Investigação sobre chacina em Miracema aponta suspeita de grupo de extermínio

Investigação sobre chacina em Miracema aponta suspeita de grupo de extermínio
Investigação da Polícia Civil do Tocantins esclarece caso de desvio de mais de R$ 20 mil para apostas digitais em Babaçulândia.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 11 de maio de 2026 0

A operação que resultou no cumprimento de mandados contra policiais militares investigados pela chamada Chacina de Miracema ampliou a dimensão de um dos casos mais graves da segurança pública recente no Tocantins. O que inicialmente era tratado como uma reação à morte de um sargento da Polícia Militar passou a ser investigado pelas autoridades como uma possível ação coordenada com características de grupo de extermínio.

Na última sexta-feira, a Secretaria da Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO) confirmou o cumprimento de 23 mandados de prisão preventiva e um afastamento de função pública contra policiais militares investigados por participação direta nas mortes ocorridas em fevereiro de 2022 em Miracema do Tocantins.

A investigação conduzida pela DRACCO Diretoria de Repressão ao Crime Organizado aponta indícios de execuções, adulteração de provas, uso irregular da estrutura policial e invasão de uma delegacia da Polícia Civil.

Nos bastidores das forças de segurança, o caso passou a ser tratado como um dos episódios mais delicados envolvendo possível violência institucional no estado nos últimos anos.

Caso começou após assassinato de sargento da PM

A sequência de mortes aconteceu após o assassinato do sargento da Polícia Militar Anamon Rodrigues de Sousa.

Segundo a investigação, seis pessoas morreram entre os dias 4 e 5 de fevereiro de 2022 em circunstâncias que agora passaram a ser reavaliadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.

Durante coletiva, investigadores afirmaram que apenas uma das vítimas teria ligação direta com o assassinato do policial militar.

De acordo com o delegado Afonso Lyra, responsável pela investigação, as demais vítimas não possuíam antecedentes criminais nem relação comprovada com o homicídio do sargento.

A declaração alterou significativamente a percepção sobre o caso.

Até então, parte da repercussão pública tratava as mortes como desdobramento direto do assassinato do policial militar. Com o avanço das investigações, porém, a hipótese de represália organizada ganhou força.

Invasão de delegacia se tornou ponto central da investigação

Um dos episódios mais graves apurados pela Polícia Civil foi a invasão da Delegacia de Miracema.

Segundo a investigação, homens encapuzados entraram na unidade policial e executaram Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva, pai e irmão do principal suspeito pela morte do sargento.

O episódio passou a ser tratado pelas autoridades como símbolo de ruptura institucional.

“A delegacia é um ambiente em que o cidadão precisa se sentir seguro”, afirmou o delegado responsável pelo caso ao comentar a gravidade da invasão.

Para investigadores, o ataque dentro de uma unidade policial demonstra um possível grau de organização incompatível com ações isoladas ou impulsivas.

A apuração também aponta suspeitas de manipulação de registros operacionais, possível adulteração de informações relacionadas a viaturas e tentativa de interferência em provas e testemunhas.

O que caracteriza um grupo de extermínio

Especialistas em segurança pública explicam que grupos de extermínio possuem características específicas que vão além de homicídios comuns.

Normalmente, esse tipo de organização atua por meio de execuções direcionadas, escolha prévia de alvos, intimidação coletiva e tentativa de substituição ilegal do sistema de Justiça por ações clandestinas de “punição”.

Em muitos casos investigados no Brasil nas últimas décadas, houve participação direta ou indireta de agentes públicos.

Segundo estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e análises do Conselho Nacional do Ministério Público, grupos de extermínio costumam surgir em ambientes marcados por fragilidade institucional, sensação de impunidade e fortalecimento de estruturas paralelas de violência.

A pesquisadora Simone Alencar, especialista em violência institucional e políticas de segurança pública, afirma que casos desse tipo produzem impacto profundo sobre a confiança da população nas instituições.

“Quando existe suspeita de participação de agentes do próprio Estado em execuções ilegais, o impacto ultrapassa o crime em si. Isso atinge diretamente a confiança social no sistema de segurança pública”, afirma.

Segundo ela, episódios envolvendo possível violência institucional costumam gerar medo coletivo prolongado nas cidades atingidas.

“O problema não é apenas o número de mortes. É a sensação de ruptura da proteção estatal”, explica.

Casos semelhantes já ocorreram em outros estados

O Brasil possui histórico de investigações envolvendo suspeitas de grupos de extermínio ligados a agentes públicos em diferentes regiões.

Casos semelhantes foram registrados em estados como Bahia, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Pará ao longo das últimas décadas.

Relatórios nacionais sobre segurança pública apontam que esse tipo de estrutura normalmente atua em contextos de vingança, disputas locais, controle territorial ou ações paralelas de “justiçamento”.

Especialistas afirmam que operações conduzidas por corregedorias, Ministério Público e polícia judiciária costumam enfrentar dificuldade elevada nesses casos devido ao medo de testemunhas e ao possível envolvimento de integrantes das próprias forças de segurança.

SSP afirma que investigação segue em andamento

A Secretaria da Segurança Pública informou que a operação faz parte do avanço das investigações relacionadas aos homicídios ocorridos em Miracema e afirmou que o trabalho segue sob responsabilidade da Polícia Civil.

Segundo a SSP, as medidas judiciais foram autorizadas com base em elementos reunidos durante a investigação conduzida pela Dracco.

Até o momento, as defesas dos investigados não haviam se manifestado oficialmente sobre o caso.

Enquanto isso, o avanço da operação reacendeu em Miracema um clima de medo e tensão que parte da população acreditava já ter ficado no passado.

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