Portelinhando Crônicas: A Política diminuída á escolha do vestuário

Portelinhando Crônicas: A Política diminuída á escolha do vestuário
João PortelinhaPor João Portelinha 12 de março de 2026 5

Na telinha da nação, é anunciado um novo líder, porém a câmera, indiscreta, foca de forma imprópria nos botões do paletó azul da primeira-dama. O povo aguarda ansiosamente por informações sobre as políticas do governo, a situação econômica, a insegurança alimentar, as escolas sem refeições; enquanto isso, o teleprompter, ostentoso, repete apenas “Valentino”, “crepe”, “Coração de Viana”.

É dessa maneira que o imaginário é conduzido: com finas agulhas douradas perfurando a camada da discussão pública, até que a política se torne pálida e somente a marca permaneça visível na notícia. Do lado oposto do Atlântico, o enredo se desenrola em uma repetição desgastada: ao invés de “primeira-dama”, mencionam “Janja de laranja” e “Michelle de tubinho preto”, como se o Brasil fosse apenas um espaço em um provador de loja.

Entre insultos, analisam as pregas do tailleur, ajustam a barra do vestido, avaliam o custo do tecido, mas não consideram a quantidade de desempregados, desabrigados e desanimados.

A direita caracteriza a esquerda como antiquada, enquanto a esquerda rotula a direita como sem graça. Ambas, em uníssono, revelam o mesmo defeito usual: monitorar os corpos femininos para evitar encarar a realidade do Estado. Nesse interim, elas seguem em frente – Margarida nas pedras frias de Lisboa, Janja na rampa rubra de Brasília, Michelle sob o luto simbólico de Londres – todas arrastando atrás de si, como uma cauda de vestido, a curiosidade invasiva de uma multidão que confunde cidadania com espectador.

A proposta de uma análise crítica da linguagem dos trajes se transforma em rumores disfarçados de análise, uma semiótica de títulos sensacionalistas: não investigam o que o azul revela sobre a visão de nação, mas apenas indagam o seu preço e se combina com a bolsa.

No final, a principal contradição é clara: escolhemos presidentes, mas prestamos atenção nas primeiras-damas; votamos em propostas de governo, mas discutimos.

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