Projeto do streaming no Senado amplia atrito entre Brasil e EUA e transforma regulação cultural em tema diplomático

Projeto do streaming no Senado amplia atrito entre Brasil e EUA e transforma regulação cultural em tema diplomático
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 18 de março de 2026 2

Em análise no Congresso, PL 2331/2022 deixou de ser apenas um debate sobre audiovisual e passou a envolver tributação, soberania regulatória e pressão externa sobre o mercado digital brasileiro

O debate sobre a regulação dos serviços de streaming no Brasil entrou em uma nova fase. O que até recentemente era tratado como uma discussão sobre financiamento do audiovisual nacional, cotas de conteúdo brasileiro e regras de mercado passou a incorporar um componente externo mais sensível: a possibilidade de reação dos Estados Unidos a uma legislação que pode afetar diretamente plataformas digitais controladas por empresas americanas.

Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, o governo de Donald Trump monitora o avanço do chamado PL do Streaming no Senado brasileiro e avalia possíveis respostas caso o texto avance. De acordo com a apuração, a Casa Branca acompanha o projeto com preocupação por entender que ele pode atingir grandes plataformas sediadas nos EUA, em um momento de maior sensibilidade nas relações bilaterais.

No Brasil, o projeto em questão é o PL 2331/2022, que voltou ao Senado após modificações feitas pela Câmara dos Deputados. O texto, em sua forma atual, trata da regulamentação dos serviços de streaming audiovisual e estabelece regras para contribuição financeira ao setor, mecanismos de incentivo à produção nacional e exigências graduais de presença de conteúdo brasileiro nos catálogos.

O resultado é um embate que já não pode ser lido apenas como disputa entre plataformas e produtores locais. O centro da discussão agora envolve regulação de plataformas globais, autonomia legislativa do Brasil, interesses comerciais americanos e o papel do Estado na economia digital.

O que é o PL do Streaming

O PL 2331/2022 nasceu no Senado e, em sua versão original, buscava regulamentar a oferta de vídeo sob demanda (VoD) no mercado brasileiro, criando uma nova modalidade de Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine). O objetivo era submeter as plataformas de streaming a uma lógica regulatória mais próxima da já aplicada a outros segmentos do audiovisual.

Após tramitar no Senado, o projeto foi enviado à Câmara, onde recebeu mudanças. O texto retornou ao Senado em 2025 como substitutivo da Câmara, com escopo ampliado: passou a tratar dos “serviços de streaming audiovisual”, alterando dispositivos da MP 2.228-1/2001 e das leis 11.437/2006 e 12.485/2011. No sistema oficial do Senado, a matéria aparece em tramitação, aguardando despacho após o retorno da Câmara.

Em janeiro deste ano, o próprio Senado informou que a proposta poderia voltar à pauta após o recesso, destacando que o projeto se tornou um dos temas mais sensíveis do setor por envolver interesses divergentes entre plataformas, produtores independentes, distribuidores, exibidores e parlamentares.

O que o texto prevê hoje

Embora o conteúdo final ainda dependa de deliberação política e possa sofrer novas alterações, o desenho que vem sendo discutido publicamente inclui três eixos centrais:

1. Contribuição financeira ao audiovisual

O projeto prevê a incidência de uma contribuição sobre a receita das plataformas de streaming, vinculada à Condecine, tributo cuja arrecadação é destinada ao fomento do setor audiovisual brasileiro. Em fases anteriores da tramitação, a proposta foi apresentada como forma de integrar as plataformas ao sistema de financiamento já existente para cinema e TV por assinatura.

2. Estímulo à produção nacional

O Senado informou, em janeiro, que o texto estabelece cotas progressivas de conteúdo brasileiro nos catálogos. Segundo a explicação oficial, o percentual começaria em 2% após um ano da publicação da norma, crescendo 1,6 ponto percentual por ano até atingir 10% no sétimo ano.

3. Regras de isonomia e visibilidade

O texto também discute critérios para dar tratamento igualitário à oferta de serviços e conteúdo brasileiros e estrangeiros em dispositivos como smart TVs, tema que dialoga com a visibilidade algorítmica e a posição de destaque das plataformas no ambiente doméstico digital.

Esses elementos colocam o PL em uma zona híbrida: ele não é apenas um projeto tributário, nem apenas uma política cultural. É uma tentativa de regular um mercado digital globalizado a partir de instrumentos nacionais de fomento e obrigação de catálogo.

Por que o governo Trump entrou no radar

A razão principal é estrutural: as maiores plataformas afetadas pela legislação — como Netflix, Disney+, Amazon Prime Video e outras gigantes do streaming — são, em grande parte, empresas americanas ou controladas por capital americano. Qualquer mudança regulatória que imponha tributo, cota de catálogo ou exigência de investimento local passa a ser observada em Washington como potencial barreira regulatória ou custo adicional para companhias estratégicas dos EUA.

Segundo o Metrópoles, a Casa Branca avalia respostas caso o projeto avance, e o caso passou a ser lido em um contexto de tensão bilateral mais amplo. A reportagem cita que o ambiente piorou após episódios recentes envolvendo interlocutores ligados ao trumpismo, o que teria elevado a sensibilidade política do tema.

A hipótese de uso da chamada Section 301 da legislação comercial americana — instrumento utilizado pelos EUA para investigar práticas comerciais consideradas discriminatórias ou injustas contra empresas americanas — foi mencionada na repercussão da apuração. Até aqui, porém, não há anúncio oficial de abertura de procedimento público, e o que existe é um cenário de monitoramento e discussão interna, não de medida formal adotada.

Essa distinção é importante: há sinalização política e diplomática, mas não há, até o momento, sanção, investigação formal ou retaliação aberta dos EUA.

O projeto já vinha sendo alvo de pressão externa antes do governo Trump

O monitoramento atribuído ao governo Trump não surge no vazio. Em fevereiro, a Agência Pública publicou reportagem informando que a Embaixada dos Estados Unidos atuou junto a senadores brasileiros em meio ao debate sobre o projeto, em uma articulação que, segundo a reportagem, ocorreu sob pressão de grandes empresas de tecnologia e streaming. O texto afirma que emissários americanos procuraram interlocutores do Congresso e que houve reação de parlamentares à tentativa de influência externa sobre a tramitação.

Esse dado amplia a leitura do caso: o PL do Streaming já havia ultrapassado a esfera puramente doméstica antes mesmo de a Casa Branca, segundo a nova apuração, passar a monitorá-lo diretamente.

Ou seja, o tema se transformou em um ponto de contato entre:

  • interesse industrial americano,

  • política cultural brasileira,

  • lobby transnacional de plataformas,

  • e disputa sobre soberania regulatória.

O argumento brasileiro: não é censura, é política pública

Do lado brasileiro, a defesa do projeto parte de uma lógica já consolidada em vários mercados: se plataformas globais lucram no país, devem contribuir para a cadeia local de produção e distribuição audiovisual.

O Senado tem sustentado essa leitura em sua comunicação oficial. Em janeiro, ao anunciar a retomada da discussão, a Casa afirmou que o objetivo é fazer com que plataformas como Netflix, Disney+ e YouTube contribuam com a produção audiovisual brasileira e com a divulgação da diversidade cultural nacional, “como acontece em outras partes do mundo”.

Em dezembro de 2025, o governo federal também publicou posicionamento oficial defendendo a regulamentação e citando como ponto central a alíquota unificada de 3% para a Condecine-streaming, apresentada como forma de assegurar previsibilidade regulatória, isonomia entre agentes econômicos e reforço ao Fundo Setorial do Audiovisual.

Essa defesa se ancora em um argumento comparativo: vários países europeus já exigem de plataformas estrangeiras algum tipo de investimento local, cota de catálogo ou contribuição financeira ao setor audiovisual. Assim, para os defensores do projeto, o Brasil não estaria inventando uma excepcionalidade, mas tentando corrigir uma assimetria de mercado.

O argumento contrário: custo, insegurança e possível barreira regulatória

As críticas ao projeto se concentram em três frentes.

1. Risco de aumento de custos

Empresas e setores alinhados às plataformas argumentam que novas contribuições ou obrigações regulatórias podem ser repassadas ao consumidor, elevando o custo das assinaturas.

2. Complexidade regulatória

Há preocupação com a sobreposição entre regras tributárias, exigências de catálogo, incentivos à produção e critérios de elegibilidade para obras nacionais, o que poderia gerar insegurança jurídica e contencioso regulatório.

3. Percepção externa de discriminação

Nos EUA, o tema tende a ser enquadrado não como política cultural, mas como possível medida que onera desproporcionalmente plataformas estrangeiras — especialmente se a maior parte das empresas afetadas estiver fora do Brasil.

Esse é o ponto que faz o caso ganhar temperatura diplomática: uma medida que o Brasil apresenta como regulação cultural e de mercado pode ser lida por Washington como barreira comercial indireta contra empresas americanas.

O que está em jogo para o Brasil

Mais do que o destino de um projeto específico, o caso abre uma discussão mais ampla sobre o poder regulatório do país diante de plataformas globais.

Se o Senado avançar com o texto, o Brasil estará afirmando ao menos três princípios:

  • que o mercado digital não deve ficar fora da lógica de contribuição setorial;

  • que conteúdo nacional pode ser objeto de política pública em ambiente de streaming;

  • e que plataformas globais devem operar sob regras locais quando exploram um mercado nacional de massa.

Se recuar sob pressão externa, a mensagem também será clara: a margem de manobra regulatória brasileira sobre empresas digitais globais continua condicionada à reação de governos e corporações estrangeiras.

É por isso que o PL do Streaming passou a ser observado não apenas por produtores, plataformas e parlamentares, mas por diplomatas, investidores e analistas de comércio internacional.

O que ainda não se sabe

Apesar do aumento da temperatura política, há pontos ainda em aberto:

  • não há, até agora, anúncio oficial de retaliação americana;

  • não há definição final do texto no Senado;

  • não está claro se a alíquota final e as cotas permanecerão exatamente como vêm sendo descritas nas comunicações públicas;

  • e não há calendário definitivo de votação consolidado no plenário.

O projeto segue em tramitação, e a própria natureza do debate sugere que novas negociações podem alterar pontos centrais antes de qualquer deliberação final. O que já está claro, no entanto, é que o tema deixou de ser setorial.

O PL do Streaming se tornou um teste para três agendas simultâneas:
a capacidade do Brasil de regular plataformas globais, a disposição dos EUA de reagir quando suas empresas são afetadas e o limite entre política cultural e disputa comercial na era digital.

O PL 2331/2022 entrou em uma zona de alta sensibilidade. O projeto, que começou como uma proposta de reorganização do financiamento audiovisual e de estímulo ao conteúdo brasileiro, agora opera em um terreno mais amplo: o da soberania regulatória em um mercado dominado por empresas transnacionais.

O Brasil discute se streaming é apenas serviço digital ou também infraestrutura cultural.
Os Estados Unidos observam se essa regulação é política pública legítima ou um custo direcionado a suas empresas.

Entre esses dois enquadramentos, o Senado brasileiro terá de decidir não apenas sobre um setor econômico, mas sobre o grau de autonomia que o país está disposto a exercer diante das grandes plataformas e de seus governos de origem.

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