Lula apresenta caça supersônico feito no Brasil e recoloca defesa, tecnologia e soberania no centro do debate
Ao lado do primeiro F-39E Gripen montado em território nacional, presidente participa de cerimônia na Embraer e marca novo capítulo da indústria de defesa; país entra em grupo restrito com capacidade de produzir aeronaves de combate de alta complexidade
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, nesta quarta-feira (25), em Gavião Peixoto (SP), da apresentação do primeiro caça supersônico F-39E Gripen montado no Brasil, em uma cerimônia que ultrapassa o simbolismo militar e recoloca no centro do debate um tema que raramente ganha espaço fora de crises ou guerras: a relação entre defesa, tecnologia, indústria e soberania nacional. O evento, realizado nas instalações da Embraer, marcou a apresentação oficial da primeira aeronave de combate supersônica produzida em território brasileiro dentro do programa desenvolvido em parceria com a sueca Saab. Com isso, o Brasil passa a integrar um grupo restrito de países com capacidade de montar caças de alta complexidade e se torna o primeiro país da América Latina a dominar esse tipo de produção.
O gesto político é maior do que a imagem do presidente ao lado de um jato militar. Em um momento em que o mundo volta a discutir corrida tecnológica, reindustrialização, disputas por cadeias estratégicas e autonomia nacional em setores sensíveis, o Planalto tenta transformar a apresentação do Gripen em uma mensagem de Estado: defesa não é apenas gasto militar; defesa é também indústria, engenharia, inovação, formação de pessoal e projeção internacional. É por isso que o F-39E não entra apenas como equipamento da Força Aérea Brasileira. Ele entra como símbolo de capacidade produtiva e como argumento de soberania.
A aeronave apresentada nesta semana faz parte do Programa Gripen Brasileiro, nascido do contrato firmado em 2014entre o governo brasileiro e a Saab para substituir parte da frota envelhecida da FAB. O acordo previa a aquisição de 36 caças Gripen E/F, com um componente decisivo: transferência de tecnologia. Dentro desse desenho, parte da produção seria internalizada no Brasil, com a criação de infraestrutura, centros de desenvolvimento e linha de montagem na unidade da Embraer em Gavião Peixoto. O modelo apresentado agora é justamente o primeiro caça supersônico montado no país dentro dessa lógica industrial. O programa prevê que 15 das 36 aeronaves sejam produzidas no Brasil.
Esse detalhe muda tudo. Porque não se trata apenas de comprar uma aeronave pronta no exterior. O que o governo e as empresas tentam vender como feito histórico é outra coisa: a capacidade de absorver conhecimento, treinar engenheiros, criar infraestrutura local, internalizar etapas de produção e transformar o Brasil em um polo regional de aviação militar. A própria Saab já definiu a linha de Gavião Peixoto como sua única linha de produção do Gripen fora da Suécia e como potencial base de exportação para mercados da América Latina, em um contexto em que a empresa tenta ampliar vendas na região, inclusive após avanços em países como Colômbia e a ofensiva comercial no Peru.
Na prática, o Gripen recoloca a Embraer Defesa & Segurança no centro de uma conversa estratégica que vai muito além da FAB. A Embraer já é um dos ativos industriais mais relevantes do país, com peso global em aviação comercial, executiva e militar. No segmento de defesa, o país vinha buscando consolidar projetos de maior densidade tecnológica, como o cargueiro C-390 Millennium. O Gripen amplia esse salto porque envolve um patamar mais sensível: o de uma plataforma de combate supersônica, de alto valor agregado, com sistemas avançados e integração complexa. O que está em jogo, portanto, não é apenas a chegada de um novo caça à frota. É a tentativa de reposicionar o Brasil em uma faixa mais alta da cadeia global de defesa.
O F-39E Gripen, na versão apresentada, é um caça multifunção de geração avançada, capaz de operar em missões de superioridade aérea, ataque, interceptação e defesa do espaço aéreo. Em reportagens técnicas e de mercado publicadas após a cerimônia, o modelo foi descrito com velocidade próxima de 2.400 km/h a 2.500 km/h, além de capacidade de integração de armamentos e sensores sofisticados. Mas, do ponto de vista político, os números mais importantes talvez sejam outros: o programa foi estruturado como uma operação de bilhões de reais, com horizonte de longo prazo e impacto em empregos qualificados, formação de engenheiros e desenvolvimento de fornecedores. Fontes ligadas à cobertura do evento mencionam cifras de US$ 4 bilhões a US$ 4,5 bilhões para o contrato original, com desdobramentos industriais até a próxima década.
A cerimônia em Gavião Peixoto também expõe uma mudança de linguagem do próprio governo Lula em relação à agenda de defesa. Historicamente, esse campo costuma oscilar entre dois extremos no debate público brasileiro: ou aparece associado a temas corporativos das Forças Armadas, ou é capturado por disputas ideológicas rasas. O que o Planalto tenta fazer agora é outro movimento: apresentar defesa como parte de uma agenda de neoindustrialização, política tecnológica e prestígio internacional. É uma forma de disputar o tema sem entregá-lo exclusivamente ao discurso militarista tradicional e sem abandoná-lo como se fosse um assunto periférico.
Isso importa porque a geopolítica voltou. O mundo atravessa um ciclo de tensões simultâneas — Ucrânia, Oriente Médio, Indo-Pacífico, reorganização de alianças, pressão sobre cadeias industriais estratégicas — e países médios, como o Brasil, passaram a rediscutir com mais seriedade a necessidade de preservar autonomia em áreas sensíveis. Em um cenário de competição tecnológica global, depender integralmente de fornecedores externos em setores críticos como defesa, sensores, software embarcado, sistemas eletrônicos e manutenção pesada deixa de ser apenas uma questão comercial. Passa a ser uma vulnerabilidade estratégica.
É nesse contexto que o Gripen ganha valor político. Ele permite ao governo sustentar uma narrativa de que o Brasil não está apenas comprando poder militar, mas tentando construir capacidade nacional. Evidentemente, há limites claros: o programa é resultado de uma cooperação com a Suécia, depende de transferência de tecnologia e não significa independência absoluta. O país não se torna, de um dia para o outro, autossuficiente em toda a cadeia de um caça de combate. Mas esse não é o ponto. O ponto é que o Brasil avança de um estágio de comprador puro para um estágio de coprodutor com absorção tecnológica, e isso altera sua posição relativa no mapa regional.
No plano simbólico, o anúncio também conversa com a ideia de prestígio. Poucos ativos traduzem poder de Estado de forma tão imediata quanto uma aeronave militar de alta performance. Em termos de imagem, o caça fala com vários públicos ao mesmo tempo: com a indústria, com as Forças Armadas, com o mercado internacional, com a opinião pública e com a diplomacia. Ao aparecer ao lado do Gripen, Lula tenta associar seu governo não apenas à agenda social e econômica, mas também à noção de capacidade nacional em setores de alta complexidade.
O Brasil, claro, continua enfrentando limitações fiscais, gargalos industriais e dependência externa em componentes estratégicos. Também seguirá convivendo com o debate inevitável sobre prioridades: em um país desigual, qual o limite entre investimento legítimo em defesa e gasto politicamente sensível? Essa discussão é real e precisa existir. Mas o episódio desta semana mostra algo maior: o tema da defesa voltou a ser apresentado não como nostalgia militar nem como fetiche bélico, mas como parte de uma conversa mais ampla sobre qual país o Brasil quer ser em um mundo mais duro, mais competitivo e mais tecnológico.
No fim, o F-39E Gripen apresentado em Gavião Peixoto não fala apenas de velocidade, alcance ou capacidade de combate. Ele fala de outra coisa: da tentativa de mostrar que soberania, no século 21, não se mede só por território ou bandeira. Mede-se também pela capacidade de projetar, montar, aprender, integrar tecnologia e ocupar posições estratégicas em cadeias que definem poder.
E foi exatamente isso que Lula tentou colocar em cena ao posar ao lado do primeiro caça supersônico montado no Brasil.