Busca por crédito cresce 14% no Brasil em 2025 e expõe aperto no orçamento das famílias
Levantamento da Serasa Experian mostra avanço da procura por empréstimos em todas as faixas de renda; entre quem recebe até um salário mínimo, alta chega a 19,5%
A busca por crédito entre os brasileiros avançou 14% em 2025, segundo dados do Indicador de Demanda dos Consumidores por Crédito, da Serasa Experian. O movimento ocorre em um cenário de juros elevados, inflação pressionando despesas essenciais e renda insuficiente para acompanhar o custo de vida, o que tem levado cada vez mais famílias a recorrerem a empréstimos para equilibrar o orçamento.
O crescimento supera o registrado em 2024, quando a procura por crédito havia subido 9,5% no acumulado anual. Desta vez, o avanço foi mais intenso entre as famílias de menor renda, justamente as mais impactadas pela alta dos gastos com alimentação, moradia, transporte e contas básicas.
De acordo com o levantamento, os consumidores com renda de até um salário mínimo lideraram a alta na demanda por crédito, com avanço de 19,5% em 2025. Na sequência aparecem os brasileiros com renda entre um e dois salários mínimos, que registraram crescimento de 19,4%.
Para o consultor financeiro e autor do livro Produtividade Financeira, Renan Diego, o aumento na procura por empréstimos revela um quadro de fragilidade financeira e dificuldade crescente para manter as contas em dia.
“A busca por crédito geralmente acontece quando a pessoa percebe que já não consegue arcar com despesas básicas, como supermercado, farmácia, aluguel, escola, água e luz. O empréstimo passa a ser visto como uma saída imediata, mas ele quita uma dívida pontual e não resolve a origem do problema”, afirma.
Segundo o especialista, a principal armadilha está no uso do crédito como solução recorrente para desequilíbrios estruturais do orçamento doméstico. Na prática, isso pode alimentar um ciclo de endividamento, no qual a família toma novos empréstimos sem corrigir a falta de planejamento financeiro.
“O dinheiro pode até aliviar a situação no curto prazo, mas, se a causa do endividamento não for enfrentada, a pessoa volta à mesma situação em pouco tempo. O que rompe esse ciclo é organização financeira, controle de gastos e revisão realista do padrão de consumo”, explica Renan.
Juros altos não frearam demanda
Outro dado que chama atenção no estudo é que a procura por crédito cresceu ao longo de todo o ano, em todas as regiões do país e em todas as faixas de renda, mesmo com a taxa básica de juros em patamar elevado.
A Selic está em 15% ao ano desde junho de 2025, o que, em tese, encarece financiamentos, empréstimos e outras modalidades de crédito. Em ciclos anteriores, esse cenário costumava frear a demanda. Foi o que ocorreu entre 2021 e 2022, quando a elevação da taxa até 13,75% reduziu a procura.
Em 2025, no entanto, o comportamento mudou. Para a Serasa Experian, isso indica uma alteração no perfil da demanda: em vez de buscar crédito para consumo ou expansão patrimonial, parte crescente da população passou a recorrer a empréstimos como forma de reorganizar as finanças diante do enfraquecimento da economia e da pressão sobre o orçamento familiar.
Na avaliação de Renan Diego, o cenário mostra que o crédito deixou de ser, em muitos casos, uma ferramenta de planejamento e passou a funcionar como mecanismo de sobrevivência financeira.
“Há um aperto real nas finanças das famílias. Os juros altos também pesam no custo de vida, enquanto a renda mensal não acompanha esse aumento de despesas. Isso faz com que muita gente recorra ao crédito não por escolha, mas por necessidade”, pontua.
Especialista recomenda cortar gastos e evitar novas dívidas
Diante desse cenário, o consultor afirma que a principal recomendação é evitar assumir novas dívidas enquanto o orçamento estiver comprometido. A orientação é revisar todas as despesas mensais, identificar gastos não essenciais e redirecionar recursos para despesas prioritárias.
Entre as medidas apontadas por ele estão:
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evitar novas parcelas e financiamentos;
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revisar gastos recorrentes que podem ser reduzidos;
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reorganizar o orçamento com foco em despesas essenciais;
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buscar educação financeira antes de contratar novas linhas de crédito.
Para o especialista, o crédito pode até ter função estratégica em determinadas situações, mas o uso recorrente sem controle tende a ampliar o problema no médio prazo.
Quem é Renan Diego
Renan Diego atua há 10 anos como consultor financeiro e é especialista em finanças pessoais e investimentos. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ele possui MBA em Value Investing e certificação CEA.
À frente da edtech Produtividade Financeira, o profissional afirma já ter orientado mais de 9.500 brasileiros em temas ligados à organização financeira, investimentos e qualidade de vida. Nas redes sociais, soma mais de 508 mil seguidores no Instagram, onde publica conteúdos sobre planejamento financeiro e educação para quem deseja começar a investir.