Banana, feijão, óleo e batata pesam no bolso: comparação entre Ceasa e supermercados expõe onde o consumidor está pagando mais no Tocantins
Na mesa do tocantinense, a conta já não fecha tão fácil — e alguns produtos viraram símbolo da inflação do dia a dia. A diferença entre o preço de origem e o valor final na prateleira voltou a chamar atenção no Tocantins, especialmente em itens que parecem simples, mas pesam forte no orçamento das famílias: banana, feijão, óleo de soja e batata. Quando se compara a referência de atacado da Ceasa-TO com o que aparece nos supermercados e atacarejos do estado, o retrato é claro: o consumidor continua pagando bem mais no varejo — e, em alguns casos, a distância entre a origem e o caixa já virou parte do problema do custo de vida.
A comparação é importante porque a Ceasa funciona como uma espécie de termômetro do preço-base. É ali que se observa o valor mais próximo da cadeia de abastecimento, antes de o produto passar por frete urbano, perdas, armazenamento, margem do distribuidor, margem do supermercado e custos operacionais do varejo. O que o consumidor vê no mercado, portanto, não é apenas o preço do alimento — é o preço do alimento somado ao custo da cidade, da logística e da estrutura comercial. No Tocantins, onde o transporte rodoviário segue como eixo dominante e a distância entre produção, distribuição e consumo ainda pesa muito, essa diferença tende a ser mais visível.
A banana, por exemplo, continua sendo um dos produtos mais sensíveis e mais simbólicos desse descompasso. Levantamentos recentes no Tocantins mostram que, em Palmas, a banana prata vinha sendo encontrada em média por R$ 6,50 o quilo, enquanto em cidades como Gurupi e Colinas do Tocantins os valores podiam chegar a R$ 7,00, dependendo da origem e do ponto de venda. Ao mesmo tempo, o comportamento da banana na cesta básica de Palmas mostrou queda de 9,96% em fevereiro sobre janeiro, o que indica alívio pontual, mas não elimina a sensação de encarecimento quando o consumidor compara lojas, bairros e frequência de compra. A banana é o típico item que oscila com clima, safra, transporte e perdas, e por isso se transforma rapidamente em “termômetro da feira” para as famílias.
O feijão carioca, outro protagonista da alimentação popular, também ajuda a explicar por que a inflação parece maior do que os números gerais às vezes sugerem. No varejo tocantinense, levantamentos recentes mostram o produto em uma faixa de R$ 7,50 a R$ 9,50 o quilo, com variação ligada à marca, à qualidade, à origem e ao estabelecimento. Na cesta básica de Palmas, o feijão subiu 2,25% em fevereiro na comparação com janeiro, mesmo em um mês de recuo do custo total da cesta. Isso mostra exatamente o que o consumidor sente no bolso: a cesta pode até recuar no conjunto, mas basta um item de compra recorrente subir para a sensação de aperto continuar. O feijão pesa menos no discurso macroeconômico do que o tomate em uma alta explosiva, mas pesa mais na vida real porque ele volta toda semana para o carrinho.
O óleo de soja é outro caso clássico de “inflação silenciosa”. Ele nem sempre aparece como vilão absoluto em um único mês, mas se mantém entre os itens que acumulam pressão no orçamento. Em Palmas, segundo a análise mensal da cesta básica, o óleo registrou queda pontual de 1,16% em fevereiro, mas no acumulado desde abril de 2025 ainda aparecia com alta de 1,85%, um movimento que ajuda a explicar por que tantas famílias relatam que “o mercado até melhorou um pouco, mas o básico continua caro”. O óleo tem um peso psicológico forte porque não é item supérfluo: ele está no preparo diário. Quando sobe ou demora a ceder, a percepção de encarecimento da comida permanece, mesmo que outros produtos recuem.
A batata, por sua vez, virou um dos produtos mais instáveis do hortifrúti e segue entre os alimentos que mais castigam o bolso quando a oferta aperta. Diferentemente de itens mais “estáveis” na percepção popular, a batata responde rápido a clima, safra, quebra de produção, frete e perda de qualidade no transporte. Em estados como o Tocantins, que dependem de rotas rodoviárias e de abastecimento interestadual em vários momentos do ano, esse efeito costuma chegar rápido às gôndolas. É o tipo de alimento que parece barato no atacado quando a oferta está normal, mas que no varejo pode mudar de patamar em poucos dias e comprometer justamente a compra de quem tenta manter uma alimentação básica com pouca margem de escolha.
O resultado é que a diferença entre Ceasa e supermercado expõe uma verdade que o consumidor já percebeu antes dos relatórios: o problema não é só o preço do alimento, é o caminho que ele percorre até a mesa. Em mercados e atacarejos do Tocantins, o mesmo produto pode chegar com diferença relevante entre bairros, redes e cidades, e isso cria uma espécie de “inflação da geografia”. Quem mora perto de polos comerciais maiores, tem carro, tempo e possibilidade de comparar, economiza. Quem compra por urgência, proximidade ou limitação de transporte paga mais caro. E, no fim, o alimento básico deixa de ser só uma despesa: vira também um retrato da desigualdade de acesso.
Para o economista Marcos Valverde, ouvido pela reportagem, o erro mais comum é tratar a diferença entre atacado e varejo como se fosse apenas margem de lucro. Segundo ele, a explicação é mais complexa — e mais dura para o consumidor do Norte. “A Ceasa mostra o preço de entrada. O supermercado mostra o preço final de uma cadeia inteira. No Tocantins, essa cadeia é mais cara porque depende fortemente de logística rodoviária, tem dispersão territorial e perdas maiores em hortifrúti. O consumidor enxerga o preço da banana ou da batata, mas por trás dele estão combustível, armazenamento, transporte, ruptura de estoque e custo operacional. O problema é que, para a família, pouco importa a justificativa: o que ela vê é que o carrinho ficou menor”, afirma.
No lado de quem compra, a percepção é ainda mais direta. A dona de casa Maria de Lourdes Santos, de 43 anos, moradora de Araguaína, resume o drama de milhares de famílias tocantinenses. “A gente entra no mercado achando que vai comprar o básico e sai cortando item. A banana já não é aquela fruta que você pega sem pensar. O feijão você compara marca. O óleo você espera promoção. E a batata, dependendo da semana, eu simplesmente deixo. O mais triste é isso: o alimento básico virou conta de calculadora”, diz. Segundo ela, a saída tem sido fracionar compras, trocar marca e substituir alguns itens por produtos de menor valor — ainda que isso nem sempre signifique manter a mesma qualidade alimentar.
Esse tipo de fala ajuda a explicar por que a inflação da comida continua sendo um tema tão sensível no Tocantins, mesmo quando alguns indicadores mostram alívio parcial. Em fevereiro, por exemplo, o custo da cesta básica em Palmas caiu para R$ 695,28, uma redução de 0,74% em relação a janeiro. No papel, parece melhora. Na prática, a fotografia é mais complexa: oito itens caíram, quatro subiram, e justamente os produtos que voltam toda semana ao carrinho — como feijão e óleo, em determinados períodos — continuam reorganizando a sensação de aperto. A cesta pode até recuar no agregado. Mas a vida real não é feita de agregado. É feita de compra repetida, gasto miúdo e ida ao mercado sem folga no orçamento.
No Tocantins, essa dinâmica tem um agravante: a alimentação não pesa apenas pelo preço absoluto, mas pela grande dispersão entre estabelecimentos. Reportagens e levantamentos locais já mostraram que o estado convive com diferenças expressivas entre mercados, feiras, atacarejos e redes maiores, o que transforma a pesquisa de preços em ferramenta de sobrevivência. Em outras palavras: quem não pesquisa, paga mais. Mas nem todo mundo pode transformar a compra de comida em operação logística. Quem depende de ônibus, mora longe dos centros comerciais ou compra perto de casa porque trabalha o dia inteiro, acaba pagando a chamada “taxa da pressa” — um custo invisível que recai sempre sobre quem tem menos margem para escolher.
No fim, a comparação entre Ceasa e supermercados expõe mais do que números. Ela escancara um modelo em que o preço-base até pode aliviar, mas o valor final continua alto para quem está na ponta. Banana, feijão, óleo e batataviraram símbolo porque são exatamente o tipo de produto que ninguém compra por luxo. São itens de rotina, de repetição, de sobrevivência doméstica. E quando eles começam a pesar demais, o consumidor não sente apenas inflação. Ele sente perda de poder de compra, perda de qualidade da alimentação e perda de autonomia dentro do próprio orçamento.
A pergunta que fica para o Tocantins, portanto, é simples e incômoda: se a Ceasa mostra um preço e o supermercado entrega outro muito acima, até que ponto a comida continua cara por causa do campo — e até que ponto ela ficou cara demais por causa do caminho até a mesa?