Zema renuncia ao governo de Minas, mira o Planalto e entrega comando a tocantinense de Gurupi

Zema renuncia ao governo de Minas, mira o Planalto e entrega comando a tocantinense de Gurupi
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 23 de março de 2026 5

Romeu Zema deixou o cargo neste domingo, 22, para entrar de vez na disputa presidencial de 2026; vice Mateus Simões, nascido em Gurupi, no Tocantins, assume o comando de Minas até dezembro

A sucessão em Minas Gerais ganhou um componente nacional e um gancho direto para o Tocantins neste domingo, 22. O governador Romeu Zema (Novo) renunciou oficialmente ao cargo para se dedicar à pré-campanha ao Palácio do Planalto, e o vice-governador Mateus Simões (PSD), nascido em Gurupi (TO), foi empossado como novo governador de Minas Gerais.

A mudança de comando não é apenas administrativa. Ela reposiciona a direita para a eleição presidencial de 2026, consolida Zema como nome nacional no campo conservador e transforma o tocantinense Mateus Simões em peça central de um dos estados mais estratégicos do país. Em um Brasil em que Minas costuma funcionar como termômetro político, a posse de um nome nascido no sul do Tocantins no Palácio Tiradentes passa a ter peso simbólico e eleitoral.

Zema deixou o governo dentro do prazo legal de desincompatibilização exigido para governadores que desejam disputar a Presidência da República. A renúncia já vinha sendo tratada como esperada nos bastidores e foi oficializada em tom claramente eleitoral. No discurso de despedida, o agora ex-governador reforçou críticas ao governo federal e tentou nacionalizar o legado de sua gestão, sinalizando que sua saída de Minas não representa recuo, mas largada formal para a corrida presidencial. A CNN registrou que Zema afirmou ter “devolvido Minas Gerais aos mineiros de bem” e que pretende repetir isso no Brasil, em um recado direto ao eleitorado antipetista.

A troca no comando também confirma um desenho político que já vinha sendo preparado desde 2025. Mateus Simões, que foi eleito vice na chapa de Zema em 2022, deixou o Partido Novo no ano passado e se filiou ao PSD em articulação com Gilberto Kassab. O movimento foi interpretado como parte de uma estratégia de ampliar a base partidária e estruturar sua própria candidatura ao governo mineiro em 2026, com mais tempo de televisão, maior capilaridade e musculatura eleitoral do que o Novo poderia oferecer.

Ou seja: Zema sai para tentar o Planalto, e Simões assume já como herdeiro político do grupo que governou Minas nos últimos anos.

O tocantinense que assume Minas

Para o leitor tocantinense, esse é o ponto de maior interesse da história.

Mateus Simões nasceu em Gurupi, no sul do Tocantins, em 9 de março de 1981. A informação consta tanto em perfis oficiais do Governo de Minas quanto na cobertura da imprensa mineira neste domingo. Advogado, professor universitário, ex-vereador de Belo Horizonte e procurador concursado da Assembleia Legislativa mineira, ele construiu a carreira política em Minas, mas carrega a origem tocantinense como dado biográfico de forte apelo regional.

O novo governador tem trajetória técnica e política consolidada. Antes de chegar ao posto de vice-governador, foi secretário-geral do governo Zema no primeiro mandato e se tornou um dos principais articuladores administrativos da gestão. Na prática, já era tratado como um dos homens fortes do governo mineiro, com presença em entregas, negociações políticas e articulações institucionais. Ao assumir o cargo agora, deixa de ser apenas operador de bastidor e passa a ocupar a vitrine principal do Executivo de um dos maiores colégios eleitorais do país.

Zema nacionaliza o discurso e tenta entrar no jogo pesado de 2026

A renúncia de Zema também precisa ser lida no tabuleiro nacional.

O ex-governador tenta converter dois mandatos em Minas em capital político nacional, apostando em um discurso liberal na economia, conservador nos costumes e crítico ao governo Lula. A saída do cargo neste momento busca liberar agenda, ampliar circulação nacional e permitir que ele entre com mais intensidade na disputa por espaço dentro da direita, em um campo que ainda convive com o peso do bolsonarismo, a movimentação de governadores como Ronaldo Caiado e a indefinição sobre quem conseguirá romper a polarização.

Nos bastidores, a leitura é que Zema tenta se apresentar como gestor que “entregou resultados” em Minas e agora quer vender esse modelo para o país. O problema é que a transição para o plano nacional não é automática. Embora tenha projeção no empresariado e boa recepção em setores do mercado, ele ainda enfrenta o desafio de transformar notoriedade regional em densidade eleitoral fora de Minas. Esse é o principal teste da renúncia: saber se deixar o cargo cedo fortalece a candidatura ou apenas antecipa o desgaste.

A posse de Mateus Simões reorganiza a direita mineira

Se Zema tenta subir de patamar, Mateus Simões assume com missão dupla.

A primeira é administrativa: manter a continuidade da gestão até dezembro, sem ruptura visível, em um estado que segue pressionado por temas fiscais, infraestrutura, saúde e segurança.

A segunda é eleitoral: usar a cadeira de governador como plataforma para consolidar sua candidatura ao próprio Palácio Tiradentes em outubro.

Esse ponto é decisivo. A posse de Simões não é apenas consequência da saída de Zema. Ela é parte da engenharia política para manter o grupo no poder em Minas. O agora governador já vinha sendo tratado como nome natural da sucessão e, desde a filiação ao PSD, passou a ser visto como a principal aposta da coalizão entre Novo, PSD e partidos do campo conservador para tentar impedir que a oposição retome o estado.

O que muda para o Tocantins

Do ponto de vista institucional, Minas continua sob a mesma orientação política, mas com novo protagonista. Para o Tocantins, a mudança tem um componente simbólico raro: um nome nascido em Gurupi assume o comando de um dos estados mais influentes do país, justamente no momento em que o ex-governador mineiro tenta se transformar em presidenciável.

Isso dá à pauta um apelo regional imediato. Não porque haja vínculo administrativo direto entre Minas e Tocantins, mas porque a origem de Mateus Simões reposiciona um tocantinense no centro de uma disputa nacional relevante. Em um ambiente político em que governadores viraram ativos presidenciais e vices passaram a ser peças de sucessão planejada, Gurupi entra no noticiário nacional pela porta principal.

No fim, a renúncia de Zema diz duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é nacional: a direita começou oficialmente a arrumar suas peças para 2026. A segunda é regional: quem assume o comando de Minas, neste novo ciclo, é um tocantinense.

E esse detalhe, para o Tocantins, é o que transforma a troca de faixa em manchete.

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