Portelinhando Crônicas: A cadeira que ainda guarda a voz

Portelinhando Crônicas: A cadeira que ainda guarda a voz
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 17 de março de 2026 1

Há cadeiras que permanecem ocupadas mesmo depois que alguém parte.
Não pela presença do corpo, mas pelo peso delicado da memória.

A madeira continua silenciosa, a mesa continua à espera, e, no entanto, alguma coisa no ar insiste em dizer: alguém ainda está aqui.
Foi assim que pensei quando soube da partida de Iolete dos Santos Aguiar.

Algumas pessoas atravessam a vida escrevendo livros; outras transformam a própria vida em literatura. Iolete parecia pertencer a essa segunda categoria rara — aquela em que cada gesto tem a leveza de um verso e cada palavra nasce com o cuidado de quem sabe que a linguagem pode ferir, mas também pode curar.

Nos encontros da Academia Palmense de Letras do Tocantins, sua presença não fazia barulho.
Era como a claridade da manhã: chegava devagar, espalhava-se pela sala e, quando se percebia, já estava iluminando tudo.
Talvez por isso sua ausência agora seja tão estranha.

A cidade de Palmas continua com suas ruas abertas ao sol, seus ipês preparando novas flores, seus leitores abrindo livros. E, ainda assim, algo parece faltar — como quando uma frase termina cedo demais e o silêncio precisa completar o sentido.

Iolete escrevia com a delicadeza de quem conversa com o tempo.

Nas páginas, havia sempre memória, ternura e uma espécie de fidelidade ao que é simples: a infância, os afetos, as paisagens humanas que muitas vezes passam despercebidas.

Talvez seja esse o destino mais bonito de um escritor: continuar respirando dentro das palavras.
Porque os livros são uma forma de permanência.
E a literatura é uma maneira discreta de vencer o esquecimento.

Hoje, a cadeira onde ela costumava sentar talvez esteja vazia.

Mas a verdade é que certos lugares nunca ficam desertos.

Eles guardam ecos.
E enquanto houver alguém disposto a ouvir —
na leitura de um poema, no folhear de um livro, na memória tranquila de quem conviveu com ela — a voz de Iolete continuará passando pela sala como uma brisa suave.

Não para lembrar que alguém partiu.
Mas para lembrar que a palavra, quando é verdadeira, nunca parte completamente.

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