Dólar, euro e criptomoedas entram em nova fase e elevam tensão no mercado global

Dólar, euro e criptomoedas entram em nova fase e elevam tensão no mercado global
Economistas avaliam os impactos da inflação e dos juros altos no Brasil em 2025, destacando desafios para o crescimento econômico e o mercado financeiro.
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 24 de março de 2026 2

O mercado financeiro internacional entrou, nesta reta final de março, em uma nova etapa de reprecificação de risco. O movimento, que já vinha sendo ensaiado nas últimas semanas, ganhou intensidade com a combinação de três fatores que raramente aparecem ao mesmo tempo com tanta força: guerra no Oriente Médio com impacto direto sobre energia, bancos centrais sinalizando juros mais altos por mais tempo e retorno das criptomoedas ao centro da discussão como ativo alternativo em meio à instabilidade. O resultado é um ambiente de maior cautela, em que dólar, euro, iene e ativos digitais deixam de se mover apenas por fundamentos tradicionais e passam a reagir também a choques geopolíticos e a mudanças mais profundas no conceito de “porto seguro” no mercado global. A própria Reuters destacou nesta terça-feira (24) que o dólar voltou a ganhar força à medida que diminuía o otimismo com um fim rápido da crise envolvendo Irã e Estados Unidos, com o índice do dólar (DXY) em alta e caminhando para seu melhor desempenho mensal desde outubro de 2025.

Esse ponto é central porque ajuda a entender por que o mercado parece, ao mesmo tempo, desorganizado e coerente. Em ciclos tradicionais de aversão ao risco, investidores correm para dólar, ouro, títulos do Tesouro americano, franco suíço e iene japonês. Mas, em 2026, essa lógica está sendo parcialmente desafiada. Em uma análise publicada hoje, a Reuters observou que a própria noção de “ativo universalmente seguro” está sob revisão: o ouro, por exemplo, acumula queda relevante em março mesmo com a escalada da guerra; Treasuries também vêm sofrendo venda; e o iene, historicamente uma das principais moedas de proteção, não tem reagido com a força esperada. A leitura é clara: o mercado deixou de buscar um abrigo único e passou a selecionar proteção conforme a natureza do choque.

No centro dessa reconfiguração está o dólar. Depois de um período em que parte dos analistas projetava perda gradual de força da moeda americana ao longo de 2026, o cenário mudou com a volta da inflação importada pelo choque energético e com a percepção de que o Federal Reserve não terá tanto espaço para cortar juros quanto o mercado imaginava no início do ano. A Reuters relatou que a atividade empresarial nos Estados Unidos desacelerou para o menor nível em 11 meses, pressionada pelo aumento dos custos de energia e insumos, o que reforça um dilema clássico: crescimento mais fraco, mas inflação ainda resistente. Esse tipo de ambiente tende a sustentar o dólar por mais tempo, especialmente quando investidores voltam a buscar liquidez global.

Na prática, o que se observa é uma mudança de narrativa. O dólar já não sobe apenas porque os Estados Unidos são a maior economia do mundo, mas porque, em momentos de incerteza extrema, continua sendo a principal moeda de liquidez global. Isso pesa diretamente sobre países emergentes como o Brasil, porque dólar mais firme significa pressão sobre importações, combustíveis, inflação doméstica, custo de financiamento e percepção de risco. Em um cenário em que parte do petróleo e do gás natural segue ameaçada pelo impacto da crise na região do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito, segundo a Reuters — o fortalecimento da moeda americana passa a ter efeito em cadeia sobre custo de vida e expectativas inflacionárias.

O euro, por sua vez, vive uma situação mais complexa. A moeda europeia continua forte o suficiente para permanecer como alternativa relevante, mas enfrenta um ambiente menos confortável do que em 2025. O Banco Central Europeu vinha sustentando uma postura mais neutra, porém o choque de energia e a desaceleração da atividade na zona do euro recolocaram a inflação no centro do debate. Isso produz um paradoxo: a Europa sofre mais diretamente com choques energéticos e crescimento fraco, mas o euro ainda preserva parte de sua atratividade porque o mercado começou a enxergá-lo, em alguns contextos, como uma moeda com papel mais defensivo do que no passado. Um discurso do próprio Banco Central Europeu, em fevereiro, destacou que o euro passou a se comportar mais como um “safe haven” em parte do mercado internacional, reforçando seu papel global.

Esse detalhe é importante porque revela uma mudança estrutural. Durante décadas, o euro foi visto muito mais como moeda de integração regional do que como rival real do dólar em momentos de crise. Agora, em parte do mercado, ele começa a ser lido como reserva alternativa — ainda que sem a profundidade do sistema financeiro americano. Isso não significa que o euro tenha substituído o dólar. Significa, apenas, que o sistema financeiro global ficou mais fragmentado e menos dependente de um único eixo de segurança. Para economias emergentes, isso abre oportunidades pontuais de diversificação, mas também aumenta a volatilidade, porque fluxos de capital podem migrar com mais velocidade entre blocos monetários.

O iene japonês talvez seja o melhor símbolo da crise do modelo antigo. Historicamente tratado como um dos principais refúgios em momentos de turbulência, ele tem apresentado desempenho mais errático em 2026. Mesmo com o Banco do Japão avançando na normalização monetária e já tendo elevado juros neste ciclo, a moeda japonesa continua pressionada pela diferença de juros em relação aos Estados Unidos e pelo custo inflacionário importado do choque energético. Dados recentes de mercado mostram o par USD/JPY rondando níveis sensíveis, próximos de 160 em parte de março, o que reacendeu temores de intervenção oficial do governo japonês. Relatos de mercado e cobertura recente indicam que o iene chegou perto de mínimas de quase dois anos antes de alguma recuperação após decisões do Banco do Japão.

Esse comportamento do iene importa muito porque ele desmonta uma premissa antiga: a de que basta haver crise global para a moeda japonesa se valorizar automaticamente. Em 2026, isso já não é mais verdade. O Japão convive com inflação doméstica, juros ainda baixos em termos reais e vulnerabilidade ao custo de energia importada. Resultado: o iene segue relevante, mas não consegue mais oferecer proteção automática como em ciclos anteriores. Isso explica por que muitos analistas passaram a tratar a atual fase como uma mudança de regime no mercado de câmbio internacional.

E, no meio desse rearranjo, as criptomoedas voltam a ganhar protagonismo — mas não como um refúgio puro e simples. O Bitcoin continua rondando a faixa de US$ 70 mil a US$ 71 mil em março, com momentos de recuperação e correção, num ambiente de forte sensibilidade ao discurso do Federal Reserve, aos fluxos de ETFs e ao apetite por risco. Em vez de se comportar como “ouro digital” de forma estável, o ativo segue reagindo tanto a liquidez quanto a sentimento de mercado. Nas últimas sessões, o mercado cripto alternou entradas e saídas em ETFs e passou por desalavancagem, o que mostra que o setor ainda está longe de oferecer a previsibilidade de um ativo clássico de proteção. Ainda assim, ele voltou ao radar institucional como peça de diversificação e como termômetro de risco tecnológico e financeiro.

O que isso significa na prática? Que as criptomoedas não estão substituindo moedas tradicionais, mas passaram a ocupar um espaço que antes era marginal. Em momentos de juros mais baixos e liquidez farta, elas funcionam como ativo de risco com potencial de alta acelerada. Em momentos de incerteza e choque geopolítico, parte do mercado volta a usá-las como aposta alternativa contra desvalorização monetária e contra o excesso de intervenção estatal. Só que isso não elimina a volatilidade. Ao contrário: em 2026, o Bitcoin e as principais criptos se mostram mais integrados ao sistema financeiro tradicional, e por isso oscilam com mais força diante de decisões do Fed, fluxo de ETFs, energia, guerra e percepção de recessão.

O grande ponto, portanto, é que o mercado entrou numa fase em que moedas tradicionais e ativos digitais já não competem em mundos separados. O dólar continua sendo o centro do sistema. O euro tenta ganhar espaço como alternativa parcial. O iene perde parte do status automático de proteção. E as criptomoedas entram de vez na equação como ativo híbrido: parte tecnologia, parte especulação, parte reserva alternativa para uma parcela do mercado. Essa combinação torna o ambiente mais difícil de ler, especialmente para investidores médios e para economias emergentes.

Para o Brasil, o efeito é direto. Quando o dólar ganha força em meio a choque externo, a pressão aparece em várias frentes: combustíveis, importados, inflação de alimentos e bens industriais, custo do crédito, percepção de risco e até fluxo de capital para Bolsa e renda fixa. Se o euro também se fortalece em determinados momentos e o iene perde previsibilidade, o mercado global deixa de oferecer referências claras. Isso tende a aumentar a cautela dos investidores locais e a reforçar uma postura mais defensiva em carteiras. Ao mesmo tempo, a retomada das criptomoedas reacende o apetite de parte do varejo, o que pode ampliar a exposição de pequenos investidores a um ambiente de alta volatilidade justamente quando o cenário externo está mais instável.

O que especialistas e grandes casas de análise vêm sugerindo, ainda que com leituras diferentes, é que o investidor precisará abandonar a lógica de “uma proteção serve para tudo”. A própria Reuters resume esse novo momento com clareza: a proteção agora depende do tipo de crise. Se o choque é energético, determinados ativos podem reagir melhor. Se o problema é inflação persistente, caixa e juros reais voltam a ganhar valor. Se o temor é desorganização monetária ou fiscal, dólar e parte do universo cripto podem atrair fluxo. Em outras palavras: a carteira de 2026 tende a ser menos baseada em certezas históricas e mais em cenários.

Por isso, quando se diz que dólar, euro e criptomoedas entraram em uma “nova fase”, a frase não é exagero. O que está acontecendo não é apenas uma oscilação pontual de mercado. É uma mudança no comportamento dos investidores diante de um mundo mais fragmentado, com guerra afetando energia, bancos centrais sem margem confortável para aliviar juros e tecnologia financeira cada vez mais integrada ao centro do sistema. Para o investidor brasileiro, isso exige menos euforia, mais leitura macroeconômica e atenção redobrada aos próximos meses. Porque, se antes a pergunta era “qual ativo sobe?”, agora a pergunta correta passou a ser outra: qual risco está dominando o mercado hoje — e quem realmente se protege dele?

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