasep a servidores que, segundo o sindicato, ainda não haviam recebido ou haviam recebido parcialmente o benefício. Na ocasião, afirmou que o sindicato tratava do problema porque muitos servidores dependiam daquele recurso. A fala indica um perfil de atuação focado em demanda concreta e pressão administrativa, mais do que em discurso ideológico amplo.

No campo da saúde dos servidores, a presidente eleita também aparece ligada ao debate sobre o Servir/FunSaúde. Além de integrar o conselho fiscal do fundo de assistência, a plataforma da chapa dizia que uma eventual gestão dela buscaria ampliar a rede credenciada e melhorar o atendimento aos servidores e seus dependentes. Na previdência, a proposta apresentada defendia um Igeprev mais digital, com maior participação de servidores efetivos na direção.

O que não está público, até o momento, com a mesma clareza, é um perfil biográfico tradicional: formação, órgão de lotação, tempo de serviço, trajetória familiar ou profissional fora da vida sindical. Como isso não aparece de forma consolidada nas fontes públicas consultadas, a forma correta de “trazer tudo dela” é dizer com honestidade que o que está documentado hoje é sua trajetória sindical e representativa, e não uma biografia pessoal detalhada.

A campanha e as propostas

Quando registrou a candidatura, em fevereiro, Kelismene apresentou a Chapa 2 sob o nome “Compromisso com quem Faz o Tocantins Acontecer”. Na divulgação da campanha, ela associou a própria candidatura à ideia de liderança feminina com firmeza, diálogo e presença nos municípios. A frase usada por ela na largada da campanha foi: “Ser mulher na presidência do Sisepe é governar com responsabilidade e firmeza. Vamos unir cuidado, diálogo e coragem para defender cada servidor.”

As propostas públicas da chapa ficaram concentradas em alguns eixos. O primeiro foi a defesa do cumprimento das progressões sem atraso, com pagamento no mês em que o servidor cumprir os requisitos. O segundo foi a revisão do auxílio-alimentação, com correção periódica e ampliação da faixa salarial atendida. O terceiro envolveu a defesa de um plano permanente de capacitação, a ocupação de 50% das chefias por servidores efetivos e a padronização das progressões com intervalos de dois em dois anos. A plataforma também falava em barrar perda de direitos em eventual reforma administrativa, ampliar a cobertura do Servir e modernizar o Igeprev.

Essas bandeiras dialogam diretamente com a atuação que ela já vinha desempenhando antes da eleição. Nos ofícios e agendas de 2025, Kelismene já aparecia cobrando concurso, 25%, isonomia de progressões, extensão de benefícios e tratamento mais rápido para problemas que afetavam a base. Isso dá coerência à campanha: ela não precisou inventar uma pauta nova para disputar a presidência; apenas transformou em plataforma eleitoral temas que já estavam na mesa do sindicato.

A disputa interna foi dura

Um dos aspectos mais relevantes da eleição é que ela ocorreu no interior de uma crise interna do próprio sindicato. Em setembro de 2025, o então presidente Elizeu Oliveira foi afastado após uma reunião conturbada da diretoria executiva, marcada por confusão, empurrões e registros policiais. Com isso, Kelismene assumiu interinamente a presidência. Em dezembro, porém, a Justiça do Trabalho anulou o afastamento, reconduziu Elizeu ao comando da entidade e classificou o procedimento adotado como irregular.

Na esteira dessa crise, o processo eleitoral também foi sacudido. Em dezembro de 2025, uma portaria publicada após a volta de Elizeu cancelou a eleição que estava marcada para o dia 12 daquele mês, destituiu a comissão eleitoral nomeada no período em que Kelismene estava no exercício da presidência e criou uma nova comissão. O mandato da diretoria atual, segundo o sindicato, só se encerraria em 31 de maio de 2026, o que empurrou a disputa para março.

Ou seja, Kelismene não venceu uma disputa burocrática. Venceu um pleito precedido por crise de comando, embate interno, reconfiguração da comissão eleitoral e contestação jurídica. Isso ajuda a explicar por que a vitória tem peso político real no ambiente do funcionalismo estadual.

Os adversários e o que a vitória dela significou

A eleição reuniu três nomes da própria estrutura sindical. Kelismene era a secretária-geral. Marcos Roberto Santos, da Chapa 1, era apontado como diretor financeiro. E Elizeu Oliveira, da Chapa 3, era o presidente em exercício do mandato até maio. Na prática, a base escolheu um rearranjo interno: preferiu a dirigente que vinha atuando como ponte entre o sindicato e as pautas concretas do funcionalismo, e rejeitou tanto a continuidade de Elizeu quanto a alternativa representada por Marcos.

O próprio Elizeu, depois da publicação do resultado definitivo, reconheceu o resultado e parabenizou a comissão eleitoral e os vencedores. Também agradeceu aos sindicalizados que participaram do pleito e desejou boa gestão à nova chapa. Esse gesto ajuda a diminuir o risco de contestação imediata da legitimidade do processo, ainda que o ambiente interno continue politicamente tensionado.

O que Kelismene herda

Kelismene assume um sindicato criado em 5 de dezembro de 1991, com papel relevante na representação dos servidores estaduais e com uma base espalhada por diferentes regiões do Tocantins. A entidade se define oficialmente como defensora das categorias profissionais do funcionalismo estadual, pautada por democracia, independência, autonomia e transparência. O desafio da nova gestão será provar esses princípios em um momento em que a própria história recente do sindicato foi atravessada por conflito interno.

No plano concreto, ela herda pelo menos cinco frentes de pressão. A primeira é a política salarial, incluindo os 25% e passivos antigos. A segunda é a carreira, especialmente progressões e isonomia. A terceira é a reposição de quadros, com a cobrança por concurso para o Quadro Geral. A quarta é a saúde do servidor, com as críticas recorrentes ao Servir. A quinta é a credibilidade interna do próprio sindicato, que precisará reconstruir coesão depois de meses de conflito entre dirigentes.

O que ela disse após a vitória

No pós-eleição, a fala pública mais clara atribuída a Kelismene foi a de que a chapa está “pronta para trabalhar em busca de melhorias para os servidores” e que a campanha foi pautada pelo diálogo e pela apresentação de propostas para fortalecer o sindicato. Não é uma fala de confronto. É uma fala de transição e de sinalização à base de que a nova gestão tentará converter a vitória em agenda.

Esse tom importa. Como a disputa foi interna e envolveu o grupo dirigente, uma retórica de ruptura total poderia aprofundar a divisão. Ao optar por diálogo, Kelismene tenta entrar no mandato com maioria política sem incendiar ainda mais a estrutura que terá de comandar a partir de junho. Isso não elimina conflito futuro, mas reduz ruído na largada. Essa leitura é uma inferência a partir do resultado e do discurso público disponível.

O que muda no sindicalismo do Tocantins

A eleição de Kelismene importa por três razões. A primeira é simbólica: o principal sindicato dos servidores estaduais do Tocantins passa a ser presidido, pela primeira vez, por uma mulher. A segunda é organizativa: ela derrota duas correntes internas e ganha margem para redesenhar a direção da entidade. A terceira é prática: sua plataforma pública está ancorada em temas objetivos — progressão, carreira, benefício, saúde e previdência — e não apenas em slogans eleitorais.

O que ainda falta saber, e só a gestão vai responder, é se a vitória expressiva vai se traduzir em capacidade real de negociação com o governo e em pacificação interna do sindicato. Kelismene chega com legitimidade numérica. O desafio agora é transformar voto em resultado para a base.

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