Marcelo Martins fala com exclusividade ao Diário Tocantinense sobre relançamento de “Musa”, amor e o tempo da guerra

Marcelo Martins fala com exclusividade ao Diário Tocantinense sobre relançamento de “Musa”, amor e o tempo da guerra
Marcelo Martins reflete sobre sua trajetória, destacando composições marcantes e planos para um futuro brilhante na música sertaneja.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 17 de março de 2026 1

Cantor revisita um dos hits que marcaram a fase João Lucas & Marcelo e diz que nova versão com DJ Tardella chega em um momento em que a música também precisa falar de afeto, reconexão e paz

Marcelo Martins escolheu revisitar um dos títulos mais emblemáticos de sua trajetória para marcar a nova fase da carreira — mas, desta vez, o gesto vai além da memória musical. Em entrevista exclusiva ao Diário Tocantinense, o cantor afirmou que o relançamento de “Musa”, em parceria com o DJ Tardella, representa ao mesmo tempo um reencontro com a própria história e uma tentativa de reafirmar o papel da música em um tempo marcado por excesso de ruído, radicalização e conflitos pelo mundo.

A faixa chega às plataformas nesta sexta-feira, 20 de março, em uma releitura que mistura sertanejo, house e eletrônico, recuperando uma música que já ocupou lugar de destaque na trajetória de Marcelo ainda nos tempos da dupla João Lucas & Marcelo. Na versão original, “Musa” foi gravada com Dennis DJ, se consolidou como um dos destaques do verão de 2015 e ganhou um clipe gravado na Argentina, com estética inspirada no velho oeste. O registro oficial da música em 2015 aparece em plataformas como YouTube e Spotify, com a colaboração entre Dennis e João Lucas & Marcelo.

Agora, mais de uma década depois, Marcelo decide recolocar a faixa em circulação com uma nova proposta sonora — e com um novo contexto emocional.

“‘Musa’ é uma música que tem história pra mim. Ela me leva para uma fase muito importante da minha vida e da minha carreira. Quando a gente gravou lá atrás, ela já tinha uma energia diferente, já tinha uma força de pista, uma força de público. Eu sempre gostei muito dela, sempre achei um arranjo moderno, envolvente. Agora, com o DJ Tardella, ela volta com uma nova roupa, mais atual, mais conectada com o presente, mas sem perder a alma”, afirmou o cantor ao Diário Tocantinense.

A escolha de relançar justamente “Musa” não é casual. Em um mercado que passou a valorizar cada vez mais o próprio catálogo, a música aparece como um ativo raro: carrega memória afetiva, refrão reconhecível, histórico de circulação e espaço para uma atualização estética. Marcelo, no entanto, diz que o movimento não foi pensado apenas como estratégia de consumo.

Para ele, existe também um componente simbólico.

“Tem músicas que ficam no passado. E tem músicas que continuam falando com a gente. ‘Musa’ é uma dessas. Eu senti que ela ainda tinha muito a dizer, principalmente agora, porque a gente vive um tempo em que as pessoas querem sentir de novo, querem se conectar de novo. A música tem esse poder de fazer a gente lembrar, mas também de fazer a gente seguir”, disse.

De hit de verão a releitura eletrônica

Na fase João Lucas & Marcelo, “Musa” se encaixava em um momento em que a dupla transitava com força entre o sertanejo dançante e o universo das baladas, consolidando um repertório que dialogava com a pista, com o rádio e com a cultura pop daquele período. A parceria com Dennis DJ reforçava essa ponte entre gêneros e ajudava a consolidar a canção como uma faixa de forte apelo popular.

A nova versão, por sua vez, preserva a assinatura vocal de Marcelo, mas reorganiza a moldura sonora. A proposta agora é mais híbrida, mais eletrônica e mais conectada ao ambiente do streaming, dos vídeos curtos e da circulação multiplataforma.

“Eu gosto dessa mistura. A minha voz tem uma raiz sertaneja muito forte, isso nunca vai mudar. Mas eu sempre gostei de experimentar. E hoje o público também está mais aberto. Ninguém mais escuta música em caixinha. O sertanejo conversa com o eletrônico, com o pop, com a pista. E eu acho que ‘Musa’ volta exatamente no tempo certo para isso”, afirmou.

Surfnejo, “Cidade de Ouro” e “Reconectar”: a fase em que Marcelo amplia o discurso

O relançamento de “Musa” se soma a uma sequência recente de trabalhos que ajudam a explicar a fase atual do cantor. Entre eles, estão o remix de “Só de Lembrar dá Medo”, a faixa “Mulher Não Pede Desculpa” e o avanço do projeto Surfnejo, espaço em que Marcelo vem assumindo uma faceta mais autoral e menos dependente de fórmulas tradicionais do sertanejo.

É nesse projeto que aparecem duas músicas que, segundo o próprio artista, ajudam a definir o espírito dessa etapa: “Cidade de Ouro” e “Reconectar”.

Se “Cidade de Ouro” aponta para uma sonoridade mais aberta, leve e de transição, “Reconectar” ocupa um lugar mais profundo. E é justamente aí que Marcelo faz a ponte entre música e mundo.

“A música também precisa falar de amor quando o mundo está em guerra”

Ao falar sobre “Reconectar”, Marcelo Martins deixa claro que a canção não foi pensada apenas como mais uma faixa de catálogo. Em sua leitura, ela nasce como resposta ao tempo em que foi criada.

“A gente está vivendo um momento muito pesado no mundo. Tem guerra, tem ódio, tem muita divisão, muita agressividade. Parece que todo mundo está brigando o tempo inteiro, seja entre países, seja dentro das redes, seja dentro das próprias famílias. E eu acho que, justamente por isso, a música também precisa falar de amor. Ela precisa lembrar as pessoas de que ainda existe afeto, ainda existe encontro, ainda existe paz possível”, disse o cantor ao Diário Tocantinense.

A fala ajuda a explicar por que “Reconectar” ocupa um lugar central dentro do Surfnejo. Em vez de apenas buscar impacto imediato, a música trabalha uma camada menos óbvia: a tentativa de restaurar vínculos em um ambiente dominado por conflito.

“‘Reconectar’ fala exatamente disso: de voltar a sentir, de voltar a olhar para o outro com humanidade, de espalhar amor em vez de espalhar guerra. Parece simples, mas hoje isso virou quase um ato de resistência. Eu acredito muito que a arte tem essa missão também. Nem toda música precisa ser sobre dor ou sobre briga. Às vezes, a música precisa ser sobre cura”, afirmou.

Entre memória, pista e mensagem

A nova fase de Marcelo Martins, portanto, parece menos interessada em repetir o passado do que em reorganizá-lo. Ao revisitar “Musa”, ele recupera uma faixa associada a um ciclo forte da própria carreira, mas a insere em um ambiente estético e emocional diferente: mais contemporâneo na forma, mais amplo no discurso.

O que emerge dessa combinação é um artista que tenta equilibrar três frentes ao mesmo tempo:
memória afetiva,
apelo de pista,
e identidade autoral com mensagem.

Esse tripé aparece com clareza no relançamento de “Musa”, mas também se estende ao que Marcelo vem construindo com os trabalhos recentes e com o Surfnejo.

“Hoje eu não quero só lançar música. Eu quero que cada música diga alguma coisa sobre quem eu sou agora. Tem a parte da diversão, da pista, da energia, porque isso sempre fez parte de mim. Mas tem também a parte da consciência, do amor, da vontade de deixar alguma mensagem. Acho que essa é a minha fase mais verdadeira”,declarou.

Uma releitura que olha para trás sem ficar presa ao passado

Ao transformar “Musa” em ponte entre 2015 e 2026, Marcelo Martins entrega mais do que uma releitura. Ele oferece uma síntese da própria transição artística.

A música resgata um hit que já teve força de verão, estética marcante e presença no imaginário popular. Mas volta agora em um tempo em que a indústria exige mais do que refrão e memória: exige narrativa, coerência e posicionamento.

E é nesse ponto que o lançamento ganha densidade.

“Musa” chega como faixa de pista, sim. Como produto de streaming, também. Mas, dentro do discurso do artista, ela passa a funcionar como parte de algo maior: uma fase em que Marcelo tenta provar que a música pode continuar dançante sem ser vazia, popular sem ser descartável e afetiva sem abrir mão do presente.

Notícias relacionadas