Portelinhando Crônicas | PowerPoint criminoso, retratação insuficiente

Portelinhando Crônicas | PowerPoint criminoso, retratação insuficiente
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 30 de março de 2026 2

Há erros no jornalismo que nascem da pressa. Outros, da falha humana. E há aqueles que ultrapassam a fronteira do equívoco para entrar numa zona mais perigosa: a da narrativa construída para sugerir antes de provar, da imagem montada para conduzir antes de informar, da culpa desenhada antes mesmo de qualquer evidência sólida.

Foi isso que apareceu no episódio protagonizado pela GloboNews.

Durante boa parte de um fim de semana, a emissora exibiu um PowerPoint que ligava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores e o empresário Daniel Vorcaro por meio de setas, blocos visuais e conexões que pareciam querer dizer muito mais do que efetivamente conseguiam demonstrar. Não era apenas um recurso gráfico para organizar fatos. Era uma arquitetura visual de indução. E, quando o jornalismo passa a organizar suspeitas como se fossem certezas estéticas, ele deixa de informar para começar a insinuar.

O problema não estava apenas no conteúdo. Estava, sobretudo, na forma. Em televisão, forma também é mensagem. Talvez, muitas vezes, seja a mensagem principal.

Um quadro com nomes, flechas, associações e conexões visuais não é neutro. Nunca foi. Esse tipo de recurso carrega um poder simbólico enorme porque transforma complexidade em narrativa instantânea. O espectador não precisa ouvir uma acusação explícita. Basta olhar. O cérebro completa sozinho o resto. É assim que se produz um atalho perigoso entre informação incompleta e condenação intuitiva.

Quando um telejornal usa esse expediente sem amparo robusto, não está apenas cometendo um erro de edição. Está oferecendo ao público uma lógica visual de culpa.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Misturaram-se relações institucionais, proximidades políticas, conexões empresariais e suspeitas ainda não demonstradas de maneira conclusiva, tudo sob a aparência limpa e objetiva de um slide. Mas aparência de método não é método. Aparência de apuração não é apuração. E aparência de lógica não é prova.

O que se viu foi um daqueles momentos em que a embalagem visual tenta emprestar seriedade àquilo que, no fundo, ainda carece de sustentação. O recurso que deveria esclarecer serviu para empurrar o público a uma conclusão pronta. Em vez de abrir espaço para nuance, fechou a interpretação. Em vez de iluminar os fatos, encenou uma sentença.

E há um agravante que o jornalismo conhece muito bem, embora finja esquecer quando convém: omitir também é narrar.

O que entra num quadro importa. Mas o que fica de fora, às vezes, importa ainda mais. Em qualquer montagem visual dessa natureza, a seleção é tudo. Quem aparece, como aparece, ao lado de quem aparece e sob qual contexto aparece. Quando nomes relevantes somem, quando conexões potencialmente incômodas não entram, quando a montagem privilegia um desenho específico de interpretação, o problema já não é apenas editorial. Passa a ser estrutural. Porque a edição deixa de ser filtro técnico e vira instrumento narrativo.

Depois veio a correção.

No Estúdio I, Andréia Sadi reconheceu que o material era “errado e incompleto”. O pedido de desculpas era inevitável. Veio porque precisava vir. Veio porque o exagero se tornou visível demais. Veio porque, quando a repercussão explode, o recuo costuma ser menos um gesto espontâneo de rigor e mais um mecanismo de contenção de dano.

Mas a retratação, embora necessária, foi insuficiente.

E foi insuficiente por uma razão simples, brutal e conhecida por qualquer profissional de comunicação minimamente honesto: na comunicação de massa, a acusação sempre corre mais rápido do que a reparação. O conteúdo visualmente apelativo, repetido em tela, com força simbólica, com estética de revelação, com linguagem de escândalo, gruda na memória coletiva. A correção vem depois, geralmente mais fria, mais técnica, mais discreta e quase sempre menor do que o estrago.

O público lembra da imagem. Raramente guarda o pedido de desculpas com a mesma intensidade.

É por isso que esse episódio não pode ser tratado como um mero tropeço editorial. Não se trata de uma falha banal de newsroom. Não é o tipo de erro que se resolve com um “ajuste de rota” e segue o baile. O que está em jogo aqui é algo muito maior: a credibilidade do jornalismo em um tempo em que a confiança pública já está em frangalhos.

Quando uma grande emissora recorre a um artifício visual que sugere culpa sem prova consolidada, ela não atinge apenas os personagens envolvidos. Ela atinge o próprio ofício. Porque reforça exatamente aquilo que os piores inimigos do jornalismo mais desejam repetir: a ideia de que parte da imprensa não investiga para entender, mas organiza fatos para encaixá-los numa narrativa prévia.

E esse é o ponto mais incômodo de todos.

O maior risco não é o erro em si. Erros existem. Sempre existiram. O maior risco é quando o erro revela método. Quando a falha parece menos um acidente e mais um reflexo de uma lógica de produção em que a forma de contar já nasce orientada por um destino desejado. Primeiro se desenha o culpado. Depois se organiza o material ao redor dele. Primeiro se cria o clima. Depois se vende a aparência de apuração.

Esse é o jornalismo que mais corrói por dentro, porque ele preserva a estética da credibilidade enquanto esvazia o seu conteúdo.

No fim, sobra uma pergunta que nenhuma retratação elegante consegue apagar: quantas vezes a aparência de informação tem servido apenas para dar verniz àquilo que já nasceu como narrativa?

Porque erro se corrige.

Descuido se reconhece.

Agora, quando a forma de contar já nasce contaminada pela vontade de sugerir culpa, o pedido de desculpas pode até ser obrigatório.

Mas jamais será suficiente.

Notícias relacionadas