Mais de 2,1 milhões de raios já atingiram o Tocantins em 2026 e acendem alerta na rede elétrica

Mais de 2,1 milhões de raios já atingiram o Tocantins em 2026 e acendem alerta na rede elétrica
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 20 de março de 2026 2

O Tocantins atravessa o início de 2026 sob um cenário de forte pressão climática e elétrica. Dados repassados pela Energisa Tocantins à reportagem mostram que, entre 1º de janeiro e 20 de março de 2026, o estado já registrou 2.171.663 descargas atmosféricas, um volume que confirma a intensificação das tempestades no período mais chuvoso do ano e acende um alerta não apenas para a população, mas também para a operação da rede de distribuição de energia.

No recorte informado pela concessionária para o ano passado, entre 1º de janeiro e 15 de março de 2025, haviam sido registradas 1.614.978 descargas atmosféricas. Embora os intervalos não sejam rigorosamente idênticos, o dado já mostra que 2026 supera com folga o patamar parcial do ano anterior, indicando um começo de ano de maior pressão meteorológica e operacional sobre o sistema elétrico no estado.

A leitura mais correta desse número não é apenas a de um fenômeno climático impressionante. O dado revela uma condição concreta de risco em um estado que, nas últimas semanas, tem convivido com sucessivos alertas de chuvas intensas, ventos fortes e possibilidade de descargas elétricas. Em períodos de maior instabilidade, o impacto vai além do desconforto provocado pelos temporais: ele atinge diretamente a infraestrutura, a mobilidade urbana, a atividade no campo e a continuidade de serviços essenciais.

Na prática, a elevação do número de raios tem impacto direto sobre o fornecimento de energia porque a rede de distribuição, em sua maior parte, é aérea e permanece exposta aos efeitos de temporais. Nem sempre a interrupção ocorre porque um raio atinge diretamente um poste ou cabo. Muitas vezes, a descarga cai nas proximidades, provoca sobretensão, aciona dispositivos de proteção ou desencadeia outros efeitos secundários, como queda de galhos, arremesso de objetos, rompimento de componentes e desligamentos automáticos para preservar trechos da rede.

Em períodos de chuva intensa, o sistema elétrico passa a operar sob um nível maior de estresse, especialmente em áreas urbanas arborizadas, zonas rurais com longos alimentadores e trechos onde a rede fica mais suscetível à ação simultânea de vento, umidade e vegetação. Em um estado de grande extensão territorial e forte presença agropecuária como o Tocantins, esse tipo de vulnerabilidade tende a se espalhar por regiões inteiras, exigindo resposta rápida e capacidade de monitoramento contínuo.

Para acompanhar esse cenário, a Energisa mantém um Centro de Operações Integrado (COI) em Palmas, de onde monitora a operação da rede no estado. O acompanhamento climático utilizado pela distribuidora é realizado pelo Grupo Storm, empresa que presta consultoria à Energisa. Segundo a apuração da reportagem, esse monitoramento é feito a partir da base técnica da consultoria e compartilhado com as empresas do grupo, permitindo suporte às operações em períodos de instabilidade meteorológica.

A concessionária afirma que mantém um plano anual de manutenção preventiva justamente para reduzir os impactos provocados por eventos climáticos severos. Segundo a empresa, as ações incluem inspeção de estruturas, manejo de vegetação, podas técnicas e capacitação permanente das equipes.

O gerente de operações da Energisa Tocantins, Mauro Inácio dos Santos, afirma que o objetivo é preparar a rede para suportar eventos extremos ao longo de todo o ano. “Para garantir que o fornecimento seja contínuo, seguro e suporte as condições severas do tempo, seguimos um rigoroso plano de manutenção ao longo de todo o ano, com equipes treinadas e práticas permanentes de prevenção”, disse.

A empresa também informa que, em períodos de tempestade, aciona um plano de contingência específico para reforçar a resposta operacional, com mobilização logística, suporte de tecnologia da informação, ampliação de equipes e, quando necessário, uso de grupos geradores para preservar atendimentos essenciais.

Mauro Inácio destaca que o plano de contingência funciona como uma força-tarefa ampliada, envolvendo áreas operacionais e administrativas para acelerar a reação diante de eventos extremos. “Nosso plano de contingência é uma força-tarefa que amplia o esforço operacional e administrativo, incluindo reforço logístico, suporte de TI, equipes adicionais e até a disponibilização de grupos geradores quando necessário”, detalhou.

A fala ajuda a revelar um aspecto pouco visível para o consumidor. Em episódios de chuva forte, a resposta da concessionária não depende apenas de equipes em campo. Ela exige coordenação entre despacho técnico, comunicação, logística, monitoramento remoto e, em alguns casos, reforço emergencial para garantir atendimento a serviços considerados prioritários.

O aumento das descargas atmosféricas ocorre em um momento em que a própria distribuidora afirma estar ampliando o volume de investimentos no estado. Em 2026, a Energisa Tocantins anunciou aproximadamente R$ 700 milhões em aportes para fortalecer a infraestrutura elétrica e ampliar a qualidade do fornecimento aos mais de 700 mil clientesatendidos nos 139 municípios tocantinenses.

Segundo a companhia, mais de 50% desse montante será destinado à instalação de novas cargas, beneficiando áreas urbanas e rurais. Entre as obras citadas estão a Linha de Distribuição de Alta Tensão Colinas–Nova Olinda, as subestações Talismã e Nova Olinda, além da Subestação Pedro Afonso Industrial e ampliações em outras unidades.

O dado é importante porque, do ponto de vista estrutural, o avanço no número de raios não significa automaticamente que a rede esteja pior. O que ele mostra, antes, é que o sistema está sendo submetido a um ambiente climático mais agressivo, o que exige maior robustez, automação, redundância e capacidade de resposta.

O recorte municipal ajuda a dimensionar onde essa pressão climática tem sido mais intensa. Segundo dados repassados pela Energisa à reportagem, considerando apenas o acumulado de 2026 até o momento da apuração, as três cidades que registraram maior quantidade de descargas atmosféricas no Tocantins foram Formoso do Araguaia, com 84.537 raios; Pium, com 81.082; e Ponte Alta do Tocantins, com 74.233.

No comparativo com dois dos principais centros urbanos do estado, os números aparecem em outro patamar. Palmas registrou 11.180 descargas atmosféricas, enquanto Colinas do Tocantins somou 5.681 no mesmo período.

O contraste chama atenção porque mostra que a maior incidência de raios não se concentrou, necessariamente, nas cidades mais populosas ou nos maiores polos administrativos. Isso indica que a distribuição das descargas atmosféricas responde mais à dinâmica meteorológica regional, à extensão territorial, à formação de tempestades convectivas e às características geográficas de cada área do que, propriamente, ao porte urbano do município.

Do ponto de vista operacional, isso significa que a pressão sobre a rede elétrica pode ser intensa também fora dos maiores centros, especialmente em regiões rurais, áreas abertas e municípios com maior exposição a temporais típicos do período chuvoso. Em estados como o Tocantins, onde o campo tem peso decisivo na economia e onde longos alimentadores cruzam áreas extensas, um evento climático severo pode representar impacto relevante para a população urbana e para a produção.

Enquanto isso, a orientação técnica da distribuidora em períodos de tempestade permanece centrada na segurança. A Energisa orienta que a população não se abrigue debaixo de árvores, evite rios, lagos e piscinas durante chuvas com trovoadas, procure abrigo em locais seguros como casas ou veículos com portas e vidros fechados, não use chuveiro elétrico durante tempestades, mantenha eletrodomésticos desligados da tomada, não utilize celular enquanto estiver carregando, não toque em fios caídos e evite estruturas metálicas, cercas, alambrados, tendas e barracas, que podem se soltar ou se tornar condutores em situações de risco.

Em ocorrências envolvendo energia elétrica, os consumidores podem acionar os canais oficiais da concessionária pelo 0800 721 3330, pelo aplicativo Energisa On, pela agência digital no site da empresa ou via WhatsApp, por meio da assistente virtual Gisa.

O dado central desta pauta, portanto, vai além do impacto visual de mais de 2,1 milhões de raios. O que ele mostra, de forma concreta, é que o Tocantins vive um início de ano em que o clima deixou de ser apenas um pano de fundo da estação chuvosa e passou a ser um fator direto de pressão sobre infraestrutura, mobilidade, segurança e continuidade de serviços essenciais.

Quando o número de descargas atmosféricas ultrapassa a marca de dois milhões antes mesmo do fim do primeiro trimestre, o estado entra em um patamar de atenção que interessa não só à meteorologia, mas também ao setor elétrico, ao agronegócio, às prefeituras, à Defesa Civil e ao consumidor comum.

Em 2026, no Tocantins, o céu deixou de ser apenas cenário de chuva. Virou variável crítica de operação.

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