Figurões do Banco Master, Pleno e Will Bank entraram 73 vezes no BC, e cerco ganha novo peso

Figurões do Banco Master, Pleno e Will Bank entraram 73 vezes no BC, e cerco ganha novo peso
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 23 de março de 2026 2

Levantamento mostra que oito sócios, executivos e ex-administradores ligados às três instituições registraram ao menos 73 entradas no Banco Central entre 2020 e 2025; aumento das agendas, sobretudo a partir de 2024, amplia pressão sobre o caso Master em meio a investigação, crise institucional e guerra de bastidor

O escândalo que envolve o Banco Master ganhou neste domingo, 22, um novo capítulo com potencial de ampliar a pressão política e institucional sobre o caso. Levantamento publicado pela coluna de Tácio Lorran, no Metrópoles, mostra que oito sócios, executivos e ex-administradores do Banco Master, do Banco Pleno e do Will Bank somaram ao menos 73 entradas no Banco Central entre janeiro de 2020 e outubro de 2025, em um período que coincide com o avanço de suspeitas de fraudes financeiras, irregularidades contábeis e articulações de bastidor em torno do grupo.

O dado, por si só, não comprova ilegalidade. Executivos de instituições financeiras podem, em tese, manter interlocução com a autoridade monetária. O problema está no volume, no timing, na repetição dos mesmos personagens e no fato de que parte dessas agendas se intensificou justamente quando o caso Master deixou de ser um ruído de mercado e passou a ser tratado como uma crise com dimensão criminal, regulatória e política.

É isso que transforma as 73 entradas em munição.

Daniel Vorcaro lidera o ranking e vira centro da nova pressão

No centro da radiografia está Daniel Vorcaro, nome mais associado ao Banco Master e hoje peça central do escândalo. Segundo o levantamento, ele lidera com 31 registros de entrada, quase 40% do total identificado. Mais do que isso: as visitas, antes esporádicas, se intensificaram a partir de fevereiro de 2024, exatamente no período em que o caso passou a ganhar outra dimensão e as investigações começaram a avançar. Desde então, Vorcaro teria acumulado 23 entradas no BC. Em 2025, segundo a apuração, as idas passaram a ocorrer com frequência quinzenal e até semanal.

Esse é o dado mais politicamente explosivo.

Porque o que chama atenção não é apenas que o principal nome do Master esteve no Banco Central. É que ele passou a circular mais na autoridade monetária quando o cerco já apertava, e não antes. Em crise financeira, esse detalhe pesa. Em escândalo com desdobramento policial, pesa ainda mais.

A última entrada registrada de um dos figurões citados ocorreu em 1º de outubro de 2025, justamente com Vorcaro, pouco mais de um mês antes da primeira prisão dele. A reunião foi no gabinete do então chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), Belline Santana, que se tornou alvo da Polícia Federal por suspeita de ter prestado consultoria informal ao banqueiro.

Quem são os personagens que orbitam o caso

A reportagem do Metrópoles aponta um grupo de oito nomes entre sócios, executivos e ex-administradores ligados ao Master, ao Pleno e ao Will Bank. A leitura política da pauta melhora quando o leitor entende quem são esses personagens.

O primeiro é Daniel Vorcaro, principal rosto do Banco Master e figura que concentra o maior número de agendas. O segundo é Augusto Lima, dono do Banco Pleno e ex-sócio do Master, apontado como um dos interlocutores mais frequentes no circuito das reuniões. Os dois teriam ido juntos ao BC em pelo menos oito ocasiões entre outubro de 2024 e agosto de 2025. Dessas, três contaram com a participação do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o tema registrado nas agendas foi “assuntos institucionais”, uma expressão genérica que passou a chamar atenção justamente por dizer pouco em um caso de alto impacto.

Outro núcleo importante envolve o Will Bank. Segundo reproduções da apuração, Walter Piana, um dos fundadores do banco digital, teria registrado 10 passagens pelo BC. Seu irmão e sócio, Giovanni Piana, aparece entre os nomes com circulação recorrente. Em várias ocasiões, os irmãos teriam participado de agendas em conjunto com Felipe Felix Soares de Sousa, ex-diretor do Will Bank, especialmente entre 2020 e 2024. A leitura que emerge desse conjunto é a de que havia um eixo operacional em São Paulo e um eixo político-regulatório em Brasília.

Há ainda o núcleo de ex-administradores do Master que passa a chamar atenção mais tarde, em São Paulo. Entre eles aparecem Maurício Antonio Quadrado e Reinaldo Hossepian Salles Lima, além do ex-controlador Roberto Musto em uma das agendas. Quadrado já tinha histórico sensível: segundo a própria reportagem, o BC vetou sua tentativa de compra do Letsbank, outra instituição que depois também acabaria liquidada.

Por que essas agendas chamam atenção agora

A pergunta central da pauta é simples: por que essas visitas viraram problema agora?

Porque elas passaram a ser lidas não como rotina regulatória, mas como padrão de aproximação em meio a um caso que já estava sob suspeita.

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025. Depois, também atingiu o Will Bank, em janeiro de 2026, em um contexto de suspeitas de fraudes financeiras e contábeis. A crise já extrapolou o universo bancário e passou a contaminar Brasília. Em março de 2026, a investigação ligada ao caso Master já afetava inclusive o ritmo de nomeações para a diretoria do BC: a Reuters informou que fontes em Brasília apontavam que as vagas abertas no Copom poderiam seguir sem preenchimento enquanto o ambiente político e institucional permanecesse contaminado pela apuração envolvendo o banco.

Ou seja: o escândalo já saiu do terreno técnico.

Ele já atinge mercado, Banco Central, Planalto, Senado e Supremo.

É por isso que o dado das 73 entradas cresce tanto em relevância. Em outro contexto, seria apenas uma curiosidade de agenda. No contexto atual, ele passa a ser lido como mapa de influência, rastro de interlocução e indício de proximidade em um caso que já virou crise sistêmica.

O que a expressão “assuntos institucionais” esconde no debate público

Um dos pontos mais sensíveis da reportagem é o uso reiterado da expressão “assuntos institucionais” nas agendas.

Formalmente, a classificação é comum. Politicamente, ela virou problema.

Quando uma crise bancária atinge esse nível e envolve instituições depois liquidadas, reuniões frequentes com o regulador sob uma rubrica genérica deixam de parecer apenas burocracia. Passam a levantar a pergunta que domina o bastidor: o que exatamente estava sendo tratado?

Não se trata, neste momento, de afirmar irregularidade automática nas reuniões. Mas o ambiente político já não funciona pela lógica do “pode ser normal”. Funciona pela lógica do “por que era tão frequente, com quem, quando e para quê?”.

É isso que transforma um termo burocrático em ativo de desgaste.

O caso Master já contamina o coração de Brasília

O escândalo do Banco Master não é mais um tema restrito ao sistema financeiro. Ele já entrou no centro da política nacional.

Além da investigação da Polícia Federal e dos desdobramentos judiciais, o caso passou a travar discussões sobre nomeações no BC e alimentar disputas entre governo, Senado e mercado. A Reuters relatou, na semana passada, que a investigação em torno do Master se tornou um dos fatores que ajudam a explicar o atraso nas indicações para duas cadeiras abertas no Copom, em um momento em que o Banco Central opera com vacâncias e em meio a tensão política com o Congresso.

Isso muda a natureza da pauta.

Agora, as 73 entradas não são apenas um número. São uma peça de um quebra-cabeça maior, em que banco sob suspeita, autoridade reguladora, servidores investigados, nomeações travadas e articulação política em Brasília começam a aparecer no mesmo mapa.

O cerco ganha novo peso porque a crise já não é só financeira

No fim, o novo levantamento tem força porque adiciona camada institucional a um escândalo que já era grave.

O caso Master começou como suspeita de fraude financeira. Virou operação policial. Depois, virou crise regulatória. Agora, com a revelação do trânsito intenso de executivos e ex-executivos no Banco Central, passa a ganhar também contorno de pressão política sobre o regulador e de guerra de narrativa sobre influência e acesso.

É esse o ponto.

O problema já não é apenas o que aconteceu dentro dos bancos.
O problema, agora, é quem circulava no coração do sistema enquanto o caso crescia.

E, em Brasília, esse tipo de pergunta costuma valer mais do que a resposta imediata.

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